Mas (se os Compêndios de Antropologia nos não iludem) os primeiros passos humanos de Adão não foram logo atirados, com alacridade e confiança, para o destino que o esperava entre os quatro rios do Éden. Entorpecido, envolvido pelas influências da Floresta,{157} ainda despega com custo a pata de entre o folhoso chão de fetos e begónias, e gostosamente se roça pelos pesados cachos de flores que lhe orvalham o pêlo, e acaricia as longas barbas de lichen branco, pendentes dos troncos de roble e de teca, onde gozára as doçuras da irresponsabilidade. Nas ramagens que tam generosamente, através tam longas idades, o nutriram e o embalaram, ainda colhe as bagas sumarentas, os rebentões mais tenros. Para transpor os regatos, que por todo o bosque reluzem e sussurram depois da sazão das chuvas, ainda se pendura duma rija liana, entrelaçada de orquídeas, e se balança, e arqueia o pulo, com pesada indolência. E receio bem que quando a aragem restolhasse pela espessura, carregada com o cheiro morno e acre das fêmeas acocoradas nos cimos, o Pai dos Homens ainda dilatasse as ventas chatas e soltasse do peito felpudo um grunhido rouco e triste.
Mas caminha... As suas pupilas amarelas, onde faisca o Querer, sondam, esbugalhadas, através da ramaria, procuram para alêm o mundo que deseja e receia, e a que sente já a zoada violenta, como toda feita de batalha e rancor. E, à maneira que a penumbra das folhagens clareia, vai surgindo, dentro do seu crânio bisonho, como uma alvorada que penetra numa toca, o sentimento das{158} Formas diferentes e da Vida diferente que as anima. Essa rudimentar compreensão só trouxe a nosso Pai venerável turbação e terror. Todas as Tradições, as mais orgulhosas, concordam em que Adão, na sua entrada inicial pelas planícies do Éden, tremeu e gritou como criancinha perdida em arraial turbulento. E bem podemos pensar que, de todas as Formas, nenhuma o apavorava mais que a dessas mesmas árvores onde vivera, agora que as reconhecia como seres tam dissemelhantes do seu Ser e imobilizadas numa inércia tam contrária à sua Energia. Liberto da Animalidade, em caminho para a sua Humanização, o arvoredo que lhe fôra abrigo natural e doce só lhe pareceria agora um cativeiro de degradante tristeza. ¿E êsses ramos tortuosos, empecendo a sua marcha, não seriam braços fortes que se estendiam para o empolgar, o repuxar, o reter nos cimos frondosos? ¿Êsse ramalhado sussurro que o seguia, composto do desassossêgo irritado de cada fôlha, não era a selva toda, num alvoroço, reclamando o seu secular morador? De tam estranho medo nasceu, talvez, a primeira luta do Homem com a Natureza. Quando um galho alongado o roçasse, de-certo nosso Pai atiraria contra êle as garras desesperadas para o repelir e lhe escapar. Nesses bruscos ímpetos quantas vezes se desequilibrou, e as suas mãos se abateram{159} desamparadamente sôbre o sólo de mato ou rocha, de novo precipitado na postura bestial, retrogradando à inconsciência, entre o clamor triunfal da Floresta! Que angustioso esfôrço então para se erguer, recuperar a atitude humana, e correr, com os felpudos braços despegados da terra bruta, livres para a obra imensa da sua Humanização! Esfôrço sublime, em que ruge, morde as raíses detestadas, e, ¿quem sabe? levanta já os olhos de ámbar lustroso para os céus, onde, confusamente, sente Alguêm que o vem amparando—e que na realidade o levanta.
Mas, de cada um dêstes tombos modificantes, nosso Pai ressurge mais humano, mais nosso Pai. E há já consciência, pressa da Racionalidade, nos ressoantes passos com que se arranca ao seu limbo arboral, despedaçando as enrediças, fendendo o bravio denso, despertando os tapires adormecidos sob cogumelos monstruosos, ou espantando algum urso môço e tresmalhado que, de patas contra um olmo, chupa, meio borracho, as uvas dêsse farto outono.
