—¿Então, noutro dia, gostou das casimiras?

—Muito—disse ela baixo.

E, desde êsse momento, envolveu-os um destino nupcial.

No entanto, na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Macário não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela assembleia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o Madrigal a Lídia: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada{17} sôbre o papel, a perna direita lançada para diante, a mão na abertura do colete branco de gola alta. E em redor, formando círculo, as damas, com vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas num fofo de rendas, mitenes de retroz preto cheias da scintilação dos aneis, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmurações, risinhos, e um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas.—Muito bonito, diziam, muito bonito! E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava sorrindo—e via-se-lhe um dente pôdre.

Depois a preciosa D. Jerónima da Piedade e Sande, sentando-se com maneiras comovidas ao cravo, cantou com a sua voz roufenha a antiga ária de Sully:

Oh Ricardo, oh meu rei,
O mundo te abandona

o que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário:

—Reis!... víboras!

Depois, o cónego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada no tempo do senhor D. João VI: lindas môças, lindas môças. E a noite ia assim correndo, literária, pachorrenta, erudita, requintada e toda cheia de musas.{18}

Oito dias depois, Macário era recebido em casa da Vilaça, num domingo. A mãe convidára-o, dizendo-lhe: