Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de volta das fontes, passava cantando com braçados de flores:
Todas as ervas são bentas
Em manhã de S. João...
Jacinto, respirando o ar matinal, limpava as bagas lentas do suor. Recolhemos ao Jasmineiro, com o sol já alto, já quente. Muito de manso abrimos as portas, como no receio de despertar alguêm. Horror! Logo da ante-câmara percebemos sons estrangulados, roufenhos: «admirará... progressos... século!...» Só de tarde um electricista pôde emmudecer aquele fonógrafo horrendo.
Bem mais aprazível (para mim) do que esse gabinete temerosamente atulhado de civilização—era a sala de jantar, pelo seu arranjo compreensível, fácil e íntimo. À mesa só cabiam seis amigos que Jacinto escolhia com critério na literatura, na arte e na metafísica, e que, entre as tapeçarias de Arraz, representando colinas, pomares e portos da Ática cheias de classicismo e de luz, renovavam ali repetidamente banquetes que, pela sua intelectualidade, lembravam os de Platão. Cada garfada se cruzava com um pensamento ou com palavras{88} dextramente arranjadas em forma de pensamento.
E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios dissemelhantes e astuciosos:—um para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro para a fruta, outro para o queijo. Os copos, pela diversidade dos contornos e das côres, faziam, sôbre a toalha mais reluzente que esmalte, como ramalhetes silvestres espalhados por cima de neve. Mas Jacinto e os seus filósofos, lembrando o que o experiente Salomão ensina sôbre as ruínas e amarguras do vinho, bebiam apenas em três gotas de água uma gota de Bordeus (Chateaubriand, 1860). Assim o recomendam—Hesíodo no seu Nereu, e Diocles nas suas Abelhas. E de águas havia sempre no Jasmineiro um luxo redundante—águas geladas, águas carbonatadas, águas esterilizadas, águas gasosas, águas de sais, águas minerais, outras ainda, em garrafas sérias, com tratados terapêuticos impressos no rótulo... O cozinheiro, mestre Sardão, era daqueles que Anaxágoras equiparava aos Retóricos, aos oradores, a todos os que sabem a arte divina de «temperar e servir a Idea»: e em Sybaris, cidade do Viver Excelente, os magistrados teriam votado a mestre Sardão, pelas festas de Juno Lacina, a coroa de fôlhas de ouro e a túnica Milésia que se devia aos bemfeitores cívicos.{89} A sua sopa de alcachofra e ovas de carpa; os seus filetes de veado macerados em vélho Madeira com purée de nozes; as suas amoras geladas em éter, outros acepipes ainda, numerosos e profundos (e os únicos que tolerava o meu Jacinto) eram obras de um artista, superior pela abundância das ideas novas—e juntavam sempre a raridade do sabor à magnificência da forma. Tal prato dêsse mestre imcomparável, parecia, pela ornamentação, pela graça florida dos lavores, pelo arranjo dos coloridos frescos e cantantes, uma joia esmaltada do cinzel de Cellini ou Meurice. Quantas tardes eu desejei fotografar aquelas composições de excelente fantasia, antes que o trinchante as retalhasse! E esta superfinidade do comer condizia deliciosamente com a do servir. Por sôbre um tapete, mais fôfo e mole que o musgo da floresta da Brocelândia, deslizavam, como sombras fardadas de branco, cinco criados e um pagem preto, à maneira vistosa do século XVIII. As travessas (de prata) subiam da cozinha e da copa por dous ascensores, um para as iguarias quentes, forrado de tubos onde a água fervia; outro, mais lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, amónia e sal, e ambos escondidos por flores tam densas e viçosas que era como se até a sopa saísse fumegando dos românticos jardins de Armida. E muito bem me lembro de um domingo de maio em que, jantando{90} com Jacinto um bispo, o erudito bispo de Chorazin, o peixe emperrou no meio do ascensor, sendo necessário que acudissem, para o extrair, pedreiros com alavancas.
[II]
Nas tardes em que havia «banquete de Platão» (que assim denominávamos essas festas de trutas e ideas gerais), eu, vizinho e íntimo, aparecia ao declinar do sol, e subia familiarmente aos quartos do nosso Jacinto—onde o encontrava sempre incerto entre as suas casacas, porque as usava alternadamente de sêda, de pano, de flanelas Jaegher, e de foulard das Índias. O quarto respirava o frescor e aroma do jardim por duas vastas janelas, providas magnificamente (alêm das cortinas de sêda mole Luís XV) de uma vidraça exterior de cristal inteiro, duma vidraça interior de cristais miudos, dum tôldo rolando na cimalha, dum estore de sedinha frouxa, de gases que franziam e se enrolavam como nuvens, e duma gelosia móvel de gradaria mourisca. Todos êstes resguardos (sábia invenção de Holland & C.ª, de Londres) serviam a guardar a luz e o ar—segundo os avisos de termómetros, barómetros e higrómetros, montados em ébano, e a que um{91} meteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as semanas, verificar a precisão.
Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de toilette, uma mesa enorme de vidro, toda de vidro, para a tornar impenetrável aos micróbios, e coberta de todos êsses utensílios de asseio e alinho que o homem do século XIX necessita numa capital, para não desfear o conjunto suntuário da civilização. Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas engenhosas chinelas de pelica e sêda, se acercava desta ara—eu, bem aconchegado num divã, abria com indolência uma Revista, ordináriamente a Revista Electro-Pática, ou a das Indagações Psíquicas. E Jacinto começava... Cada um dêsses utensílios de aço, de marfim, de prata, impunham ao meu amigo, pela influência omnipoderosa que as cousas exercem sôbre o dono (sunt tyranniæ rerum) o dever de o utilizar com aptidão e deferência. E assim as operações do alindamento de Jacinto apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimível, dos ritos dum sacrifício.
Começava pelo cabelo... Com uma escôva chata, redonda e dura, acamava o cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escôva estreita e recurva, à maneira do alfange dum persa, ondeava o cabelo sôbre a orelha; com uma escôva côncava, em forma de telha, empastava o cabelo, por trás, sôbre a{92} nuca... Respirava e sorria. Depois, com uma escôva de longas cerdas, fixava o bigode; com uma escôva leve e flácida acurvava as sobrancelhas; com uma escôva feita de penugem regularizava as pestanas. E dêste modo Jacinto ficava diante do espelho, passando pêlos sôbre o seu pêlo, durante catorze minutos.
Penteado e cansado, ia purificar as mãos. Dois criados, ao fundo, manobravam com perícia e vigor os aparelhos do lavatório—que era apenas um resumo dos maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sôbre o mármore verde e róseo do lavatório, havia apenas duas duches (quente e fria) para a cabeça; quatro jactos, graduados desde zero até cem graus; o vaporizador de perfumes; a fonte de água esterilizada (para os dentes); o repuxo para a barba; e ainda torneiras que rebrilhavam e botões de ébano que, de leve roçados, desencadeavam o marulho e o estridor de torrentes nos Alpes... Nunca eu, para molhar os dedos, me cheguei àquele lavatório sem terror—escarmentado da tarde amarga de janeiro em que bruscamente, dessoldada a torneira, o jacto de água a cem graus rebentou, silvando e fumegando, furioso, devastador... Fugimos todos, espavoridos. Um clamor atroou o Jasmineiro. O vélho Grilo, escudeiro que fôra do Jacinto pai, ficou coberto de empôlas na face, nas mãos fieis.{93}