Emfim, Adão emerge da Floresta obscura:—e os seus olhos de ámbar vivamente se cerram sob o deslumbramento em que o envolve o Éden.{160}
Ao fundo dessa encosta, onde parara, resplandecem vastas campinas (se as Tradições não exageram) com desordenada e sombria abundância. Lentamente, através, um rio corre, semeado de ilhas, ensopando, em fecundos e espraiados remansos, as verduras onde já talvez cresce a lentilha e se alastra o arrozal. Rochas de mármore rosado rebrilham com um rubor quente. De entre bosques de algodoeiros, brancos como crespa espuma, sobem outeiros cobertos de magnólias, dum esplendor ainda mais branco. Alêm a neve coroa uma serra com um radiante nimbo de santidade, e escorre, por entre os flancos despedaçados, em finas franjas que refulgem. Outros montes dardejam mudas labaredas. Da borda de rígidas escarpas, pendem perdidamente, sôbre profundidades, palmeirais desgrenhados. Pelas lagôas a bruma arrasta a luminosa moleza das suas rendas. E o mar, nos confins do mundo, faiscando, tudo encerra, como um aro de oiro.—Neste fecundo espaço toda a Criação se espaneja, com a fôrça, a graça, a braveza vivaz duma mocidade de cinco dias, ainda quente das mãos do seu Criador. Profusos rebanhos de auroques, de pelagem ruiva, pastam, majestosamente, enterrados nas ervas tam altas que nelas desaparece a ovelha e o seu anho. Temerosos e barbudos urus, brigando contra gigantescos{161} veados-elefas, entrechocam cornos e galhos com o sêco fragor de robles que o vento racha. Um bando de girafas rodeia uma mimosa a que vai trincando, delicadamente, nos trémulos cimos, as folhinhas mais tenras. À sombra dos tamarindos, repousam disformes rinocerontes, sob o vôo apressado de pássaros que lhes catam serviçalmente a vermina. Cada arremêsso de tigre causa uma debandada furiosa de ancas, e chifres, e clinas, onde, mais certo e mais leve, se arqueia o pulo grácil dos antílopes. Uma rija palmeira verga toda ao pêso da jibóia que nela se enrosca. Entre duas penedias, por vezes, aparece, numa profusão de juba, a face magnífica de um leão que, serenamente, olha o sol, a imensidade radiante. No remoto azul, enormes condores dormem imóveis, de asas abertas, entre o sulco níveo e róseo das garças e dos flamingos. E em frente à encosta, num alto, entre o matagal, passa, lenta e montanhosa, uma récua de mastodontes, com a rude clina do dorso erriçada ao vento, e a tromba a bambolear entre os dentes mais recurvos que foices.
Assim vetustíssimas Crónicas contam o vetustíssimo Éden, que era nas campinas do Eufrates, talvez na trigueira Ceilão, ou entre os quatro claros rios que hoje regam a Húngria, ou mesmo nestas terras bemditas onde a nossa Lisboa aquece a sua velhice ao{162} soalheiro, cansada de proezas e mares. ¿Mas quem pode garantir êstes bosques e êstes bichos, pois que desde êsse dia 25 de Outubro, que inundava o Paraíso de esplendor outonal, já passaram, muito breves e muito cheios, sôbre o grão de pó que é o nosso mundo, mais de sete vezes setecentos mil anos? Só parece certo que, diante de Adão apavorado, um grande pássaro passou. Um pássaro cinzento, calvo e pensativo, com as penas esguedelhadas como as pétalas de um crisântemo, que saltitava pesadamente sôbre uma das patas, erguendo na outra, bem agarrado, um mólho de ervas e ramos. O nosso Pai venerável, com a fusca face franzida, no doloroso esfôrço de compreender, pasmava para aquele pássaro, que ao lado, sob o abrigo de azáleas em flor, terminava muito gravemente a construção duma cabana! Vistosa e sólida cabana, com o seu chão de greda bem alisado, galhos fortes de pinheiro e faia formando estacas e traves, um seguro teto de relva sêca, e na parede de enrediças bem liadas o desafôgo duma janela!... Mas o Pai dos Homens, nessa tarde, ainda não compreendeu.
Depois caminhou para o largo rio, desconfiadamente, sem se afastar da ourela do bosque abrigador. Lento, farejando o cheiro novo dos gordos herbívoros da planície, com os{163} punhos rijamente cerrados contra o peito peludo, Adão vai arfando entre o apetite daquela resplandecente Natureza e o terror dos seres nunca avistados que a atulham e atroam com tam fera turbulência. Mas dentro dêle borbulha, não cessa, a nascente sublime, a sublime nascente da Energia, que o impele a desentranhar da crassa bruteza, e a ensaiar, com esforços que são semi-penosos porque são já semi-lúcidos, os Dons que estabelecerão a sua supremacia sôbre essa Natureza incompreendida e o libertarão do seu terror. Assim, na surprêsa de todas aquelas inesperadas aparições do Éden, reses, pastagens, montes nevados, imensidades radiosas, Adão solta roucas exclamações, gritos com que desafoga, vozes gaguejadas, em que por instinto reproduz outras vozes, e brados, e toadas, e mesmo o reboliço das criaturas, e mesmo o estrondo das águas despenhadas... E êstes sons ficam já na escura memória de nosso Pai ligados às sensações que lhos arrancam:—de sorte que o guincho áspero que lhe escapara ao topar um cangurú com a sua ninhada embolsada no ventre, de novo lhe ressoará nos lábios trombudos quando outros cangurús, fugindo dêle, adiante, se embrenhem na sombra negra das caneleiras. A Bíblia, com a sua exageração oriental, cândida e simplista, conta que Adão, logo na sua entrada pelo Éden, distribuiu nomes a todos{164} os animais, e a todas as plantas, muito definitivamente, muito eruditamente, como se compuzesse o Lexicon da Criação, entre Buffon, já com os seus punhos, e Linneu, já com os seus óculos. Não! eram apenas grunhidos, roncos mais verdadeiramente augustos, porque todos êles se plantavam na sua consciência nascente como as tôscas raízes dessa Palavra pela qual verdadeiramente se humanou, e foi depois, sôbre a terra, tam sublime e tam burlesco.
