IV

[ A fuga dos europeus.—O grande sonho inglez.—O «casus belli».—A vespera do bombardeamento.]

Esta matança de christãos—para continuarmos a dar-lhe a sua alcunha diplomatica—puxou bruscamente a attenção do mundo que lê jornaes para o Egypto, e por isso devem ahi ter presentes e vivos—sem que se torne necessario o rememoral-os, detalhe a detalhe—todos os episodios que n'uma semana se desencadearam uns sobre os outros, com uma barafunda de melodrama: a indignação excessiva e tumultuosa da Europa, excitada pelo clamor e pelos gritos da imprensa ingleza; o desordenado panico que se apossou dos europeus residentes no Egypto; e o facto, estranho mesmo n'essa terra de classicos exodos, de uma colonia de mais de cem mil almas abandonando de repente o solo, onde, desde gerações se estabelecera, deixando occupações, interesses, empregos, casa e fazenda, precipitando-se apavorada para os caes de embarque, apinhando-se em paquetes, em navios de carga, em barcaças, em qualquer cousa que pudesse fluctuar na agua, e fugir da terra funesta, pagando a peso de ouro o direito de se agachar n'um buraco de porão; a maneira magistral como a Inglaterra, pelos officiaes da sua armada, organisou e policiou esta nova fuga dos hebreus; emfim, a chegada a Alexandria do Khediva, que perdera toda a auctoridade no Cairo, e colhia a opportunidade de vir abrigar os restos esfrangalhados da sua realeza sob os canhões do almirante Seymour.

Arabi-pachá, que se tornára, de facto, dictador, correu tambem a Alexandria—e o seu primeiro passo foi estabelecer tribunaes marciaes, para julgarem os massacradores do dia 11.

Note-se que se não tratava, nem por sombras, de punir os europeus que tinham mandado tresentos mussulmanos d'esta terra de miserias para o paraiso de Allah; mas sómente os mussulmanos suspeitos de terem posto mãos violentas sobre christãos. Ainda assim, os jornaes inglezes bradaram logo que não se podia ter confiança na justiça, na imparcialidade dos magistrados egypcios, tão hostis ao estrangeiro como á populaça—e que taes julgamentos não passavam d'uma farça, onde os réus, que se mostravam um momento á Europa carregados de ferros postiços, eram depois, por traz dos bastidores, acclamados como bons patriotas.

Arabi-pachá propoz então que esses tribunaes se compuzessem de juizes arabes e de officiaes inglezes. Isto indicava um desejo vivo, quasi uma sofreguidão de justiça. E, com effeito, se o partido nacional agora todo poderoso, se não mostrasse severo—corria o perigo de passar por cumplice; e se as suas refórmas tinham já inspirado tanta antipathia á Europa—o que seria se a elle se pudessem plausivelmente attribuir taes attentados?

De resto, para um mussulmano orthodoxo e fino como Arabi, toda a violencia contra o estrangeiro, contra o hospede, constitue a mais negra violação da lei santa. Arabi era sincero. Mas a Inglaterra não acceitou as suas propostas...

A Inglaterra não acceitou. A Inglaterra estava armada a bordo dos seus couraçados. E, todavia, mais que nenhuma outra nação ella soffrera com os tumultos d'Alexandria: o seu consul, brutalmente espancado, achava-se á morte; alguns dos officiaes da esquadra tinham recebido no uniforme, que é o orgulho da Grã-Bretanha, a lama e as pedradas da populaça egypcia; a maior parte dos europeus assassinados eram de nacionalidade ingleza; contra a Inglaterra se prégara a guerra nas mesquitas, nos bazares, e até sob a tenda beduina...

Mas a Inglaterra, generosa e paternal, queria esquecer essas injurias. Pudera!