No entanto, a água que êle costeava era mais baixa, turva e tarda. Já na sua largueza não verdejam ilhas, nem nela se molha a orla das fartas pastagens. Para alêm, sem limite, fundidas nas neblinas, fogem descampadas solidões, de onde rola um vento lento e húmido. Nosso Pai venerável enterrava as patas em ribas moles, através de aluviões, de lixos silvestres, em que chapinavam, para seu intenso horror, enormes rãs coaxando furiosamente. E o rio em breve se perdeu numa vasta lagôa, escura e desolada, resto das grandes águas sôbre que flutuara o Espírito de Jeová. Uma tristeza humana apertou o coração de nosso Pai. Do meio de grossas bôlhas, que se empolavam na estanhada lisura da água triste, constantemente surdiam horrendas trombas, a escorrer de limos verdes, que bufavam ruidosamente, logo se afundavam, como repuxadas pelos lôdos viscosos. E quando de entre os altos e negros canaviais, manchando a vermelhidão da tarde, se elevou, se alargou sobre êle uma nuvem estridente{168} de moscardos vorazes, Adão foge, estonteado, trilha saibros pegajosos, rasga o pêlo na aspereza dos cardos brancos que o vento estorce, resvala por uma encosta de cascalho e seixo, e pára em areia fina. Arqueja: as suas longas orelhas remexem, escutando, para alêm das dunas, um vasto rumor que rola e desaba e retumba... É o mar. Nosso Pai transpõe as pálidas dunas—e diante dêle está o Mar!
Então foi o pavor supremo. Com um pulo, batendo convulsamente os punhos no peito, recúa até onde três pinheiros, mortos e sem rama, lhe oferecem o refúgio hereditário. ¿Porque avançam assim para êle, sem cessar, numa inchada ameaça, aqueles rolos verdes, com a sua clina de espuma, e se atiram, se esmigalham, refervem, babujam rudemente a areia? Mas toda a outra vasta água permanece imóvel, como morta, com uma grande mancha de sangue que lateja. Todo êsse sangue caíu, de-certo, da ferida do sol, redonda e vermelha, sangrando em cima, num céu dilacerado por fundos golpes já rôxos. Para alêm da névoa leitosa que cobre as lagôas, dos charcos salgados, onde a marezia ainda chega e se espraia muito longe, um monte flameja e fumega. E sempre diante de Adão, contra Adão,{169} os verdes rolos da verde vaga avançam, e ribombam, e alastram a praia de algas, de conchas, de gelatinas que alvejam lívidamente.
Mas eis que todo o mar se povôa! E, encolhido contra o pinheiro, nosso Pai venerável dardeja os olhos inquietos e trémulos, para aqui, para alêm—para os rochedos cobertos de sargaço onde gordíssimas focas rebolam majestosamente; para os repuxos de água, que ao largo esguicham até às nuvens rôxas e recáem numa chuva radiante; para uma linda armada de búzios, imensos búzios alvos e nacarados, vogando à bolina, circundando as penedias, com manobra elegante... Adão pasma sem saber que estas são as Amonites, e que nenhum outro homem, depois dêle, verá a luzida e rósea armada singrando nos mares dêste mundo. Ainda êle a admira, talvez com a impressão inicial da beleza das cousas, quando bruscamente, num tremor de sulcos brancos, toda a maravilhosa frota sossobra! Com o mesmo salto mole, as focas tombam, trambulham na vaga funda. E um terror passa, um terror levantado do mar, tam intenso que um bando de albatrozes, muito seguro sôbre uma escarpa, bate, com azoados gritos, o vôo espavorido.
Nosso Pai venerável aferra a mão a um galho de pinheiro, sondando, num arrepio, a imensidão deserta. Então, ao longe, sob o{170} clarão enfiado do sol que se esconde, um dorso imenso sai, lentamente, das águas, como uma comprida colina, toda espetada de negras, agudas lascas de rocha. E avança! Adiante um tumulto de bôlhas redemoinha e rebenta; e de entre elas emerge, por fim, resfolegando cavamente, uma tromba disforme, de fauces entreabertas, onde lampejam e se somem cardumes de peixes que os seus sorvos vem tragando...
É um monstro, um pavoroso monstro marinho! E bem podemos supor que nosso Pai, esquecendo toda a sua dignidade humana (ainda recente), trepou desesperadamente ao pinheiro até onde os galhos findavam. Mas mesmo nesse abrigo, os seus poderosos queixos batiam, num medo convulso, ante o horrífico ser surgido das profundidades. Com um baque raspante, esmigalhando conchas, seixos e galhos de coral, o monstro esbarra na areia, que fundamente escava e sôbre que retesa as duas patas, mais grossas que troncos de teca, com as unhas todas enrodilhadas de silvas marinhas. Da caverna das suas fauces, através dos dentes terríficos, que os limos e musgos esverdeiam, sopra um bafo espesso de fadiga ou de furor, tam forte que faz rodopiar as algas sêcas e os búzios ligeiros. Entre as crostas pedregosas, que lhe couraçam a fronte, negrejam dois cornos curtos e rombos. Os seus olhos, lívidos e{171} vítreos, são como duas enormes luas mortas. A imensa cauda dentada arrasta pelo mar distante, e a cada rabeio lento levanta uma tempestade.
