Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de arbustos floridos roçavam as nossas faces, com familiaridade e carinho. Muito tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando os nossos louvores. Serra bem acolhedora e amável... Ah! que beleza!
Por entre ahs maravilhados chegamos a uma avenida de faias, que nos pareceu clássica e nobre. Atirando uma nova vergastada ao burro e à égua, o nosso rapaz, com o seu podengo ao lado, gritava:
—Aqui é que estêmos!
E ao fundo das faias havia, com efeito, um portão de quinta, que um escudo de armas de vélha pedra, roída de musgo, grandemente afidalgava. Dentro já os cães ladravam com furor. E mal Jacinto, e eu atrás dêle no burro de Sancho, transpuzemos o limiar solarengo, correu para nós, do alto da escadaria, um homem branco, rapado como um clérigo, sem colete, sem jaleca, que erguia para o ar, num assombro, os braços desolados. Era o caseiro,{101} o Zé Brás. E logo ali, nas pedras do pátio, entre o latir dos cães, surdiu uma tumultuosa história, que o pobre Brás balbuciava, aturdido, e que enchia a face de Jacinto de lividez e de cólera. O caseiro não esperava S. Ex.ª Ninguêm esperava S. Ex.ª (Êle dizia sua inselência).
O procurador, o snr. Sousa, estava para a raia desde maio, a tratar a mãe que levára um couce de mula. E de-certo houvera engano, cartas perdidas... Porque o snr. Sousa só contava com S. Ex.ª... em setembro, para a vindima. Na casa nenhuma obra começára. E, infelizmente para S. Ex.ª, os telhados ainda estavam sem telhas, e as janelas sem vidraças...
Cruzei os braços, num justo espanto. ¿Mas os caixotes—êsses caixotes remetidos para Torges, com tanta prudência, em abril, repletos de colchões, de regalos, de civilização?... O caseiro, vago, sem compreender, arregalava os olhos miudos onde já bailavam lágrimas. Os caixotes?! Nada chegára, nada aparecera. E na sua perturbação o Zé Brás procurava entre as arcadas do pátio, nas algibeiras das pantalonas... Os caixotes? Não, não tinha os caixotes!
Foi então que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as carruagens) se acercou, gravemente. Êsse era um civilizado—e{102} acusou logo o govêrno. Já quando êle servia o snr. visconde de S. Francisco se tinham assim perdido, por desleixo do govêrno, da cidade para a serra, dous caixotes com vinho vélho da Madeira, e roupa branca de senhora. Por isso êle, escarmentado, sem confiança na nação, não largára as carruagens—e era tudo o que restava a S. Ex.ª: o breque, a vitória, o copé e os guizos. Sómente, naquela rude montanha, não havia estradas onde elas rolassem. E como só podiam subir para a quinta em grandes carros de bois—êle lá as deixára em baixo, na estação, quietas, empacotadas na lona...
Jacinto ficára plantado diante de mim, com as mãos nos bolsos:
—E agora?
Nada restava senão recolher, cear o caldo do tio Zé Brás, e dormir nas palhas que os fados nos concedessem. Subimos. A escadaria nobre conduzia a uma varanda, toda coberta, em alpendre, acompanhando a fachada do casarão e ornada, entre os seus grossos pilares de granito, por caixotes cheios de terra, em que floriam cravos. Colhi um cravo. Entramos. E o meu pobre Jacinto contemplou, emfim, as salas do seu solar! Eram enormes, com as altas paredes rebocadas a cal que o tempo e o abandôno tinham ennegrecido, e vazias, desoladamente nuas, oferecendo apenas como vestígio{103} de habitação e de vida, pelos cantos algum monte de cestos ou algum mólho de enxadas. Nos tetos remotos de carvalho negro alvejavam manchas—que era o céu já pálido do fim da tarde, surpreendido através dos buracos do telhado. Não restava uma vidraça. Por vezes, sob os nossos passos, uma tábua pôdre rangia e cedia.