Até hoje os quatro campos limitam-se a trocar entre si, em certas escaramuças, algumas languidas balas. Os jornaes de Londres, naturalmente, noticiam estes tiroteios de vanguarda com um tremendo apparato de lettras de palmo, mappas lithographados e largos rufos de prosa—fazendo maior alarido do que se tivesse sido pelejada de novo a batalha de Waterloo; mas isto é simplesmente para promover a venda do numero.

Os egypcios, entrincheirados, em seus campos contam com poderosos alliados: do lado do Delta confiam no Nilo, o velho e bondoso Nilo, que não poderá deixar de ser fiel áquelles que ha seculos nutre, e que, dentro em pouco, inundando as terras do Delta; e ajudado pelos engenheiros d'Arabi, que certamente obstruirão os canaes, terá convertido n'um immenso estendal de lamas inatravessaveis esse caminho do Cairo, o mais favoravel para os inglezes, pois seria como marchar n'uma rica e infindavel granja, entre pomares, jardins, frescuras e celleiros cheios... Do lado do deserto, os egypcios contam com o sol, com a secca e com a areia. Póde-se imaginar o que soffrerão essas tropas do frio Norte, marchando em areaes abrasados n'uma reverberação de luz que estonteia, sob um calor tão torrido, que o metal dos estribos cresta os botins, e tendo para beber só agua barrenta, que é necessario ferver primeiro! Já as insolações, as dysenterias, a nostalgia, dizimam os regimentos—e como o commissariado inglez, sempre mau, encontra aqui difficuldades de transporte, as tropas de S. M. a Rainha Victoria já tem soffrido fome! Ah! custa caro o caminho das Indias!

Além d'estes alliados que elle possue na natureza, Arabi espera ainda nas tribus beduinas, e n'essas hordas errantes d'arabes a cavallo que estão chegando do lado de Tripoli a combater o cão estrangeiro, e que, se diz, constituem um reforço de trinta mil homens...

Por seu lado, os inglezes contam apenas comsigo. E isto não é pouco. Como diz a sua celebre canção de guerra—elles têm os navios, têm o dinheiro, e têm os homens. Têm tambem essas magnificas tropas indias, que riem do sol, da secca, e das areias d'Africa. E isto levou Sir Garnet a declarar que a campanha estaria finda no dia 15 de setembro. É verdade que nós estamos a 7 de setembro, e elle, entrincheirado em Kassassine, tendo deante de si a barreira formidavel de Tel-el-Kebir, ainda está pedindo reforços. Mas isto prova só que esse raio de guerra, tendo habitos differentes dos de Cesar, chegou, viu, e reflectiu. Demos-lhe mais um mez; demos-lhe tres largamente; o certo será que ao fim d'este anno, Arabi, os seus campos, o seu exercito, a sua bella aspiração a uma nacionalidade egypcia, tudo isso se terá esvaido—como se esvae uma nuvem n'esse secco céo africano.

Os inglezes poderão soffrer revezes, perder milhares d'homens, gastar milhões de libras; mas, tendo uma vez compromettida a honra da sua bandeira, com um fim d'engrandecimento imperial, não embainharão a espada antes de ter installado na cidadella do velho Cairo, ao som do God save the Queen, um governador inglez.

Evidentemente o snr. Gladstone falla apenas de restabelecer a ordem e restaurar o Khediva. Meras locuções diplomaticas. O Times, que é o verbo d'Inglaterra, esse falla, sem rebuço, em protectorado. E ha muitos inglezes, ainda menos reservados que o Times, que dizem redonda e seccamente—conquista.

Mesmo quando o snr. Gladstone, que é a seu modo um democrata dentro dos limites do Evangelho, e o seu illustre collega Lord Granville, que é um jurista e um diplomata, quizessem, em respeito ao liberalismo, á Europa, ao direito internacional e a outras cousas vagas, deixar o Egypto reorganisar-se a si mesmo—sahindo elles de lá com as mãos vasias, depois de terem supprimido Arabi e o seu turbulento partido—a Inglaterra inteira, em massa, protestaria contra este philosophico desinteresse...

Ha alguem ahi assaz ingenuo para suppôr que John Bull, essa torre de senso pratico, consentiria em que se lhe dizime o exercito, em que se lhe gaste o dinheiro como elle gasta a agua das fontes, em que se lhe augmente o income-tax—só para que o Khediva, esse amavel moço, continue a fumar o narghilé do poder sob as sombras dos jardins de Choubra? John Bull não ficará satisfeito senão com este resultado macisso e duradouro—um Egypto inglez, tendo dentro do seu territorio, como um corredor de casa particular, o canal de Suez, caminho das Indias. Um ministerio que, depois de ter enterrado nos areaes da Africa milhões de libras e milhares de vidas, não lhe der isto—receberá no mesmo instante, na parte posterior da sua individualidade, o bico da bota de John.

Mas se Arabi, derrotado, conseguir levar o Scherife de Méca a proclamar contra a Inglaterra um jehad—que é uma guerra santa, uma crusada, um levantamento em massa do mundo mussulmano?

Bons espiritos, em Inglaterra, dizem ser este um grande perigo—pois que só na India ha cincoenta milhões de mahometanos. Eu não creio, porém, que haja aqui motivo para John Bull empallidecer. E lamento-o! Porque é d'um bello pittoresco essa idéa d'um jehad com o seu ceremonial—o Scherife de Méca desenrolando o estandarte verde de Mahomet, os doutores do Islam assignando todos o fetva fatal, e logo, de cada canto da Asia e d'Africa, a torrente dos crentes precipitando-se em nome de Allah! Bello motivo d'ode—a que não corresponde nenhuma realidade...