E, no meio de tudo isto—a Europa? Oh! a Inglaterra convidava, com bellos ademanes de desinteresse, a Europa a partilhar com ella a honra de pacificar o Egypto! Mas sabia bem que nenhuma das potencias moveria um soldado: nem mesmo a França, que tinha uma frota na bahia de Alexandria e collaborára nas manifestações platonicas; a França, governada por uma democracia burgueza que enriquece, e tornada toda ella uma vasta casa de negocio, não quereria por cousa alguma perturbar aquella paz tepida e doce em que amadurece o Milhão.

Além disso, as potencias já tinham resalvado a sua dignidade, sentando-se em torno da mesa verde da conferencia, á beira das aguas luminosas do Bosphoro, meditando com a cabeça entre os punhos a solução da questão egypcia. E, emquanto ao resto, estavam-se observando, armadas até os dentes, desconfiadas, ciumentas, odiando-se, mas immobilisadas reciprocamente pela propria magnitude dos seus armamentos.

A França receia a Allemanha; a Turquia teme a Russia; a Austria está contida por ambas; a Italia necessita a benevolencia de todas; e cada uma por seu turno treme do snr. de Bismarck, o hediondo papão, o Jupiter trovejante do Olympo diplomatico, que, no seu retiro de Varzin, torturado por toda a sorte de males, passa parte do tempo sob a influencia da morphina...

De resto, que todas appeteciam os despojos do Egypto, só o póde duvidar quem ignore os instinctos de pilhagem, de gatunice, de pirataria, que alberga sempre a alma d'um povo civilisado; mas nenhuma das potencias é, como a Inglaterra, uma ilha cercada d'um mar agitado, onde se move a maior frota da terra; e, apertadas no estreito continente, hombro contra hombro e espada contra espada, nenhuma dellas ousaria dar um passo para o lado do Egypto, com receio que o vizinho lhe saltasse ás guellas. Limitavam-se, por isso, cheias de rancor, a trocar phrases de diplomatica doçura, sentadas á mesa da conferencia.

Quando, deante d'uma casa fechada, os que lhe appetecem as riquezas, discutem, de penna na mão, a melhor maneira de lá entrar—a vantagem pertence toda áquelle que, em logar d'uma penna, se muniu d'um machado e atira de subito a primeira machadada á porta. Foi o que fez a Inglaterra. Emquanto os outros faziam planos pro-forma em cima d'uma carteira—ella fez fogo sobre Alexandria.

Sómente não se póde atacar uma cidade inoffensiva sem um pretexto. E a Inglaterra foi, á falta de outro melhor, forçada a apresentar um tão máu, que, como dizia a Associação dos Positivistas Inglezes, no seu protesto contra a invasão do Egypto, a sua puerilidade só consegue augmentar a sua immoralidade.

Perante os armamentos da Inglaterra, Arabi-pachá, se lhe não comprehendia as intenções espoliadoras, devia pelo menos concluir que era contra elle, contra o partido que elle dirigia, e contra as idéas que elle encarnava, que a Inglaterra se estava preparando; e, muito naturalmente, na espectativa de um ataque, organisou a sua defesa, artilhando os fortes de Alexandria, e erguendo baterias novas pela costa.

Foi contra isto que a Inglaterra protestou; e foi d'isto que fez um casus belli—declarando que, se as obras dos fortes não cessassem, ella destruiria os fortes!... Sem estar em guerra com o Egypto, ella considerava-se no direito de reunir deante de Alexandria uma frota ameaçadora; mas não admittia que as auctoridades de Alexandria concertassem sequer as brechas das velhas fortificações de Mehemet-Ali!

E que explicações estupendas o snr. Gladstone dava á Europa para justificar o casus belli! As baterias que Arabi ergue (dizia elle), os novos canhões que monta, põem em perigo os couraçados inglezes! E os couraçados não punham em perigo os fortes? Mas ao lado da esquadra ingleza estavam navios de guerra francezes, allemães, italianos, gregos, austriacos—tão expostos ás balas de Arabi como os que hasteavam o pavilhão britannico: e esses não se julgavam em perigo!

Que diria a Inglaterra se o commandante de algum dos couraçados francezes ou allemães, que por vezes vêm ancorar nas aguas de Portsmouth ou de Southampton—mandasse de repente prohibir ao governador de uma d'essas praças a continuação das obras de defesa que ahi se vão incessantemente aperfeiçoando, sob o pretexto de que taes baterias poderiam fazer mal ao navio de seu commando?... Com tal precedente, os almirantes inglezes, que honram frequentemente o humilde porto de Lisboa com a presença dos seus pavilhões—estariam auctorisados a exigir a destruição da torre de S. Julião, do Bugio e de Belém! Dir-se-hia que não é de prever que o portuguez, pacato e bonacheirão, faça fogo—muito menos sobre couraçados inglezes. De accordo. Mas que ganharia Arabi-pachá em mandar de surpreza algumas balas á esquadra ingleza—e portanto ás outras que estavam no mesmo ancoradouro—senão o attrahir sobre si, e o seu partido, e o seu paiz, a pavorosa vingança da Europa inteira, injuriada em todos os seus pavilhões?