E bem podemos pensar, com orgulho, que ao descer a borda do rio Edénico, nosso Pai, compenetrado do que era, e quanto diverso dos outros seres! já se afirmava, se individualizava, e batia no peito sonoro, e rugia soberbamente:—Eheu! Eheu! Depois, alongando os olhos reluzentes por aquela longa água que corria vagarosamente para alêm, já tenta exteriorizar o seu espantado sentimento dos espaços, e rosna com pensativa cubiça:—Lhlâ! Lhlâ!
[II]
Calmo, magníficamente fecundo, corria êle, o nobre rio do Paraíso, por entre as ilhas, quási afundadas sob o pêso rijo do rijo arvoredo todas{165} fragrantes, e atroadas pelo clamor das cacatuas. E Adão, trotando pesadamente pela margem baixa, já sente a atracção das águas disciplinadas que andam e vivem—essa atracção que será tam forte nos seus filhos, quando no rio descobrirem o bom servidor que desaltera, estruma, rega, mói e acarreta. Mas quantos terrores especiais ainda o arrepiam, o atiram com espavoridos pulos para o abrigo dos salgueiros e dos choupos! Noutras ilhas, de areia fina e rosada, preguiçam pedregosos crocodilos, achatados sôbre o ventre, que arfam molemente, escancarando as fundas goelas na tépida preguiça da tarde, embebendo todo o ar com um cheirinho de almíscar. Por entre os canaviais, coleam e refulgem gordas cobras de água, de colo alteado, que fitam Adão com furor, dardejando e silvando. E, para nosso Pai que nunca as avistara, certamente seriam pavorosas as tartarugas imensas dêsse comêço do Mundo, pastando, com arrastada mansidão, através dos prados novos. Mas uma curiosidade o atrai, quási resvala na riba lodosa, onde a franja de água roça e marulha. Na largueza do rio espraiado, uma longa e negra fila de auroques, serenamente, com os cornos altos e a espessa barba a flutuar, nada para a outra margem, campina coberta de louras messes onde talvez já amaduram as espigas sociáveis do centeio e do milho. Nosso Pai{166} venerável olha a fila lenta, olha o rio lustroso, concebe o ennevoado desejo de tambêm atravessar para aqueles longes em que as ervas rebrilham, e arrisca a mão na corrente—na rija corrente que lha repuxa, como para o atrair e iniciar. Êle grunhe, arranca a mão—e segue, com ásperas patadas, esmagando, sem mesmo lhes sentir o perfume, os frescos morangos silvestres que ensangùentam a relva... Em breve pára, considerando um bando de aves alcandoradas numa penedia toda riscada de guanos, que espreitam, com o bico atento, para baixo, onde as águas apertadas refervem. ¿Que espreitam elas, as brancas garças? Lindos peixes em cardume, que rompem contra a levada, e pulam, lampejando nas espumas claras. E bruscamente, num desabrido abanar de asas brancas, uma garça, depois outra, fende o céu alto, levando, atravessado no bico, um peixe que se estorce e reluz. Nosso Pai venerável coça a ilharga. A sua crassa gula, entre aquela abundância do rio, tambêm apetece uma prêsa: e atira a garra, colhe, no seu vôo soante, cascudos insectos que farisca e trinca. Mas nada certamente assombrou o Primeiro Homem como um grosso tronco de árvore meio apodrecido, que boiava, descia na corrente, levando sentados numa ponta, com segurança e graça, dois bichos sedosos, louros, de focinho esperto,{167} e fôfas caudas vaidosas. Para os seguir, os observar, ansiosamente correu, enorme e desengonçado. E os seus olhos faiscavam, como se já compreendesse a malícia daqueles dois bichos, embarcados num toro de árvore, e viajando, com a macia frescura da tarde, no rio do Paraíso.