Farto, consolado, Egídio deu um suspiro, recaíu no seu leito de fôlhas sêcas. Que bem lhe fizera, que bem lhe fizera! O Senhor, na sua justiça, pagasse a seu irmão Genebro aquele pedaço de porco! Até sentia a alma mais rija para a temerosa jornada... E o ermitão com as mãos postas, Genebro ajoelhado, ambos louvaram, ardentemente, o Senhor que, a toda a necessidade solitária, manda de longe o socorro.

Então, tendo coberto Egídio com um pedaço de manta e posto, a seu lado, a bilha cheia de água fresca, e tapado, contra as aragens da tarde, a fresta da cabana, Frei Genebro, debruçado sôbre êle, murmurou:

—Meu bom irmão, vós não podeis ficar neste abandono... Eu vou levado por obra de Jesus, que não admite tardança. Mas passarei no convento de Sambricena e darei recado para que um noviço venha e cuide de vós com amor, no vosso transe. Deus vos vele{143} entretanto, meu irmão; Deus vos sossegue e vos ampare com a sua mão direita!

Mas Egídio cerrára os olhos, nem se moveu, ou porque adormecera, ou porque o seu espírito, tendo pago aquele derradeiro salário ao corpo, como a um bom servidor, para sempre partira, finda a sua obra na terra. Frei Genebro abençoou o vélho, tomou o seu bordão, desceu a colina dos grandes carvalhos. Sob a fronde, para os lados onde andava o rebanho, a buzina do porqueiro ressoava agora num toque de alarma e de furor. De-certo acordára, descobrira o seu porco mutilado... Estugando o passo, Frei Genebro pensava quanto era magnânimo o Senhor em permitir que o homem, feito à sua imagem augusta, recebesse tam fácil consolação duma perna de cerdo assada entre duas pedras.

Retomou a estrada, marchou para Terni. E prodigiosa foi, desde êsse dia, a actividade da sua virtude. Através de toda a Itália, sem descanso, prègou o Evangelho Eterno, adoçando a aspereza dos ricos, alargando a esperança dos pobres. O seu imenso amor ia ainda para alêm dos que sofrem, até àqueles que pecam, oferecendo um alívio a cada dôr, estendendo um perdão a cada culpa: e com a mesma caridade com que tratava os leprosos, convertia os bandidos. Durante as invernias e a neve, vezes inumeráveis dava, aos{144} mendigos, a sua túnica, as suas alpercatas; os abades dos mosteiros ricos, as damas devotas de novo o vestiam, para evitar o escândalo da sua nudez através das cidades; e sem demora, na primeira esquina, ante qualquer esfarrapado, êle se despojava sorrindo. Para remir servos que penavam sob um amo fero, penetrava nas igrejas, arrancava do altar os candelabros de prata, afirmando, jovialmente, que mais praz a Deus uma alma liberta que uma tocha acesa.

Cercado de viuvas, de crianças famintas, invadia as padarias, os açougues, até as tendas dos cambistas, e reclamava imperiosamente, em nome de Deus, a parte dos deserdados. Sofrer, sentir a humilhação, eram, para êle, as únicas alegrias completas: nada o deliciava mais do que chegar de noite, molhado, esfaimado, tiritando, a uma opulenta abadia feudal, e ser repelido da portaria como um mau vagabundo: só então, agachado nos lôdos do caminho, mastigando um punhado de ervas cruas, êle se reconhecia verdadeiramente irmão de Jesus, que não tivera tambêm, como teem sequer os bichos do mato, um covil para se abrigar. Quando um dia, em Perusa, as confrarias saíram ao seu encontro, com bandeiras festivas, ao repique dos sinos, êle correu para um monte de estêrco, onde se rolou e se sujou, para que daqueles que{145} o vinham engrandecer, só recebesse compaixão e escárnio. Nos clâustros, nos descampados, em meio das multidões, durante as lides mais pesadas, orava constantemente, não por obrigação, mas porque na prece encontrava um deleite adorável. Deleite maior, porêm, era, para o franciscano, ensinar e servir. Assim, longos anos errou entre os homens, vertendo o seu coração como a água de um rio, oferecendo os seus braços como alavancas incansáveis; e tam depressa, numa ladeira deserta, aliviava uma pobre vélha da sua carga de lenha, como numa cidade revoltada, onde reluzissem armas, se adiantava, com o peito aberto, e amansava as discórdias.

Emfim, uma tarde, em véspera de Páscoa, estando a descansar nos degraus de Santa Maria dos Anjos, avistou de repente, no ar liso e branco, uma vasta mão luminosa que sôbre êle se abria e faiscava. Pensativo, murmurou:

—Eis a mão de Deus, a sua mão direita, que se estende para me acolher ou para me repelir.

Deu logo a um pobre, que ali rezava a Avé-Maria, com a sua sacola nos joelhos, tudo o que no mundo lhe restava, que era um volume do Evangelho, muito usado e manchado das suas lágrimas. No domingo, na igreja, ao levantar da Hóstia, desmaiou. Sentindo então{146} que ia terminar a sua jornada terrestre, quis que o levassem para um curral, o deitassem sôbre uma camada de cinzas.

Em santa obediência ao guardião do convento, consentiu que o limpassem dos seus trapos, lhe vestissem um hábito novo: mas, com os olhos alagados de ternura, implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado como fôra o de Jesus, seu senhor.