«Da origem d'onde o Brazil deriva a sua actividade, deriva tambem (o que não é menos importante) o respeito pela opinião da Europa. O vadio das ruas de Lima, de Caracas ou de Buenos-Ayres nutre um soberano desprezo pelos juizos que a Europa possa formar das suas tragi-comedias politicas... Não tem consciencia de cousa alguma, a não ser do seu sangue castelhano... Sente decerto o inconveniente de ser expulso do credito e das bolsas da Europa... Mas avalia esta circumstancia apenas pelos embaraços momentaneos que ella lhe traz. O financeiro brazileiro, porem, esse presta uma tão respeitosa attenção ao temperamento das bolsas de Pariz e Londres, como ao da mesma praça do Rio de Janeiro...»

O Times vê n'este symptoma a consideração que o Brazil tem pela opinião da Europa.

Mas, onde o Times se engana é quando pretende que o Brazil deve ao seu sangue portuguez esta bella qualidade de obedecer aos juizos do mundo civilisado. Não ha paiz no universo, onde se despreze mais, creio eu, o julgamento da Europa, que em Portugal: n'esse ponto somos como o vadio das ruas de Caracas, que o Times tão pittorescamente nos apresenta: porque eu chamo desdenhar a opinião da Europa não fazer nada para lhe merecer o respeito. Com effeito, o juizo que de Badajoz para cá se faz de Portugal, não nos é favoravel, nós sabemol-o bem—e não nos inquietamos! Não fallo aqui de Portugal como Estado politico. Sob esse aspecto gosamos uma razoavel veneração. Com effeito, nós não trazemos á Europa complicações importunas; mantemos dentro da fronteira uma ordem sufficiente: a nossa administração é correctamente liberal; satisfazemos com honra os nossos compromissos financeiros.

Somos o que se póde dizer um povo de bem, um povo bôa pessoa. E a nação vista de fóra e de longe, tem aquelle ar honesto de uma pacata casa de provincia, silenciosa e caiada, onde se presente uma familia commedida, temente a Deus, de bem com o regedor, e com as economias dentro de uma meia... A Europa reconhece isto: e todavia olha para nós com um desdem manifesto. Porque? Porque nos considera uma nação de mediocres: digamos francamente a dura palavra—porque nos considera uma raça de estupidos. Este mesmo Times, este oraculo augusto, já escreveu que Portugal era, intellectualmente, tão caduco, tão casmurro, tão fossil, que se tornára um paiz bom para se lhe passar muito ao largo, e atirar-lhe pedras (textual).

O Daily Telegraph já discutiu em artigo de fundo este problema: Se seria possivel sondar a espessura da ignorancia luzitana! Taes observações, além de descortezes, são decerto perversas. Mas a verdade é que n'uma epocha tão intellectual, tão critica, tão scientifica como a nossa, não se ganha a admiração universal, ou se seja nação ou individuo, só com ter proposito nas ruas, pagar lealmente ao padeiro, e obedecer, de fronte curva, aos editaes do governo civil. São qualidades excellentes, mas insufficientes. Requer-se mais: requer-se a forte cultura, a fecunda elevação de espirito, a fina educação do gosto, a base scientifica e a ponta de ideal que em França, na Inglaterra, na Allemanha, inspiram na ordem intellectual a triumphante marcha para a frente; e nas nações de faculdades menos creadoras, na pequena Hollanda ou na pequena Suecia, produzem esse conjunto eminente de sabias instituições que são, na ordem social, a realização das fórmas superiores do pensamento.

Dir-me-hão que eu sou absurdo ao ponto de querer que haja um Dante em cada parochia, e de exigir que os Voltaires nasçam com a profusão dos tortulhos. Bom Deus, não! Eu não reclamo que o paiz escreva livros, ou que faça arte: contentar-me-ia que lesse os livros que já estão escriptos, e que se interessasse pelas artes que já estão creadas. A sua esterilidade assusta-me menos que o seu indifferentismo. O doloroso espectaculo é vêl-o jazer no marasmo, sem vida intellectual, alheio a toda a ideia nova, hostil a toda a originalidade, crasso e mazorro, amuado ao seu canto, com os pés ao sol, o cigarro nos dedos e a bocca ás moscas... É isto o que punge.

E o curioso é que o paiz tem a consciencia muito nitida d'este torpor mortal, e do descredito universal que elle lhe attrahe. Para fazer vibrar a fibra nacional, por occasião do centenario de Camões, o grito que se utilizou foi este:—Mostremos ao mundo que ainda vivemos! que ainda temos uma litteratura!

E o paiz sentiu asperamente a necessidade de affirmar alto, á Europa, que ainda lhe restava um vago clarão dentro do craneo. E o que fez? Encheu as varandas de bandeirolas, e rebentou de jubilo a pelle dos tambores. Feito o que—estendeu-se de ventre ao sol, cobriu a face com o lenço de rapé, e recomeçou a sésta eterna. D'onde eu concluo que Portugal, recusando-se ao menor passo nas lettras e na sciencia para merecer o respeito da Europa intelligente, mostra, á maneira do vadio de Caracas, o despreso mais soberano pelas opiniões da civilização. Se o Brazil, pois, tem essa qualidade eminente de se interessar pelo que diz o mundo culto, deve-o ás excellencias da sua natureza, de modo nenhum ao seu sangue portuguez: como portuguez, o que era logico que fizesse era voltar as costas á Europa, puxando mais para as orelhas o cabeção do capote...

Mas, retrocedendo ao artigo do Times, a conclusão da sua primeira parte é que «em riqueza e aptidões o Brazil leva gloriosamente a palma ás outras nacionalidades da America do Sul». Todavia, o Times observa no Brazil circumstancias desconsoladoras: «Doze milhões de homens estão perdidos n'um estado maior que toda a Europa: a receita publica, que é de doze milhões de libras esterlinas, é muitos milhões inferior á da Hollanda e á da Belgica: com uma linha de costa de quatro mil milhas de comprimento, e com pontos de uma largura de duas mil e seiscentas milhas, o Brazil exporta em valor de generos a quarta parte menos que o diminuto reino da Belgica.»

O Times, todavia, tem a generosidade de admittir que nem a densidade de população, nem o total das receitas, nem a cifra das exportações constituem a felicidade de um povo e a sua grandeza moral. A Suissa, que tem dois milhões de habitantes e justamente os mesmos dois milhões de libras de receita, vive em condições de prosperidade, de liberdade, de civilisação, de intellectualidade bem superiores á tenebrosa Russia com os seus oitenta milhões de libras de receita, e os mesmos oitenta milhões em homens. «Todavia, continúa o Times, se a escassez da população, de rendimento e de commercio, não collocam o Brazil n'um estado de adversidade, são uma prova que faltam a esse povo algumas das qualidades que fazem a grandeza das nações. Que os colonisadores portuguezes, apenas apoiados pelo pequeno throno portuguez, tivessem feito da metade do novo mundo, que lhes concedeu o papa Alexandre, mais que os colonisadores hespanhoes que tiravam a sua força da grande nação de Hespanha, é uma cousa que prova a favor do sangue portuguez comparado com o sangue castelhano, andaluz ou aragonez. Mas que as conquistas feitas no Brazil á natureza sejam tão insignificantes, e tão vastos os espaços que permanecem não só inconquistados mas desamparados—indica que são analogos os defeitos da colonia hespanhola e da colonia portugueza...»