—É veneno!

Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guannes, apenas chegára a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a comprar ao vélho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a êle, a êle sómente, dono de todo o tesoiro.

Anoiteceu. Dois corvos de entre o bando que grasnava, alêm nos silvados, já tinham pousado sôbre o corpo de Guannes. A fonte, cantando, lavava o outro morto. Meio enterrada na erva negra, toda a face de Rui se tornára negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.

O tesoiro ainda lá está, na mata de Roquelanes.{135}

[FREI GENEBRO]

[I]

Nesse tempo ainda vivia na sua solidão das montanhas da Úmbria, o divino Francisco de Assis—e já por toda a Itália se louvava a santidade de Frei Genebro, seu amigo e seu discípulo.

Frei Genebro, na verdade, completára a perfeição em todas as virtudes evangélicas. Pela abundância e perpètuidade da Oração, êle arrancava da sua alma as raízes mais miudas do Pecado, e tornava-a limpa e cândida como um dêsses celestes jardins em que o sólo anda regado pelo Senhor, e onde só podem brotar açucenas. A sua penitência, durante vinte anos de clâustro, fôra tam dura e alta que já não temia o Tentador; e agora, só com o sacudir a manga do hábito, rechaçava as tentações, as mais pavorosas ou as mais{136} deliciosas, como se fôssem apenas moscas importunas. Benéfica e universal à maneira de um orvalho de verão, a sua caridade não se derramava sómente sôbre as misérias do pobre, mas sôbre as melancolias do rico. Na sua humilíssima humildade não se considerava nem o igual dum verme. Os bravios barões, cujas negras tôrres esmagavam a Itália, acolhiam reverentemente e curvavam a cabeça a êste franciscano descalço e mal remendado que lhes ensinava a mansidão. Em Roma, em S. João de Latrão, o Papa Honório beijára as feridas de cadeias que lhe tinham ficado nos pulsos, do ano em que na Mourama, por amor dos escravos, padecera a escravidão. E como nessas idades os anjos ainda viajavam na terra, com as asas escondidas, arrimados a um bordão, muitas vezes, trilhando uma vélha estrada pagã ou atravessando uma selva, êle encontrava um moço de inefável formosura, que lhe sorria e murmurava:

—Bons dias, irmão Genebro!

Ora, um dia, indo êste admirável mendicante de Spoleto para Terni, e avistando no azul e no sol da manhã, sôbre uma colina coberta de carvalhos, as ruínas do castelo de Otofrid, pensou no seu amigo Egídio, antigo noviço como êle no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, que se retirára àquele ermo para se avizinhar mais de Deus, e ali habitava uma{137} cabana de colmo, junto das muralhas derrocadas, cantando e regando as alfaces do seu horto, porque a sua virtude era amena. E como mais de três anos tinham passado desde que visitára o bom Egídio, largou a estrada, passou em baixo, no vale, sôbre as alpondras, o riacho que fugia por entre os aloendros em flor, e começou a subir, lentamente, a colina frondosa. Depois da poeira e ardor do caminho de Spoleto, era doce a larga sombra dos castanheiros e a relva que lhe refrescava os pés doridos. A meia encosta, numa rocha onde se esguedelhavam silvados, sussurrava e luzia um fio de água. Estendido ao lado, nas ervas húmidas, dormia, ressonando consoladamente, um homem, que de-certo ali guardava porcos, porque vestia um grosso surrão de coiro e trazia, pendurada da cinta, uma buzina de porqueiro. O bom frade bebeu de leve, afugentou os moscardos que zumbiam sôbre a rude face adormecida e continuou a trepar a colina, com o seu alforge, o seu cajado, agradecendo ao Senhor aquela água, aquela sombra, aquela frescura, tantos bens inesperados. Em breve avistou, com efeito, o rebanho de porcos, espalhados sob as frondes, roncando e fossando as raízes, uns magros e agudos, de cerdas duras, outros redondos, com o focinho curto afogado em gordura, e os bacorinhos correndo em tôrno às têtas das mães, luzidios e côr de rosa.{138}