Por estas feições, pouco amáveis, já reconhecesteis o Ictiosaurio, o mais horrendo dos cetáceos concebidos por Jeová. Era êle!—talvez o derradeiro, que durara nas trevas oceânicas até êste dia memorável de 28 de Outubro, para que nosso Pai entrevisse as origens da Vida. E agora está em frente de Adão, ligando os tempos vélhos aos tempos novos—e, com as escamas do dorso assanhadas, muge devastadoramente. Nosso Pai venerável, enroscado ao tronco alto, guincha de vivo horror... E eis que, do lado dos charcos ennevoados, um silvo fende os céus, uivado e arremetido, como o de um áspero vento numa garganta de serrania. O quê! Outro monstro?... Sim, o Plesiosaurio. É tambêm o derradeiro Plesiosaurio que corre do fundo dos pântanos. E agora de novo se trava, para assombro do primeiro Homem (e gôsto dos Paleontologistas) o combate que foi a desolação dos pre-humanos dias da Terra. Lá aparece a fabulosa cabeça do Plésio, terminada em bico de ave, bico de duas braças, mais agudo que o dardo mais agudo, erguida sôbre um longuíssimo e esguio pescoço que ondula, arqueia, esfusia, dardeja com pavorosa elegância! Duas barbatanas de incomparável{172} rijeza veem movendo o seu disforme corpo, mole, glutinoso, todo em rugas, manchado por uma lepra de fungos esverdinhados. E tam imenso é assim rojando, com o pescoço empinado, que, diante da duna onde se levantam os pinheiros que acoitam Adão, êle parece uma outra duna negra sustentando um pinheiro solitário. Furiosamente avança.—E de repente é um horroroso tumulto de mugidos, e sibilos, e choques ribombantes, e areias torvelinhando, e grossos mares espadanando. Nosso Pai venerável salta dum pinheiro para outro pinheiro, tremendo tanto que, com êle, tremem os rijos troncos. E quando se arrisca a espreitar, ao recrescer dos bramidos, só percebe, na enrolada massa dos dois monstros, através de uma névoa de espuma que os esguichos de sangue avermelham, o bico do Plésio todo enterrado no ventre mole do Ictio, cuja cauda, erguida, se estorce furiosamente na palidez dos céus espantados. De novo esconde perdidamente a face, nosso Pai venerável! Um urro de monstruosa agonia rola na praia. As pálidas dunas estremecem, as cavernas soturnas ressoam. Depois é uma paz muito larga, em que o ruido do mar Oceano não é mais que um consolado murmúrio de alívio. Adão espia, debruçado entre os galhos... O Plésio recuara ferido para a tépida lama dos seus pântanos. E sôbre a{173} praia jaz o Ictio morto, como uma colina onde a vaga da tarde mansamente se quebra.
Então, nosso Pai venerável cautelosamente escorrega do seu pinheiro, e se abeira do monstro. A areia, em redor, está medonhamente revôlta;—e por toda ela, em lentos regos, em pôças escuras, o sangue, mal chupado, fumega. Tam montanhoso é o Ictio, que Adão, erguendo a face assombrada, nem avista as puas do monstro, erriçadas ao longo daquele alcantilado espinhaço, a que o bico do Plésio arrancou escamas mais pesadas que lages. Mas, diante das mãos trementes do Homem, estão os rasgões do ventre mole, de onde o sangue pinga, e gorduras babam, e imensas tripas esfiadas escorrem, e pendem febras atassalhadas de carne rosada... E as chatas ventas de nosso Pai venerável estranhamente se alargam e farejam.
Toda essa tarde êle caminhara, desde a Floresta, através do Paraíso, chupando bagas, rilhando raízes, trincando os insectos de casca picante. Mas agora o sol penetrou no mar—e Adão tem fome, nesse areal maninho, onde só alvejam cardos que o vento estorce. Oh! aquela carne rija, sangrenta, ainda viva, que exala um cheiro tam fresco e salino! As suas rombas mandíbulas ruidosamente se escancaram num bocejo enfastiado e famélico... O Oceano arfa, como adormecido... Então, irresistívelmente, Adão mergulha numa das feridas do sáurio os{174} dedos que lambe e rechupa, moles de sangue e gorduras. O espanto dum sabor novo imobiliza o homem frugal que vem das ervas e das frutas. Depois, com um salto, arremete contra a montanha de abundância, e arranca uma fêbra que trinca e traga, a grunhir, num furor, numa pressa, em que há o gôzo e há o medo da primeira carne comida.
Tendo ceado assim postas cruas dum monstro marinho, nosso Pai venerável sente uma grande sêde. São salgadas as pôças que na areia rebrilham. Pesado e triste, com os beiços empastados de banha e de sangue, Adão, sob o calado crepúsculo, atravessa as dunas, repenetra nas terras, rebuscando sôfregamente água doce. Por toda a relva, nesses tempos de universal humidade, fugia e chalrava um regato. Em breve, estendido numa riba lodosa, Adão bebeu consoladamente, em fundos sorvos, sob o vôo espantado de moscas fosforescentes que se lhe prendiam na guedelha.
Era junto dum bosque de carvalhos e faias. A noite, que já se adensara, ennegrecia um chão todo de plantas, onde a malva se encostava à hortelã, e a salsa ao funcho ligeiro. Nessa clareira fresca, penetrou nosso Pai venerável, estafado com a marcha e os espantos daquela tarde do Paraíso. E apenas se estendera{175} na alfombra cheirosa, com a hirsuta face pousada sôbre as palmas unidas, os joelhos colhidos contra o ventre distendido como um tambor, mergulhou num sono como êle nunca dormira—todo povoado de sombras moventes, que eram aves construindo uma casa, patas de insectos tecendo uma teia, dois bichos vogando nas águas rolantes.