É que não lhe convinha reconhecer as atrocidades do dia 11 como um mero e casual episodio de fanatismo mussulmano, a que algumas grilhetas e algumas cordas de forca poriam definitivamente termo; nem lhe convinha descer dos seus couraçados unicamente para ir a um tribunal ajudar a sentenciar dez ou doze facinoras.

O que á Inglaterra convinha, era attribuir a este conflicto local a magnitude de uma anarchia nacional, e offerecer ou impor o seu prestimo—não para castigar os tumultos de um bairro, mas para pacificar todo um paiz em desordem. E assim ella rejubilava com a chegada d'esse dia tão appetecido, tão pacientemente esperado desde o começo do seculo, tão anciosamente espiado desde a abertura do canal de Suez, em que teria emfim um pretexto para assentar na terra do Egypto o seu pé de ferro, essa enorme pata anglo-saxonia, que, uma vez pousada sobre territorio alheio, seja um rochedo como Gibraltar, uma ponta de areia como Aden, uma ilha como Malta, ou todo um mundo como a India—nenhuma força humana póde jámais arredar ou mover.

Já se não tratava de libertar o Khediva coacto, de defender as algibeiras dos portadores do emprestimo egypcio. Um interessse mais alto, ligado com os destinos do Imperio, levantava-se, dominava tudo.

O Egypto estava em anarchia: logo competia á Inglaterra, paladino da civilisação, restabelecer lá a ordem, impedil-o de recahir no estado barbaro.

O Egypto estava em anarchia: logo competia á Inglaterra, como grande potencia oriental, defender essa parte preciosa da terra egypcia—o canal de Suez, e evitar que elle cahisse nas mãos de Arabi ou de outro dictador mussulmano, hostil aos beneficios da civilisação.

É o que pouco mais ou menos respondia a Inglaterra, e bem alto, para que o mundo ouvisse—quando Arabi-pachá lhe propoz uma alliança judicial para punir o crime mussulmano do dia 11.

—Não, dizia John Bull, não se trata do dia 11! Esqueçamos o dia 11. Esqueçamol-o, como se elle fosse apenas o dia 7. A questão é outra. O Egypto está em anarchia. É necessario salvar a civilisação!

E estas nobres palavras significavam, despidas dos seus atavios humanitarios, que a Inglaterra, sob o pretexto de pacificar o Egypto, desembarcaria em Alexandria, occuparia por motivo de operações militares Port-Said e Suez, as duas portas do canal, e depois—depois nunca mais, n'esses pontos estrategicos do caminho da India, se arriaria a bandeira ingleza!

E, feito isto, ficava realisado o grande sonho britannico:—posse absoluta da estrada das Indias; John Bull fazendo sentinella a todas as portas succesivas que conduzem ao seu imperio do Oriente: á entrada do Mediterraneo, Gibraltrar e o seu rochedo inexpugnavel; no Mediterraneo, Malta e Chypre, duas ilhas, dois collossaes depositos de guerra: á entrada do canal, Port-Said; ao fim do canal e á bocca do Mar Vermelho, Suez; á beira do Golfo Persico, Aden; e d'ahi por deante as suas esquadras varrendo os mares...

Deante d'esta esplendida opportunidade se achou a Inglaterra, depois das carnificinas de Alexandria; e, tendo logo declarado officialmente o Egypto em anarchia, sem perda de um momento, começou a armar-se.