É evidente que o que tornou Arabi mais popular no Egypto, foi a sua hostilidade aos estrangeiros. O Egypto para os egypcios! Esta phrase, todo um programma, calou fundo no animo do povo inteiro.
O Egypto para os egypcios—não para os empregados estrangeiros, nem para os agiotas estrangeiros...
Ah! esta questão dos credores! A famosa questão da divida egypcia! Em que gastou Ismail-Pachá esses centenares de milhões que a Europa lhe emprestou, e que o pobre fellah está pagando? Em primeiro logar, na realisação de uma idéa economica—o converter o Egypto, que é um paiz agricola, n'uma nação industrial. O Egypto produzia o assucar—porque o não refinaria? Possuia o algodão—porque o não teceria? E ahi começou, á força de milhões, a cobrir as margens do Nilo d'essas colossaes fabricas, de que hoje só restam ruinas;—ruinas de ferro enferrujado e de madeira podre, tão miseraveis e tão tristes, ao lado das bellas ruinas graniticas dos templos pharaonicos, representando, como ellas, a servidão de um povo, mas, pela sua fealdade, não podendo ao menos servir, como ellas, nem para assumpto de uma aquarella...
A outra causa da ruina do Khediva foi a sua prodigalidade. Quem não conhece essa lenda illustre? Quem se não lembra das festas do canal de Suez? Ahi cada verba se contou por milhões. Dois milhões para a illuminação do Cairo. Quatro milhões para o banquete de Ismailia. Despezas com os dois mil convidados durante quinze dias no Cairo e no Canal—setenta milhões!... Para o champagne bebido n'essas semanas de bambocha—dous milhões! O fellah pagava.
Eh! E eu que estou aqui a fallar—tambem o bebi, esse champagne que era no fundo o suor do fellah espumante e assucarado! Tambem eu fui hospede de Ismail-Pachá, á custa do fellah! Tambem eu... Calemo-nos, cubramos a fronte de cinzas, imploremos o perdão do fellah!
O resultado d'estas fantasias industriaes, d'estes luxos de Salomão, foi que o Egypto se achou devendo á Europa centenares de milhões, por que pagava um juro de sete por cento, e, como burgueza prudente que zela os seus interesses, a Europa tinha pouco a pouco tomado conta da administração do Egypto...
Quando Arabi quiz modificar este systema, que convertia o povo egypcio n'uma horda de servos trabalhando para os financeiros de Pariz e Londres—as esquadras de França e Inglaterra appareceram logo, pedindo o desterro de Arabi, e o licenceamento do exercito, que era o instrumento e a força do partido nacional. Os arabes viram n'isto um odioso abuso da força, a Inglaterra e a França querendo manter á bala os interesses dos possuidores dos titulos da divida egypcia e os privilegios dos intrusos.
Desde esse momento Arabi tornou-se um libertador; e o Khediva, que as esquadras vinham proteger contra Arabi, passou a ser o renegado, o traidor.
Esta era a situação no dia 11 de junho. Alexandria tornara-se uma fornalha de excitação. Nas mesquitas prégava-se com furor a cruzada contra o christão: nos bazares fallava-se do estrangeiro como do cão maldito, da ave de rapina, peior que o gafanhoto que devora a seara nos campos ferteis do Nilo; e, ou fôsse o fanatismo que despertasse, ou fôsse a miseria que se queria vingar—todo o bom mussulmano se armava.
N'estas circumstancias, de uma chufa de botequim póde nascer uma guerra de raças. E, pouco mais ou menos, assim succedeu. Na manhã do dia 11, na rua das Irmãs, uma das mais ricas do bairro europeu, um inglez, por um velho habito, deu chicotadas n'um arabe; mas, contra todas as tradições, o arabe replicou com uma cacetada. O inglez fez fogo com um revólver. D'ahi a pouco o conflicto entre europeus e arabes, em pleno furor, tumultuava por todo o bairro... Isto durou cinco horas—até que, por ordens telegraphadas do Cairo, a tropa, até ahi neutral, acalmou as ruas. E o resultado, bem inesperado, mas comprehensivel, desde que se sabe que os arabes só tinham cacetes e que os europeus tinham carabinas—foi este: perto de cem europeus mortos, mais de trezentos arabes dizimados. Os jornaes têm chamado a isto o massacre dos christãos: eu não quero ser por modo algum desagradavel aos meus irmãos em Christo, mas lembro respeitosamente que isto se chame a matança dos mussulmanos.