Devendo mostrar-lhes a opinião presente da Inglaterra sobre o Brazil, d'esses artigos floridos, escolho o do Times, annotando e glosando o trabalho do seu enviado. (É d'este modo respeitoso que se deve fallar sempre de um correspondente do Times).
Começa, pois, o grande jornal da City por dizer—«que a descripção do vasto Imperio do Brazil com que foi fechada a serie das cartas sobre o continente americano, deve ter feito transbordar o sentimento de admiração pelo explendor, etc...» Seguem-se aqui naturalmente vinte linhas de extasi. É, em prosa, a aria do 4.º acto da Africana: Vasco da Gama, de olhos humidos e coração suspenso no enlevo de tanta flôr prodigiosa, de tão raros cantos d'aves raras...
Depois vem o espanto classico pela extensão do Imperio: «Só o simples tamanho de um tal dominio (exclama) na mão de uma diminuta parcella da humanidade é já em si um facto sufficientemente impressionador!»
E todavia esta admiração do Times pelo gigante é misturada a um certo patrocinio familiar, de ser superior,—que é a attitude ordinaria da Inglaterra e da imprensa ingleza para com as nações que não têm duzentos couraçados, um Shakspeare, um Bank of England, e a instituição do roast-beef... N'este caso do Brazil, o tom de protecção é raiado de sympathia...
Depois o artigo rompe de novo n'um hymno: «A Natureza no Brazil não necessita do auxilio do homem para se encher de abundancias e se cobrir de adornos!... Para seu proprio prazer planta, ella mesma, luxuriantes parques! E não ha recanto selvagem que não faça envergonhar as mais ricas estufas da Europa...» Isto é decerto exacto: mas o Times, receiando que os seus leitores viessem a suppor que a natureza do Brazil está de tal modo repleta, tão indigestamente attestada, que não permitte, que se recusa com furor a receber no seu ventre empanturrado uma semente mais sequer—apressa-se a tranquillisal-os: «Mas (diz este sabio jornal judiciosamente) ainda que a Natureza dispense bem todo o trabalho do homem, que outros solos menos generosos requerem para se abrir em flôres e fructos,—não o repelle todavia». Isto socega os nossos animos: ficamos assim certos que nenhum fazendeiro, nos distantes cafesaes, ao atirar á terra, a terra mãe, com a enxadada fecundadora a semente inicial, corre o risco atroz de ser por ella atacado á pedrada ou a golpes de bananeira... Nem outra cousa se podia esperar da doce e pacifica Ceres.
Tendo assim floreado, de penacho oratorio ao vento, o Times investe com as ideias praticas. E começa por declarar, que, segundo o copioso relatorio do seu correspondente, «o que surprehende na America do Sul (se exceptuarmos aquella tira de terra que constitui a Republica do Chili, e alguns bocados da costa do enorme imperio do Brazil) é a grandeza de tais recursos comparada á desapontadora magreza dos resultados». Seria facil responder com a escassez da população. O Times de resto sabe-o bem, porque nos falla logo d'essa população nas republicas hespanholas, mas não a acha escassa; o que a acha é torpe!... A pintura que nos dá do Perú, Bolivia, Equador e consortes é ferina e negra: «Essa gente vive n'uma indolencia vil, que não é incompativel com muita arrogancia e muita exagerada vaidade! D'esse torpor só rompe, por accesso de frenesi politico. Todo o trabalho ai emprehendido para fazer produzir a natureza é dos estrangeiros: os naturaes limitam-se a invejal-os, a detestal-os por os verem utilisar opportunidades que elles mesmo não se quizeram baixar a usar!» Isto é cruel: não sei se é justo: mas entre estas linhas palpita todo o rancor de um inglez possuidor de maus titulos peruanos. «E se o nosso correspondente (continua o artigo) offerece de alto o Brazil á nossa admiração, não é em absoluto, é relativamente, em contraste com os paizes que quasi o egualam em vantagens materiaes, como o Perú e o Rio da Prata, mas onde a discordia intestina devora e destroe todo o progresso nascido da actividade estrangeira. O Brazil é portuguez e não hespanhol: e isto explica tudo. O seu sangue europeu vem d'aquella parte da Peninsula Iberica em que a tradicção é a da liberdade triumphante, e nunca supprimida.» O Times aqui abandona-se com excesso ás exigencias rythmicas da phrase: parece imaginar que desde a batalha de Ourique temos vindo caminhando n'uma larga e luminosa estrada de ininterrompida democracia!...
Mas, emfim, continúa: «Quando o Brazil quebrou os seus laços coloniaes não tinha a esquecer feias memorias de tyrannia e rapacidade; nem teve de supprimir genericamente todos os vestigios de um máu passado.» Com effeito; pobres de nós! nunca fômos de certo para o Brazil senão amos amaveis e timoratos.
Estavamos para com elle n'aquella melancolica situação de um velho fidalgo, solteirão arrasado, desdentado e tropego, que treme e se baba deante de uma governanta bonita e forte. Nós verdadeiramente é que eramos a colonia: e era com atrozes sustos do coração que, entre uma Salvè Rainha e um Lausperenne, estendiamos para lá a mão á esmola...
O Times prossegue: «Ainda que independente, o Brazil ficou portuguez de nacionalidade e semi-europeu de espirito. Pelo simples facto de se sentir portuguez, o povo brazileiro teve, e conserva, o instincto do grande dever que lhe incumbe: tirar o partido mais nobre da sua nobre herança... Sejam quaes tenham sido os erros de Portugal, não se póde dizer que se tenha jámais contentado com o mero numero das suas possessões, sem curar de lhes extrahir os proventos...» O Times aqui dormita, como o secular Homero.
E justamente o que nos preoccupa, o que nos agrada, o que nos consola é contemplar simplesmente o numero das nossas possessões: pôr-lhes o dedo em cima, aqui e além, no mappa; dizer com voz de papo, ore rotundo: «Temos oito; temos nove: somos uma nação colonial, somos um povo maritimo!...» Emquanto a extrahir-lhes os proventos, na phrase judiciosa do Times, d'esses detalhes miseraveis não cura o pretor, nem os netos de Affonso de Albuquerque!... Mas prossegue o Times: «O imperio colonial de Portugal talvez tenha sido outr'ora caracterisado por desfortuna—quasi nunca por estagnação.» Talvez é bom: com o imperio do Oriente no nosso passado, que é um dos mais feios monumentos de ignominia de todas as edades... Continuemos.