—É o que eu dizia....
—Sim, e então?
—É bonita.
—É bonita.
—É gente de bem, hein?
—Sim, gente de bem.
—Está bom. Tu conhece-las muito?
—Conheço-as. Muito não. Encontrava-as dantes em casa de D. Cláudia.
—Bem, ouve lá.
E Macário, contando a história do seu coração acordado e exigente e falando do amor{15} com as exaltações de então, pediu-lhe como a glória da sua vida, que achasse um meio de o encaixar lá. Não era difícil. As Vilaças costumavam ir aos sábados a casa de um tabelião muito rico na rua dos Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam motetes ao cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da senhora D. Maria I, e às 9 horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no primeiro sábado, Macário, de casaca azul, calças de ganga com presilhas de trama de metal, gravata de setim roxo, curvava-se diante da espôsa do tabelião, a snr.ª D. Maria da Graça, pessoa sêca e aguçada, com um vestido bordado a matiz, um nariz adunco, uma enorme luneta de tartaruga, a pluma de marabout nos seus cabelos grisalhos. A um canto da sala já lá estava, entre um frou-frou de vestidos enormes, a menina Vilaça, a loura, vestida de branco, simples, fresca, com o seu ar de gravura colorida. A mãe Vilaça, a soberba mulher pálida, cochichava com um desembargador de figura apoplética. O tabelião era homem letrado, latinista e amigo das musas; escrevia num jornal de então, a Alcofa das Damas: porque era sobretudo galante, e êle mesmo se intitulava, numa ode pitoresca, môço escudeiro de Vénus. Assim, as suas reùniões eram ocupadas pelas belas-artes—e nessa noite um poeta do tempo{16} devia vir ler um poemeto intitulado Elmira ou a vingança do veneziano!... Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas. As revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e saídos da mitologia para os países maravilhosos do Oriente. Por toda a parte se falava no pachá de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente dêste mundo novo e virginal de minaretes, serralhos, sultanas côr de ámbar, piratas do Arquipélago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do aloés onde pachás decrépitos acariciam leões.—De sorte que a curiosidade era grande—e quando o poeta apareceu com os cabelos compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoço entalado na alta gola do seu fraque à Restauração e um canudo de lata na mão—o snr. Macário é que não experimentou sensação alguma, porque lá estava todo absorvido, falando com a menina Vilaça. E dizia-lhe meigamente: