Paramos, emfim, na última, a mais vasta, onde havia duas arcas tulheiras para guardar o grão; e aí depuzemos, melancólicamente, o que nos ficára de trinta e sete malas—os paletós alvadios, uma bengala e um Jornal da Tarde. Através das janelas desvidraçadas, por onde se avistavam copas de arvoredos e as serras azuis de alêm-rio, o ar entrava, montesino e largo, circulando plenamente como em um eirado, com aromas de pinheiro bravo. E, lá debaixo, dos vales, subia, desgarrada e triste, uma voz de pegureira cantando. Jacinto balbuciou:
—É horroroso!
Eu murmurei:
—É campestre!{104}
[IV]
O Zé Brás, no entanto, com as mãos na cabeça, desaparecera a ordenar a ceia para suas inselências. O pobre Jacinto, esbarrondado pelo desastre, sem resistência contra aquele brusco desaparecimento de toda a civilização, caíra pesadamente sôbre o poial duma janela, e daí olhava os montes. E eu, a quem aqueles ares serranos e o cantar do pegureiro sabiam bem, terminei por descer à cozinha, conduzido pelo cocheiro, através de escadas e becos onde a escuridão vinha menos do crepúsculo do que de densas teias de aranha.
A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras, côr de fuligem, onde refulgia ao fundo, sôbre o chão de terra, uma fogueira vermelha que lambia grossas panelas de ferro, e se perdia em fumarada pela grade escassa que no alto coava a luz. Aí um bando alvoroçado e palreiro de mulheres depenava frangos, batia ovos, escarolava arroz, com santo fervor... Do meio delas o bom caseiro, estonteado, investiu para mim jurando que «a ceia de suas inselências não demorava um credo». E como eu o interrogava a respeito de{105} camas, o digno Brás teve um murmúrio vago e tímido sobre «enxergasinhas no chão».
—É o que basta, snr. Zé Brás—acudi eu para o consolar.
—Pois assim Deus seja servido!—suspirou o homem excelente, que atravessava, nessa hora, o transe mais amargo da sua vida serrana.
Voltando a cima, com estas consolantes novas de ceia e cama, encontrei ainda o meu Jacinto no poial da janela, embebendo-se todo da doce paz crepuscular, que lenta e caladamente se estabelecia sôbre vale e monte. No alto já tremeluzia uma estrêla, a Vesper diamantina, que é tudo o que neste céu cristão resta do esplendor corporal de Vénus! Jacinto nunca considerára bem aquela estrêla—nem assistira a êste majestoso e doce adormecer das cousas. Êsse ennegrecimento de montes e arvoredos, casais claros fundindo-se na sombra, um toque dormente de sino que vinha pelas quebradas, o cochichar das águas entre relvas baixas—eram para êle como iniciações. Eu estava defronte, no outro poial. E senti-o suspirar como um homem que emfim descansa.