De resto, é possivel que eu esteja aqui attribuindo a fortes corações de Meca e do deserto os scepticismos litterarios de Pall-Mall e do Boulevard de la Madeleine. Que sabemos nós do que se passa dentro do Islam? Tão pouco como os lettrados da mesquita d'El-Azhar sabem o que por cá vae dentro do nosso confuso catholicismo.

Mas, mesmo que se effectuasse um jehad, seria apenas motivo para a Inglaterra gastar mais alguns milhões e sacrificar mais alguns regimentos. Nem o Alcorão, nem o famoso estandarte verde, nem o proprio Mahomet, que voltasse á terra a desfraldal-o, impediriam que John Bull se estabeleça no Egypto...

Já lá está, nunca mais de lá sahirá!

Estão em toda a parte, esses inglezes! O seculo XIX vae findando, e tudo em torno de nós parece monotono e sombrio—porque o mundo se vae tornando inglez. Por mais desconhecida e inedita nos mappas que seja a aldeola onde se penetre, por mais perdido que se ache n'um obscuro recanto do Universo o regato ao longo do qual se caminhe—encontra-se sempre um inglez, um vestigio de vida ingleza!

Sempre um inglez! Inteiramente inglez, tal qual como sahiu da Inglaterra, impermeavel ás civilisações alheias, atravessando religiões, habitos, artes culinarias differentes, sem que se modifique n'um só ponto, n'uma só prega, n'uma só linha o seu prototypo britannico. Hirtos, escarpados, talhados a pique, como as suas costas do mar, ahi vão querendo encontrar por toda a parte o que deixaram em Regent-Street, e esperando Pale-Ale e roast-beef no deserto da Petrea; vestindo no alto dos montes sobrecasaca preta ao domingo, em respeito á egreja protestante, e escandalisados que os indigenas não façam o mesmo; recebendo nos confins do mundo o seu Times ou o seu Standard, e formando a sua opinião, não pelo que vêm ou ouvem ao redor de si, mas pelo artigo escripto em Londres; impellindo sempre os passos para a frente, mas com a alma voltada sempre para traz, para o home; abominando tudo o que não é inglez, e pensando que as outras raças só podem ser felizes possuindo as instituições, os habitos, as maneiras que os fazem a elles felizes na sua ilha do Norte!

Estranha gente, para quem é fóra de duvida que ninguem póde ser moral sem ler a Biblia, ser forte sem jogar o cricket, e ser gentleman sem ser inglez!

E é isto que os torna detestados. Nunca se fundem, nunca se desinglezam. Ha raças fluidas, como a franceza, a allemã, que, sem perderem os seus caracteres intrinsecos, tomam ao menos exteriormente a forma da civilisação que momentaneamente as contêm. O francez no interior da Africa adora sem repugnancia o manipanço, e na China usa rabicho. O inglez cahe sobre as idéas e as maneiras dos outros, como uma massa de granito na agua: e alli fica pesando, com a sua Biblia, os seus clubs, os seus sports, os seus prejuizos, a sua etiqueta, o seu egoismo—tornando-se na circulação da vida alheia um encommodativo tropeço.

É por isso que, nos paizes onde vive ha seculos, é elle ainda o estrangeiro.

Em toda a parte onde domine e impere, todo o seu esforço consiste em reduzir as civilisações estranhas ao typo da sua civilisação anglo-saxonia. O mal não é grande quando elles operam sobre a Zululandia e sobre a Cafraria, n'essas vastidões da Terra Negra, onde o selvagem e a sua cubata mal se distinguem das hervas e das rochas, e são meros accessorios da paizagem: ahi encontram apenas uma materia bruta, onde nenhuma anterior fórma de belleza original se estraga, quando elles a refundem para a fazer á sua imagem. Vestir o desventurado rei negro Cetewayo, como elles agora fizeram, de coronel de infanteria, obrigar os chefes dos Basutos a saber de cór os nomes da familia real ingleza, são talvez actos de feroz despotismo, mas não deterioram nenhuma primitiva originalidade de linha ou de idéa. Para Cetewayo, que andava nú, uma fardeta, mesmo de infantaria, não faz senão vestil-o; e é indifferente que dentro do craneo dos Basutos haja só formulas de invocação ao manipanço, ou tambem nomes de principes da casa d'Hanover.

Mas quando elles trabalham sobre antigas civilisações como a da India, onde existem artes, costumes, litteraturas, instituições, em que uma grande raça pôz toda a originalidade do seu genio—então a politica anglo-saxonia repete pouco mais ou menos o attentado sacrilego de quem desmantellasse um templo buddhico, bello como um sonho de Buddha, para lhe dar na sua reconstrução as linhas hediondas do Stock Exchange de Londres; ou ainda de quem se fôsse ao marmore divino da Venus de Milo, e tentasse, á força bruta de martello e cinzel, dar-lhe o feitio, as suissas e a sobrecasaca de lord Palmerston! A expansão do inglez para o Oriente, seu objectivo imperial, seria toleravel, mesmo aos nervos de um artista—se elle se contentasse em levar para lá os seus tecidos, as suas machinas, os seus telegraphos, os seus railways, deixando depois que essas raças usassem esse colossal material de civilisação em se desenvolverem no sentido do seu genio e do seu temperamento. Que por todos os modos se forneça á santa cidade de Hydrabad gazometros e illuminação—mas, por Deus! que se não mettam á força bicos de gaz dentro dos seus templos, se isso offende os seus ritos e repugna ao seu gosto! Que a India, por exemplo, seja coberta de caminhos de ferro, fornecidos pelos industriaes de Northumberland e pagos pelo indio—excellente! Mas ao menos que as aldêas onde elles passam, essas aldêas que os mesmos inglezes descrevem como pequenos paraizos de paz, de trabalhos simples, de costumes doces, de frugalidade, de frescura, de belleza moral, não sejam tornadas tão tristes como as tristes parochias de Yorkshire, introduzindo-se logo lá o policeman, o deposito de cerveja, a capella protestante de tijolo, o livreiro de Biblias, o vendedor de gin, a fumaraça de uma fabrica, a prostituição e a workhouse!...