Foi Arabi que ordenou o incendio de Alexandria? Não, evidentemente. Arabi não é um patriota selvagem, do typo d'esse Rostopchin que queimou Moscou: é um fellah fino e sagaz, que sabe que na Europa, na Inglaterra sobretudo, onde affectamos todos uma sensibilidade humanitaria, nada desacredita mais que uma fria crueldade. Basta observar a attitude polida, quasi paternal que elle toma com os prisioneiros inglezes—o guarda-marinha Chair, por exemplo.

Quando este official foi levado ao acampamento arabe, Arabi disse-lhe logo, depois d'um shake-hands.

—Escreva a sua mãe, conte-lhe que está entre mãos leaes, e tire-a d'inquietações...

Isto era de certo sincero—mas sobre tudo habil: e uma tal palavra voou direita ao coração de todas as mães inglezas. Desde os conflictos d'Alexandria, o empenho d'Arabi tem sido proteger os europeus que ainda restam nas villas do interior. Os cadis que não evitaram o massacre dos empregados do caminho de ferro do Delta, foram decapitados. A elle se deve a tranquillidade do Cairo, onde existe uma enorme massa de propriedades e riquezas européas. Que ganharia Arabi em destruir esta prospera cidade egypcia, no começo da campanha e com o seu exercito intacto? Apenas a fama d'um monstro boçal.

Á Inglaterra cabe a responsabilidade da catastrophe. As bombas do almirante talvez, com effeito, não tivessem arrasado mais que alguns casebres arabes; mas á imprevidencia do governo se deve a ruina d'Alexandria.

Desde o meiado de junho, o mais experiente, mais auctorisado dos seus agentes diplomaticos, o snr. E. Malet, consul geral do Egypto, não cessou de bradar—que se o bombardeamento era inevitavel, Sir Beauchamp Seymour devia ter tropas de desembarque, para occupar a cidade, apenas os fortes fossem destruidos, e impedir assim que, no caso provavel de Arabi se retirar para o interior, ella ficasse á mercê d'uma plebe semi-barbara...

Nada d'isto se fez.

Sir Beauchamp Seymour bombardeou, arrasou, repelliu virtualmente d'Alexandria a Arabi, a unica força que continha uma populaça de cem mil fanaticos—e, depois, ficou a bordo do seu couraçado, vendo tranquillamente arder, deante de si, uma das mais ricas cidades do Mediterraneo.

Por outro lado, a quem aproveitava o incendio? Á Inglaterra. O pretexto de que os fortes punham em perigo os couraçados britannicos, só a auctorisava, perante os escrupulos da Europa, a destruir os fortes, não a occupar a cidade. Agora, porém, que ella estava em chammas, abandonada á anarchia, á pilhagem, ao ataque das hordas beduinas que corriam do deserto—agora ella tinha o direito—mais, ella tinha o dever!—de desembarcar e ir salvar de uma total aniquilação tanta riqueza, tão esplendido centro de commercio!...

Generosa Inglaterra! E desembarcou logo, aquartelou tropa, plantou bandeira. Tinha deante de si um monte de ruinas, e em poucos dias foi dando fórma a uma Alexandria nova, já com feição ingleza e administrada á ingleza.