Sir Beauchamp Seymour reconheceu, nos seus despachos para o almirantado, «que os melhores artilheiros da Europa se poderiam orgulhar de uma tão bella resistencia». Mas nem coragem, nem reductos, nem muralhas de granito prevalecem contra esses negros monstros que desfeiam os mares—o Monarcha, o Alexandra, o Soberbo, o Sultão, o Invencivel, o Minotauro, e tantos outros que lá estavam, movediços castellos de ferro, servidos pelas forças combinadas do vapor, da hydraulica, da electricidade, devastadores como um cataclysmo e exactos como uma sciencia.

Pobres fortalezas de Mehemet-Ali! Foi a velha fabula da panella de barro contra que tombou a panella de bronze. Ao anoitecer, eram apenas montões de ruinas fumegando em silencio...

Estava consummada a façanha! Na bahia, agora, tudo cahira n'uma grande paz; a noite descera calma e escura; os enormes couraçados repousavam; da cidade vencida não vinha o menor ruido; só n'um ponto de terra o palacio de Rasel-tin ardia ao abandono. Foi então que o eloquente correspondente do Standard telegrahou para o seu jornal esta phrase que merece fama:—A situação não póde ser mais satisfactoria!

Pelo meio da noite, porém, da parte de Alexandria, onde ficava a Praça dos Consules, começou a erguer-se um vasto clarão. Alli, evidentemente, havia um incendio. Mas como? Porque?

O almirante Seymour lavaria d'ahi as suas mãos—se tivesse a bordo a bacia de Poncio Pilatos. Elle concentrára escrupulosamente o seu fogo sobre os fortes: uma ou outra bomba poderia ter cahido nos bairros arabes—e nada mais legitimo, nem de mais salutar terror; mas a parte européa de Alexandria fôra poupada... E todavia, era lá que o incendio se estendia avermelhando, aquecendo o ceu; e de outros pontos visinhos iam subindo na noite altas labaredas. Diabo! A situação já não era tão satisfactoria...

Ao outro dia houve um tempo muito nublado, com um mar muito forte. Os couraçados, por precaução, fizeram-se ao largo. Quando, horas depois, vieram retomar as suas posições de combate, Alexandria, deante d'elles, ardia toda como uma monstruosa fogueira. Positivammente, não era nada satisfactoria a situação!

Não era. Arabi-pachá abandonára Alexandria, levando o grosso do exercito. E a população mussulmana, enfurecida por nove horas de bombardeamento, sem policia para a conter, com os ulemas a excital-a, tomada da cobiça da pilhagem, e inflammada pela furia das represalias, correra aos bairros europeus,—e incendiou, saqueou, matou, destruiu; matou pela raiva de matar, porque até pobres cavallos de carruagem appareceram esquartejados; destruiu pela raiva de destruir, porque se acharam nas ruas, aos pedaços, vestidos de senhoras, relogios de sala e oculos de theatro...

Ferocidades de fanatismo, que se arremessa n'uma vingança indiscriminada sobre tudo o que lhe represente a raça, os costumes, as idéas que elle odeia—sobre os homens e sobre os espelhos. Isto não se dá só em paiz mussulmano. Sempre que os parizienses invadiam as Tulherias, rasgavam á ponta de sabre o setim das poltronas...

Collocou-se a população de Alexandria, por taes excessos, fóra da humanidade? Os inglezes dizem que sim; eu digo que nós teriamos feito o mesmo, nós europeus, christãos e podres de civilisação. Se, quando os allemães estavam bombardeando Pariz—os parizienses vissem no centro da sua cidade um bairro exclusivamente allemão, compacto, monumental, luxuoso, erguido pelo dinheiro que o allemão ganhára a explorar a França,—resistiriam os parizienses, os mais civilisados dos mortaes, a besuntal-o de petroleo e fazel-o flammejar por uma bella noite de inverno?

A resposta é facil, lembrando-nos que, quando por seu turno o snr. Thiers, esse homunculo de estado, bombardeou Pariz, os parizienses apressaram-se a destruir o palacete do snr. Thiers.