O prato, mais triste que a noite, parára—parára em pavoroso equilíbrio com o prato que rebrilhava. E os Serafins, Genebro, o Anjo que o trouxera, descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo, um porco, um pobre porquinho com uma perna bárbaramente cortada, arquejando, a morrer, numa pôça de sangue... O animal mutilado pesava tanto na balança da justiça como a montanha luminosa de virtudes perfeitas!

Então, das alturas, surgiu uma vasta mão, abrindo os dedos que faiscavam. Era a mão de Deus, a sua mão direita, que aparecera a Genebro na escada de Santa Maria dos Anjos, e que agora supremamente se estendia para o acolher ou para o repelir. Toda a luz e toda a sombra, desde o Paraíso fulgente ao Purgatório crepuscular, se contraíram num recolhimento de inexprimível amor e terror. E na{151} estática mudez, a vasta mão, através das alturas, lançou um gesto que repelia...

Então o Anjo, baixando a face compadecida, alargou os braços e deixou caír, na escuridão do Purgatório, a alma de Frei Genebro.{152} {153}

[ADÃO E EVA NO PARAÍSO]

[I]

Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às 2 horas da tarde...

Assim o afirma, com majestade, nos seus Annales Veteris et Novi Testamento, o muito douto e muito ilustre Usserius, Bispo de Meath, Arcebispo de Armagh, e Chanceler-Mór da Sé de S. Patrício.

A Terra existia desde que a Luz se fizera, a 23, na manhã de todas as manhãs. Mas já não era essa Terra primordial, parda e mole, ensopada em águas barrentas, abafada numa névoa densa, erguendo, aqui e alêm, rígidos troncos duma só fôlha e dum só rebento, muito solitária, muito silenciosa, com uma vida toda escondida, apenas surdamente revelada pelo remexer de bichos obscuros, gelatinosos,{154} sem côr e quási sem forma, crescendo no fundo dos lôdos. Não! agora, durante os dias genesíacos de 26 e 27, toda ela se completára, se abastecera e se enfeitára, para acolher condignamente o Predestinado que vinha. No dia 28 já apareceu perfeita, perfecta, com as provisões e alfaias que a Bíblia enumera, as ervas verdes de espiga madura, as árvores providas do fruto entre a flor, todos os peixes nadando nos mares resplandecentes, todas as aves voando pelos ares aclarados, todos os animais pastando sôbre as colinas viçosas, e os regatos regando, e o fogo armazenado no seio da pedra, e o cristal, e o ónix, e o oiro muito bom do país de Hevilath...

Nesses tempos, meus amigos, o Sol ainda girava em tôrno da Terra. Ela era môça e formosa e preferida de Deus. Êle ainda se não submetera à imobilidade augusta que lhe impôs mais tarde, entre amuados suspiros da Igreja, mestre Galileu, estendendo um dedo do fundo do seu pomar, rente aos muros do Convento de S. Mateus de Florença. E o sol, amorosamente, corria em volta da Terra, como o noivo dos Cantares, que, nos lascivos dias da ilusão, sôbre o outeiro de mirra, sem descanso e pulando mais levemente que os gamos de Gaalad, circundava a Bem-Amada, a cobria com o fulgor dos seus olhos, coroado de sal-gêma, a faiscar de fecunda{155} impaciência. Ora desde essa alvorada do dia 28, segundo o cálculo majestático de Usserius, o Sol, muito novo, sem sardas, sem rugas, sem falhas na sua cabeleira flamante, envolvera a terra, durante oito horas, numa contínua e insaciada carícia de calor e de luz. Quando a oitava hora scintilou e fugiu, uma emoção confusa, feita de medo e feita de glória, perpassou por toda a Criação, agitando num frémito as relvas e as frondes, arripiando o pêlo das feras, empolando o dorso dos montes, apressando o borbulhar das nascentes, arrancando dos pórfiros um brilho mais vivo... Então numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo Ser, desprendendo lentamente a garra do galho de árvore onde se empoleirára toda essa manhã de longos séculos, escorregou pelo tronco comido de hera, pousou as duas patas no sólo que o musgo afofava, sôbre as duas patas se firmou com esforçada energia, e ficou erecto, e alargou os braços livres, e lançou um passo forte, e sentiu a sua dissemelhança da Animalidade, e concebeu o deslumbrado pensamento do que era, e verdadeiramente foi! Deus, que o amparára, nesse instante o criou. E vivo, da vida superior, descido da inconsciência da árvore, Adão caminhou para o Paraíso.

Era medonho. Um pêlo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso, maciço corpo, rareando{156} apenas em tôrno dos cotovelos, dos joelhos rudes, onde o coiro aparecia curtido e da côr de cobre fosco. Do achatado, fugidio crânio, vincado de rugas, rompia uma guedelha rala e ruiva, tufando sôbre as orelhas agudas. Entre as rombas queixadas, na fenda enorme dos beiços trombudos, estirados em focinho, as prêsas reluziam, afiadas rijamente para rasgar a febra e esmigalhar o osso. E sob as arcadas sombriamente fundas, que um felpo hirsuto orlava como um silvado orla o arco duma caverna, os olhos redondos, dum amarelo de ámbar, sem cessar se moviam, tremiam, esgazeados de inquietação e de espanto... Não, não era belo, nosso Pai venerável, nessa tarde de Outono, quando Jeová o ajudou com carinho a descer da sua Árvore! E todavia, nesses olhos redondos, de fino ámbar, mesmo através do tremor e do espanto, rebrilhava uma superior beleza—a Energia Inteligente que o ia trôpegamente levando, sôbre as pernas arqueadas, para fóra da mata onde passára a sua manhã de longos séculos a pular e a guinchar por cima dos ramos altos.