Os incendios foram dominados; as ruas desentulhadas; estabeleceu-se uma policia terrivel, que executava summariamente os ladrões e os incendiarios; abasteceu-se a cidade: a alfandega reabriu as portas; em substituição das lojas destruidas, armaram-se barracões de venda; o machinismo judicial foi posto em movimento; reparou-se a fabrica do gaz, a cidade foi reilluminada; os bancos voltaram a funccionar.
E, como era necessaria uma auctoridade, em nome de quem se reorganisasse a vida municipal, os inglezes, que apenas estão alli (diziam elles) como um corpo de policia, foram buscar o Khediva a uma casa dos arredores, onde elle se refugiara durante o bombardeamento, e installaram-n'o solemnemente no palacio de Ras-el-tin, palacio meio ardido, onde elle é uma auctoridade meio morta!...
Desde este momento, a situação tornou-se muito definida, muito simples. Os inglezes possuiam, governavam Alexandria, tão naturalmente como se ella estivesse situada no condado de Yorkshire; e de fronte d'Alexandria, n'essa especie de isthmo arenoso que a liga á terra do Delta, estava Arabi n'um acampamento entrincheirado, governando d'ahi todo o valle do Nilo e o deserto até o mar. Os inglezes recebiam incessantes reforços de casa e da India. Arabi chamava á guerra contra os inglezes todo o povo fellah. A Inglaterra preparava uma invasão. Arabi organisava uma grande defesa nacional. Nada mais claro. A questão é entre a Inglaterra, procurando estabelecer um protectorado sobre o Egypto, arrancar-lhe as cidades estrategicas que dominam o canal, e Arabi-pachá, um patriota, que quer o Egypto para os egypcios, que receia a protecção do estrangeiro como a peior desgraça de um paiz fraco, e que entende que, pelo facto de que Alexandria, Port-Saïd e Suez se acham desgraçadamente no caminho da India, não é motivo para que se tornem guarnições inglezas. E dos dous lados, grande enthusiasmo.
Em Londres, onde acabou a season e começa a monotonia das praias de banhos, o partir para conquistar o Egypto passou a considerar-se uma feliz aventura. Se o ministerio da guerra o consentisse—toda a mocidade de ouro, ou apenas de latão dourado, se alistaria, porque é do mais requintado chic ir dar cabo de Arabi!
O duque de Connaugth, um dos filhos de S. M. a Rainha, faz parte da expedição, e o duque de Teck, seu cunhado, não sendo militar, partiu, diz-se, como simples empregado do correio. Os officiaes dos regimentos de guardas, essa pura nata da aristocracia e flôr da finança, tiveram a ventura de vêr os seus luxuosos regimentos, de ornamentação monarchica, expedidos para o Egypto; sómente este natural prazer foi em parte estragado pela severidade do ministerio da guerra, que, como se tratava de uma campanha e não de um torneio, não consentiu que esses gentis-homens fôssem seguidos por equipagens, creados de librés, tendas de luxo e caixas de vinho de Champagne.
Um d'estes officiaes exprimiu alto a sua indignação, porque o estado-maior só lhe consente tres cavallos de sella, dous creados de quarto e cinco malas de bagagem!
Por outro lado, ao comprido do Nilo toda a população fellah se declarou por Arabi; como por elle se declararam as classes lettradas, as mesquitas, os ulemas, os coptas, os proprios principes parentes do Khediva. Os mudirs, governadores de provincias, pagam-lhe a elle os impostos. Os scheiks do deserto mandam-lhe a sua cavallaria.
E este ardor é tanto maior, quanto Arabi-pachá foi de ha muito prophetisado; já a sua inesperada entrada no governo se considerou um advento divino; e este rebelde (como outros rebeldes que tão gloriosamente fizeram o seu caminho na terra e no ceu) é Messias!
Uma antiga prophecia mussulmana annuncia que no seculo decimo terceiro da Hegira nascerá á beira de um grande rio um homem de raça vil, por nome Ahmet, que se revoltará, e restaurará o esplendor do Islam; ora, os arabes estão no século XIII da Hegira, e Arabi, cujo nome é Ahmet, cuja origem é fellahina, tendo nascido n'uma aldêa á margem do Nilo, revoltou-se contra o seu califa. Assim, elle reune o duplo prestigio de um Spartacus e de um Christo.
Concentrada a questão entre uma poderosa nação invasora e um patriota que defende o seu solo—a Europa tomou logo a sua tradicional attitude: isto é, murmurou algumas palavras de branda admoestação, e depois recuou para longe, a observar como um braço forte sabe usar da sua força, a estudar como se consuma a espoliação de um fraco.