Mas o peior ainda eram os funccionarios superiores, que as potencias installavam no interior da administração egypcia—tão ciumentas umas das outras, que, se, por exemplo, a França conseguia accommodar um francez na directoria geral das finanças, logo a Inglaterra, para contrabalançar essa parcella de influencia, empurrava um inglez para dentro do estado-maior da marinha; e por seu turno a Italia, já desconfiada, mettia á força um filhote de Roma na direcção da instrucção publica. Alguns d'estes cavalheiros tinham de certo habilidades de especialistas; mas a sua abundancia mesmo enredava o movimento da machina administrativa. Está hoje provado que o Khediva, cedendo a estas pressões, era obrigado a ter seis empregados para fazer o simples trabalho de um! Todo este mundo formava um estado no estado.
Nas suas repartições de finança, nos seus tribunaes, nos seus estados maiores, nas suas commissões, em todos os recantos da sua administração, o Egypto só via faces estrangeiras, só escutava linguas estrangeiras, só sentia interesses estrangeiros; e o dinheiro egypcio mantinha esta cohorte, que só estava alli para annullar a influencia egypcia. E eram ao menos uteis?... O consul-geral dos Estados Unidos conta, n'um livro recente sobre o Egypto, que jantara um dia no Cairo com seis empregados superiores, todos estrangeiros, cujos ordenados sommados subiam annualmente a perto de cem contos! Nas suas repartições, a correspondencia, a escripturação, a contabilidade, tudo era feito em lingua arabe: e nenhum d'elles sabia o arabe!
Não havia talvez sobre a terra peior população que a de Alexandria. Essa cidade, que fôra outr'ora o refugio do saber e do luxo do oriente, tornara-se nos nossos dias, sob o Khediva Ismail-Pachá, o barril de lixo da Europa meridional. Todo o refugo humano da Grecia, das ilhas do Archipelago, da Italia, da Sicilia, de Marselha (e Deus sabe quanto estas bellas paragens classicas abundam em meliantes!) se esvasiava instinctivamente sobre Alexandria, alastrava-a, tornava-a sob o seu bello céo azul-ferrete uma fetida estrumeira social.
Bastava atravessar uma rua, para comprehender o conjuncto dos costumes.
A cada esquina, um café-cantante atulhado d'uma malta enxovalhada, que berra, cachimba, emborca aguardente, emquanto sobre o tablado, por traz da ribalta, uma matrona despeitorada e caiada vae rouquejando um estribilho obsceno... De dez em dez casas um lupanar, separado apenas da rua por uma simples cortina... Por toda a parte o jogo: um sacripanta traz uma pequena roleta, um banco, e no meio da rua installa a batota; em redor apinham-se logo outros sacripantas, e d'ahi a momentos a policia tem de acudir, porque corre sangue...
O viajante de gosto e de educação tinha de fugir bem depressa d'esta atmosphera, refugiar-se n'algum quieto café mussulmano, á beira d'agua tranquilla. Ahi ao menos só havia arabes que fumavam gravemente o seu chibouk, fallavam entre si com pollidez, comportavam-se com dignidade.
Ah! estou d'aqui a vêr a primeira mesa redonda a que me sentei em Alexandria!
Era presidida por um grego de pelle livida, de suissas reluzentes como verniz de sapatos, com um grilhão de ouro sobre o collete denotado e brilhantes, talvez verdadeiros, n'uma camisa de oito dias! Que intrujão! que bandido! Como aquillo rolara por todas as trapaças, todos os deboches do littoral levantino! O bom era ouvil-o fallar do Egypto como de um paiz conquistado, terra de ilotas que tinha obrigação de o vestir, de o calçar, de lhe encher a bolsa a elle, e aos outros que o applaudiam em torno da mesa redonda, todos europeus, agenciadores, empregadotes, simples vadios, todos de grilhões de ouro no relogio, de collarinho decotado, o carão resudando vicio, o fallar parlapatão, galãs de espelunca...
—L'arabe, monsieur, dizia-me este equivoco personagem, n'um francez do Pireu, ce n'est qu'une infecte canaille!
O infecto canalha eras tu, livido grego!