Nos ultimos quinze annos a Prussia roubou a Dinamarca, e depois foi pela Allemanha saqueando reinos e grãos ducados; em seguida, desmembrou a França; mais tarde a Russia espatifou a Turquia; ha dous annos, subitamente, a Republica Franceza cahiu sobre Tunis, e empolgou esse desventurado estado barbaresco. Em cada um d'estes casos a Europa comportou-se como um coro das operas d'antiga escola, quando membrudo barytono, ahi pelo quarto acto, erguia o ferro sobre o tenor gentil e magrizela: o côro adeanta-se, modula uma larga phrase, agita os braços em cadencia, faz o commentario amargo da acção, brada talvez: suspendei! Depois, afastando-se em grande compostura, deixa á bocca da scena o tyranno barbudo sondando tranquillamente com a ponta da lamina o interior do galã...
Não fallemos mais na Europa. Não ha, nunca houve Europa, no sentido que esta palavra tem em diplomacia. Ha hoje apenas um grande pinhal de Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro, que se odeiam uns aos outros, tremem uns dos outros, e, por um accordo tacito, permittem que cada um por seu turno se adeante—e assalte algum pobre diabo que vegeta ou trabalha ao canto de seu cerrado. Nas largas e bem traçadas estradas do Direito Internacional, allumiadas por Ortolan e outros lumes, rouba-se de carabina alta, e rompem a cada momento brados de povos assassinados. A Europa, como os campos de corridas em Inglaterra, devia estar coberta d'estes avisos em lettras gordas: Beware of pick-pockets! Cautela com os salteadores.
A pequena propriedade politica tende a acabar. Toda a terra vae em breve reunir-se nas mãos de quatro ou cinco grandes proprietarios... Hontem, era Tunis—porque a França necessita proteger a fronteira da Argelia. Hoje, é o Egypto—porque a Inglaterra precisa assegurar o caminho da India. Amanhã, será a Hollanda—porque a Allemanha não póde viver sem colonias. Depois, a Servia—por motivos que a seu tempo a Austria dirá. Mais tarde, a Rumania—porque a Russia é forte. Depois a Belgica—porque sim. Depois...
Este assumpto é lugubre. Voltemos ao valle do Nilo!
VI
[ Situação dos exercitos.—O Nilo, a secca, os areaes.—Os perigos de um «Jehad».—O septicismo mussulmano.—O mundo ingleza-se.—Filaucias de John Bull.]
Postos estão frente a frente
Os dois valorosos campos...
Para comprehenderem bem, imaginem um grande A. O triangulo interno da lettra é o Delta—essa terra amada dos deuses, tão rica, que ella, só por si, outr'ora alimentou o imperio romano; ao alto da lettra, na ponta, está o Cairo—de sorte que um poeta persa poude dizer gentilmente que o Delta é um leque verde fechando sobre um botão de diamante, que se chama o Cairo. Á base da perna direita do A fica Alexandria, e ahi permanece uma parte do exercito inglez, defendido pelas fortificações de Ramleh—e tendo deante de si, a tiro de peça, o grande campo entrincheirado de Arabi-pachá, que se chama Kraf-Daonar, contendo 18 mil egypcios, enormes parques de artilharia, e fechando a marcha pelo Delta. A outra parte do exercito inglez, commandada pelo proprio general em chefe Sir Garnet Wolseley, dirigiu-se por mar á base da perna esquerda do A, que é, pouco mais ou menos, Ismailia, e d'ahi subiu por essa linha até Kassassine, onde parou e se fortificou; achando-se igualmente a pouca distancia, outro enorme campo entrincheirado, onde Arabi tem quinze mil homens, que se chama Tel-el-Kebir. E estes quatro campos, postos frente a frente, e observando-se, constituem até hoje a guerra do Egypto.
Para chegar, pois, ao Cairo, seu objectivo militar e politico, Sir Garnet precisa tomar as posições egypcias de Kraf-Daonar, se quizer ir pelo Delta—e as de Tel-el-Kebir, se tentar avançar pelo deserto.