Arabi fez uma cousa fina: cedeu, promettendo interromper os trabalhos de defesa. E a Inglaterra ficou desapontada. Esta submissão de Arabi desmanchava o seu engenhoso plano.

Alguns jornaes mais cynicos e impacientes chegavam a aconselhar que se não respeitasse a palavra d'um vil mussulmano—e que se fosse bombardeando! O trabalho então da frota foi vigiar incessantemente as fortificações, na esperança de descobrir algum sapador, d'enxada ao hombro, que desmentisse a promessa d'Arabi. De noite, os couraçados projectavam sobre a costa longos e vivos raios de luz electrica, movendo-os lentamente ao longo das baterias, pesquizando anciosamente os menores recantos, procurando o mais leve vestigio de trabalho—fosse elle um cesto de pedras esquecido; e assim foi que uma noite—noite venturosa para o governo do snr. Gladstone!—a esquadra descobriu dois soldados limpando um velho canhão! Que allivio para a Inglaterra! Immediatamente o almirante Seymour mandou este ultimatum a Toulba-pachá, governador da cidade:—dentro em vinte e quatro horas os fortes deveriam ser entregues ás tropas inglezas, ou toda a linha de couraçados abriria fogo sobre Alexandria. A isto, realmente, só se póde responder a grande palavra de Cambronne em Waterloo.

Lamento que Arabi a não dissesse: era a segunda vez na historia que John Bull a receberia em plena face.

A vespera do bombardeamento foi dramatica. O almirante Seymour fez sahir da bahia todos os navios mercantes; e, depois, com a usual etiqueta, convidou os navios de guerra de outras nações a fazerem-se ao largo, levando para fóra da linha de fogo a neutralidade das suas bandeiras. Essa longa procissão de couraçados de toda a Europa, deixando lentamente as aguas da Alexandria, para que a Inglaterra pudesse livremente commetter o seu attentado—é descripta pelos correspondentes inglezes como cheia de solemnidade e de ceremonial. As salvas succediam-se; uns aos outros cortejavam-se os pavilhões dos almirantes. Os ultimos a sahir foram os navios francezes, os alliados na manifestação, que, honra lhes seja, não quizeram ser alliados no crime:—e a tricolor afastou-se tambem, saudada pelo almirante Seymour, entre os hurrahs de despedida da marinhagem e o estridor da Marselhesa. A tarde estava bella; tudo era luz na bahia; os minaretes d'Alexandria branquejavam no azul... Magnifico espectaculo, sem duvida:—sómente que pensariam d'elle os milhares de pobres arabes, de mulheres e de creanças, que o contemplavam das alturas da cidade, e sobre os quaes ia cahir no dia seguinte bala, metralha e bomba?

Por fim, a noite desceu e estrellou-se; á beira da agua calma luziam as luzes d'Alexandria; tudo ficou em silencio na bahia.

Estavam a sós, frente a frente, sob a paz dos ceus, uma grande esquadra ingleza e a cidade inoffensiva que ella, na madrugada seguinte, para satisfazer a sofreguidão mercantil de um povo de lojistas, ia friamente arrasar.


V

[ Depois do bombardeamento.—Os incendios.—As responsabilidades.—Uma Alexandria ingleza.—A invasão.—A attitude da Europa.]

O almirante Seymour, dias antes, tinha declarado que em duas breves horas desmantelaria os fortes de Alexandria. Ao cabo, porém, de nove compridas horas ainda não fizera calar as baterias egypcias; e ainda justamente uma bomba vinha escavacar a camara do commandante do Inflexivel.