Em primeiro logar, nunca se fez! O crescente tem sido muitas vezes humilhado pela cruz, o Islam tem recebido na face a mão da Europa christã, o Califa tem fallado repetidamente em proclamar um jehad—e todavia o estandarte do Propheta continuou enrolado nos sacrarios de Méca. E a minha opinião é que se elle fôsse um dia desenrolado—haveria apenas um pedaço de panno verde mais, fluctuando ao vento do ceu.
E querem que lhes diga porque? Porque penso que os mussulmanos estão a esta hora tão scepticos como nós outros, os christãos. Nas areias do deserto, como nas nossas praças allumiadas a gaz—já não será facil encontrar mil homens de boa vontade, que peguem em armas em nome do seu Deus.
De certo todo o bom mussulmano, a certas horas do dia, se orienta para o lado de Méca e se prostra nas reverencias rituaes: pura questão de educação, de boas maneiras, de habito, como nós outros tiramos o chapéu ao passar por um calvario de aldeia. Ou então, superstição vaga, vago terror nervoso, como o de certos philosophos e positivistas das minhas relações, que sempre, ao saltar da cama, fazem o signal da cruz.
Dentro do Alcorão vê-se já o caso melancolico de uma lei divina ir cahindo em desuso. O Sultão recebe a jantar os embaixadores, e bebe com elles champagne: a policia do Cairo prende os santos derviches vagabundos, e já não é respeitado o jejum do Ramazan.
Como o nosso Evangelho, a palavra de Mahomet vae-se tornando objecto de poesia, de commentario, de controversia. Ha Renans no Islam; e o verbo divino, uma vez analysado, deixa de inspirar a fé que leva á morte.
O mundo mussulmano está no seu seculo decimo-terceiro, na sua plena meia edade, e certamente ha muito beduino sob a tenda, tão crente, tão penetrado de Mahomet, como aquelles corações simples, que, ainda ha pouco no deserto dos nossos claustros, choravam ao ler a paixão de Jesus; mas não creio que mesmo esses patriarchas deixassem os seus oasis, os seus rebanhos, os seus harens, para virem gratuitamente, sem outro pret a não ser o sorriso das houris nos jardins do Paraizo, supportar o fogo dos canhões Krupp. E emquanto ás classes cultas de Constantinopla, do Cairo, de Smyrna, de Tunis, essas acreditam tanto na promessa das houris, como nós outros, aqui em Regent-Street, nas palmas verdes da Bemaventurança e no côro dos Serafins...
Por todo o universo a religião desapparece das almas; e apenas lá fica essa vaga religiosidade, feita em parte do abalo que deu ao nosso coração uma tão longa sujeição ao sobrenatural, em parte do confuso terror que impera n'este grande universo que nos cerca, tão simples e tão mal comprehendido. N'este estado negativo, de passividade na duvida, não se gera facilmente um impulso d'acção forte. Um jehad no Islam é tão impraticavel—como uma cruzada no Christianismo. Pedro Ermita hoje iria acabar na policia correcional, por perturbador da ordem publica e das relações internacionaes; e os fanaticos que, ainda hoje, ás portas das mesquitas do Cairo, bradam contra o touriste estrangeiro as injurias aconselhadas pela boa doutrina, são immediatamente levados para a enxovia, por fazerem alarido nas ruas!
Mahomet, nas suas mesquitas, Christo, nas nossas capellas, vão singularmente envelhecendo; o nosso Messias vae-se cobrindo pouco a pouco do pó que levanta o forte arado da razão, lavrando um mundo novo; e o propheta do Islam, tendo perdido a força da sua unidade, subdividido em mil prophetas menores que presidem a mil seitas differentes, mal póde resistir á lenta avançada da civilisação occidental. E com Christo e Mahomet, que eram os principios militantes e vivos das suas religiões, desapparece o que n'essas religiões havia de vivo e de militante. Resta Deus, resta Allah. Sublimes abstracções, incapazes de inspirar amor ou heroismo.
O que mais faz amar a Divindade é a quantidade de humanidade que ella encerra. Clovis batia-se por Jesus, que tinha um peito de homem como o d'elle, e n'esse peito humano cinco chagas abertas; Soliman morreria feliz por Mahomet, que era como elle um guerreiro, e como elle amava a belleza.
Mas quem se vae bater por Deus, por Allah, essas entidades tão vastas que enchem todo o ceu, e tão pequenas que não bastam a satisfazer o nosso coração, que nos são subalternas, porque são feitas á nossa imagem, e são no fundo a nossa propria alma alargada até ao infinito com todas as suas fraquezas?!