Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de sêda frouxa (para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento.
E era êste bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus amigos e filósofos. ¿Que faltava a êste homem excelente? Êle tinha a sua inabalável saúde de pinheiro bravo, crescido nas dunas; uma luz da inteligência, própria a tudo alumiar, firme e clara sem tremor ou morrão; quarenta magníficos contos de renda; todas as simpatias duma cidade chasqueadora e scéptica; uma vida varrida de sombras, mais liberta e lisa do que um céu de verão... E todavia bocejava constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as rugas. Aos trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! E pela morosidade desconsolada de toda a sua acção parecia ligado, desde os dedos até à vontade, pelas malhas apertadas duma rêde que se não via e que o travava. Era doloroso testemunhar o fastio com que êle, para apontar um enderêço, tomava o seu lápis pneumático, a sua pena eléctrica—ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo telefónico!... Neste mover lento do braço magro, nos vincos que lhe arrepanhavam o nariz, mesmo nos seus silêncios, longos e derreados, se sentia o brado constante{94} que lhe ia na alma;—Que massada! Que massada! Claramente a vida era para Jacinto um cansaço—ou por laboriosa e difícil, ou por desinteressante e ôca... Por isso o meu pobre amigo procurava constantemente juntar à sua vida novos interêsses, novas facilidades. Dois inventores, homens de muito zêlo e pesquiza estavam encarregados, um em Inglaterra, outro na América, de lhe noticiar e de lhe fornecer todas as invenções, as mais miudas, que concorressem a aperfeiçoar a confortabilidade do Jasmineiro. De resto, êle proprio se correspondia com Edison. E, pelo lado do pensamento, Jacinto não cessava tambêm de buscar interêsses e emoções que o reconciliassem com a vida—penetrando à cata dessas emoções e dêsses interêsses pelas veredas mais desviadas do saber, a ponto de devorar, desde janeiro a março, setenta e sete volumes sôbre a evolução das ideas morais entre as raças negróides. Ah! nunca homem dêste século batalhou mais esforçadamente contra a séca de viver! Debalde! Mesmo de explorações tam cativantes como essa, através da moral dos negróides, Jacinto regressava mais murcho, com bocejos mais cavos!
E era então que êle se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer e do Eclesiastes. Porque? Sem dúvida porque ambos êsses pessimistas o confirmavam nas conclusões{95} que êle tirava de uma experiência paciente e rigorosa: «que tudo é vaidade ou dor, que quanto mais se sabe, mais se péna, e que ter sido rei de Jerusalêm e obtido os gózos todos na vida só leva a maior amargura...» ¿Mas porque rolara assim a tam escura desilusão—o saùdável, rico, sereno e intelectual Jacinto? O vélho escudeiro Grilo pretendia que «S. Ex.ª sofria de fartura!»
[III]
Ora justamente depois dêsse inverno, em que êle se embrenhara na moral dos negróides e instalara a luz eléctrica entre os arvoredos do jardim, sucedeu que Jacinto teve a necessidade moral iniludível de partir para o Norte, para o seu vélho solar de Torges. Jacinto não conhecia Torges, e foi com desusado tédio que êle se preparou, durante sete semanas, para essa jornada agreste. A quinta fica nas serras—e a rude casa solarenga, onde ainda resta uma tôrre do século XV, estava ocupada, havia trinta anos, pelos caseiros, boa gente de trabalho, que comia o seu caldo entre a fumaraça da lareira, e estendia o trigo a secar nas salas senhoriais.{96}
Jacinto, logo nos começos de março, escrevera cuidadosamente ao seu procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que compuzesse os telhados, caiasse os muros, envidraçasse as janelas. Depois mandou expedir, por combóios rápidos, em caixotes que transpunham a custo os portões do Jasmineiro, todos os confortos necessários a duas semanas de montanha—camas de penas, poltronas, divãs, lâmpadas de Carcel, banheiras de níquel, tubos acústicos para chamar os escudeiros, tapetes persas para amaciar os soalhos. Um dos cocheiros partiu com um copé, uma vitória, um breque, mulas e guizos.
Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais de trufas, caixas profundas de águas mineráis. Desde o amanhecer, nos pátios largos do palacete, se pregava, se martelava, como na construção de uma cidade. E as bagagens, desfilando, lembravam uma página de Heródoto ao narrar a invasão persa. Jacinto emmagrecera com os cuidados daquele Êxodo. Por fim, largamos numa manhã de junho, com o Grilo, e trinta e sete malas.
Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Guiães, onde vive minha tia, a uma légua farta de Torges: e íamos num vagom reservado, entre vastas almofadas, com perdizes e Champanhe num cêsto. A meio da jornada{97} devíamos mudar de combóio—nessa estação, que tem um nome sonoro em ola e um tam suave e cândido jardim de roseiras brancas. Era domingo de imensa poeira e sol—e encontrámos aí, enchendo a plata-forma estreita, todo um povaréu festivo que vinha da romaria de S. Gregório da Serra.
Para aquele trasbôrdo, em tarde de arraial, o horário só nos concedia três minutos avaros. O outro combóio já esperava, rente aos alpendres, impaciente e silvando. Uma sineta badalava com furor. E, sem mesmo atender às lindas môças que ali saracoteavam, aos bandos, afogueadas, de lenços flamejantes, o seio farto coberto de ouro, e a imagem do santo espetada no chapéu—corremos, empurrámos, furámos, saltámos para o outro vagom, já reservado, marcado por um cartão com as iniciais de Jacinto. Imediatamente o trem rolou. Pensei então no nosso Grilo, nas trinta e sete malas! E debruçado da portinhola avistei ainda junto ao cunhal da estação, sob os eucaliptos, um monte de bagagens, e homens de boné agaloado que, diante delas, bracejavam com desespêro.
Murmurei, recaindo nas almofadas: