Mas deixemos isto. É facil maldizer da Inglaterra. Basta abrir os livros dos seus grandes homens, desde Thackeray, o artista, que com um tão frio rancor lhe fez a satyra sangrenta, até Carlisle, o philosopho, que passou a existencia a fulminal-a com uma tumultuosa colera de propheta...

Da Inglaterra póde-se dizer que—ao contrario da generosa França—as suas virtudes só a ella aproveitam e os seus vicios contaminam o mundo.

É á Inglaterra que se deve o egoismo crescente que nos vae petrificando o coração—esse egoismo tão particularmente inglez, que faz com que em Hyde-Park, no seu centro de luxo, trezentas pessoas, em torno de um lago, vejam uma pobre criança afogar-se, sem que nenhuma se encommode a tirar o charuto da bocca para lhe estender uma taboa! É á Inglaterra que devemos esta crescente hypocrisia que invade o mundo, e que faz com que em Londres, nos cartazes que annunciam as peças de Sardou ou Dumas, se ajunte esta estupenda declaração: adaptada ás justas exigencias da moralidade ingleza;—emquanto que, na rua, por baixo d'esses mesmos cartazes, rola, sem cessar, a mais vil torrente que o mundo viu de bebados e de prostitutas!

Mas deixemos as maculas da Inglaterra: a lista é longa;—quero só alludir a um outro abominavel defeito que ella sempre teve, e que agora desenvolveu em proporções intoleraveis:—a sua espantosa filaucia, a sua ruidosa basofia, o seu tremendo ar mata-sete!

É sobretudo n'este momento, desde o começo da guerra do Egypto, que os que, como eu, amam a Inglaterra, soffrem de lhe vêr estes extravagantes modos de valentão de romance picaresco. Os telegrammas que os correspondentes dos jornaes enviam das operações da guerra, sobretudo os commentarios dos proprios jornaes, seriam lamentavelmente grotescos, se não fossem odiosamente impertinentes. Os francezes (que não são modestos) puzeram trinta mil allemães fóra de combate na batalha de Gravellote, e todavia não fizeram a decima parte do alarido, da gloriola, do espalhafato com que os inglezes celebravam a escaramuça de Ramleh, onde os egypcios perderam quarenta e tantos homens! Parece faltar-lhes o sentimento da proporção das cousas. Um correspondente do Daily News annunciava, ha dias, como um feito heroico, digno de ir á posteridade, o terem alguns soldados em marcha dado um pedaço de pão de munição a um arabe que morria de fome á beira de um caminho! Era espanto de encontrar dentro de peitos inglezes um resto de piedade humana? Não. Queria provar que nenhum exercito no mundo faz a guerra com uma tão profunda clemencia!

Ou celebrem o aspecto physico dos regimentos ou a afinação das bandas de musica, a pontaria dos artilheiros ou a fórma dos capacetes, os talentos do Estado Maior ou a excellencia da bolacha de munição, vem logo em lettras gordas, a phrase tola—o que ha de melhor no mundo!

Faz uma vedeta ingleza fogo sobre uma vedeta egypcia e depois recolhe á trincheira? Logo este facto é declarado tão nobre pelo heroismo como habil pela prudencia!

Os córos que se entoam em torno do general Wolseley, pertencem á pura farça.

Eu quero crêr que elle é um grande homem—ainda que por ora nada mais fez que debandar uma pobre horda de negros armados de flechas que vegetavam junto a não sei que rio d'Africa; mas que se póde pensar quando se lê, no World e em outros papeis, que elle é o maior general do seculo? Onde vive um certo Moltke? Quando existiu um chamado Napoleão?

O melhor, mais bem feito, mais importante jornal de Londres, a Pall Mall Gazette, envergonhado de tudo isto, explica, com a sua usual habilidade, que estas fanfarronadas não são destinadas á Europa, mas ao Egypto «para levantar o moral das tropas!» Têm pois esses regimentos em campanha nos areaes da Africa, diante d'um inimigo formidavel, vagares para ler as gazetas? Recebe cada soldado raso, com o seu rancho da manhã, um numero do Times? A respeitavel Pall Mall blaguêa. Para animar, recompensar as tropas, lá estão as proclamações dos generaes. Ahi, sim, a emphase deve correr em torrentes: e quando um desgraçado homem depois de ter marchado todo um dia, com fome, com sêde, com os pés em sangue na areia e um ceu de fogo nas costas, volta á noite ao acampamento, estendido n'uma maca com duas balas no corpo—não é muito que se lhe diga que elle é o primeiro soldado do mundo!