—Meu bom Frei Genebro, não sei se é pecado, mas toda esta noite, em verdade vos confesso, me apeteceu comer um pedaço de carne, um pedaço de porco assado!... Mas será pecado?

Frei Genebro, com a sua imensa misericórdia, logo o tranqùilizou. Pecado? Não, certamente! Aquele que, por tortura, recusa ao seu corpo um contentamento honesto, desagrada ao Senhor. ¿Não ordenava êle aos seus{140} discípulos que comessem as boas cousas da terra? O corpo é servo; e está na vontade divina que as suas fôrças sejam sustentadas, para que preste ao espírito, seu amo, bom e leal serviço. Quando Frei Silvestre, já tam doentinho, sentira aquele longo desejo de uvas moscateis, o bom Francisco de Assis logo o conduziu à vinha, e por suas mãos lhe apanhou os melhores cachos, depois de os abençoar para serem mais sumarentos e mais doces...

—¿É um pedaço de porco assado que apeteceis?—exclamava risonhamente o bom Frei Genebro, acariciando as mãos transparentes do ermitão.—Pois sossegai, irmão querido, que bem sei como vos vou contentar!

E imediatamente, com os olhos a reluzir de caridade e de amor, agarrou o afiado podão que pousava sôbre o muro da horta. Arregaçando as mangas do hábito, e mais ligeiro que um gamo, porque era aquele um serviço do Senhor, correu pela colina até aos densos castanheiros onde encontrára o rebanho de porcos. E aí, andando sorrateiramente de tronco para tronco, surpreendeu um bacorinho desgarrado que fossava a bolota, desabou sobre êle, e, emquanto lhe sufocava o focinho e os gritos, decepou, com dois golpes certeiro do podão, a perna por onde o agarrára. Depois, com as mãos salpicadas de sangue, a perna de porco bem alta a pingar sangue, deixando{141} a rês a arquejar numa pôça de sangue, o piedoso homem galgou a colina, correu à cabana, gritou para dentro alegremente:

—Irmão Egídio, a peça de carne já o Senhor a deu! E eu, em Santa Maria dos Anjos, era bom cozinheiro.

Na horta do ermitão arrancou uma estaca do feijoal, que, com o podão sangrento, aguçou em espêto. Entre duas pedras acendeu uma fogueira. Com zeloso carinho assou a perna do porco. Tanta era a sua caridade que para dar a Egídio todos os antegostos daquele banquete, raro em terra de mortificação, anunciava com vozes festivas e de boa promessa:

—Já vai aloirando o porquinho, irmão Egídio! A pele já tosta, meu santo!

Entrou emfim na choça, triunfalmente, com o assado que fumegava e rescendia, cercado de frescas fôlhas de alface. Ternamente, ajudou a sentar o vélho, que tremia e se babava de gula. Arredou das pobres faces maceradas os cabelos que o suor da fraqueza empastára. E, para que o bom Egídio se não vexasse com a sua voracidade e tam carnal apetite, ia afirmando, emquanto lhe partia as febras gordas, que tambêm êle comeria regaladamente daquele excelente porco, se não tivesse almoçado à farta na Locanda dos Três Caminhos.{142}

—Mas nem bocado agora me podia entrar, meu irmão! Com uma galinha inteira me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco, um quartilho!

E o santo homem mentia santamente—porque, desde madrugada, não provára mais que um magro caldo de ervas, recebido por esmola à cancela de uma granja.