Frei Genebro pensou nos lôbos e lamentou o sono do pastor descuidado. No fim da mata começava a rocha, onde os restos do castelo lombardo se erguiam, revestidos de hera, conservando ainda alguma seteira esburacada sôbre o céu, ou, numa esquina de tôrre, uma goteira que, esticando o pescoço de dragão, espreitava por meio das silvas bravas.
A cabana do ermitão, telhada de colmo que lascas de pedra seguravam, apenas se percebia, entre aqueles escuros granitos, pela horta que em frente verdejava, com os seus talhões de couve e estacas de feijoal, entre alfazema cheirosa. Egídio não andaria afastado porque sôbre o murosinho de pedra solta ficára pousado o seu cântaro, o seu podão e a sua enxada. E docemente, para o não importunar, se àquela hora da sésta estivesse recolhido e orando, Frei Genebro empurrou a porta de pranchas vélhas, que não tinha loquete para ser mais hospitaleira.
—Irmão Egídio!
Do fundo da choça rude, que mais parecia cova de bicho, veio um lento gemido:
—Quem me chama? Aqui neste canto, neste canto a morrer!... A morrer, meu irmão!
Frei Genebro acudiu em grande dó; encontrou o bom ermitão estirado num monte de fôlhas sêcas, encolhido em farrapos, e tam definhado que a sua face, outrora farta e rosada,{139} era como um pedacinho de vélho pergaminho muito enrugado, perdido entre os flocos das barbas brancas. Com infinita caridade e doçura o abraçou.
—¿E há quanto tempo, há quanto tempo neste abandôno, irmão Egídio?
Louvado Deus, desde a véspera! Só na véspera, à tarde, depois de olhar uma derradeira vez para o sol e para a sua horta, se viera estender naquele canto para acabar... Mas havia meses que com êle entrára um cansaço, que nem podia segurar a bilha cheia quando voltava da fonte.
—¿E dizei, irmão Egídio, pois que o Senhor me trouxe, que posso eu fazer pelo vosso corpo? Pelo corpo, digo; que pela alma bastante tendes vós feito na virtude desta solidão!
Gemendo, arrepanhando para o peito as fôlhas sêcas em que jazia, como se fôssem dobras dum lençol, o pobre ermitão murmurou: