Ora conta a Lenda que então, em tôrno do Primeiro Homem adormecido, começaram a surdir, por entre o mato baixo, focinhos fariscantes, finas orelhas espetadas, olhinhos reluzindo como botões de azeviche, e espinhaços inquietos que a emoção arqueava—emquanto que, dos cimos dos carvalhos e faias, num abafado frémito de asas, se debruçavam bicos recurvos, bicos retesos, bicos bravios, bicos pensativos, todos alvejando na claridade delgada da lua, que subia por trás dos montes, e banhava as frondes altas. Depois, à orla da clareira, uma hiena apareceu, coxeando, miando com lástima. Através da campina trotaram dois lobos, esgalgados, famélicos, com os verdes olhos acesos. Os leões não tardaram, com as riais faces erguidas, soberanamente enrugadas, numa profusão de jubas flamantes. Em confusa manada, que chegava bufando, os cornos dos auroques entrechocavam com impaciência os galhos palmares das renas. Todos os pêlos se{176} arrepiaram quando o tigre e a pantera negra, ondulando calada e aveludadamente, resvalaram, com as línguas pendentes e vermelhas como coalhos de sangue. Dos vales, das serranias, das fragas, outros acudiam, numa pressa tam anciosa, que os horrendos cavalos primitivos se empinavam por sôbre os cangurus, e a tromba do hipopótamo, a escorrer de limos, empurrava as ancas lentas do dromedário. Entre as patas e os cascos apinhados coleavam em aliança o furão, a sardonisca, a doninha, a cobra fulgente que engole a doninha, e o alegre manguço que assassina a cobra. Um bando de gazelas tropeçava, magoando as pernas finas, contra a crosta dos crocodilos, que subiam em fila da borda das lagôas, de goelas preparadas e a gemer. Já toda a planície arfava, sob a lua, no mole remexer de dorsos apertados, de onde se erguia, ora o pescoço da girafa, ora o corpo da jibóia, como mastros naufragados, balançados entre vagas. E por fim, abalando o sólo, enchendo o céu, com a tromba enrolada entre os dentes recurvos, assomou o rugoso mastodonte.
Era toda a Animalidade do Paraíso, que, sabendo o Primeiro Homem adormecido, sem defesa, num ermo bosque, corria, na imensa esperança de o destruir e eliminar da terra a Fôrça Inteligente, destinada a submeter a{177} Fôrça Bruta. Mas, naquela pavorosa turba que fumegava, se atropelava à borda da clareira, onde Adão dormia sôbre a hortelã e a malva, nenhuma fera avançava. Os longos dentes reluziam, feramente arreganhados; todos os cornos repontavam; cada garra saída dilacerava com ânsia a terra mole; e os bicos, de cima das ramas, terçavam os fios da lua com bicadas famintas.... Mas nem ave descia, nem fera avançava,—porque ao lado de Adão velava uma Figura séria e branca, de asas brancas fechadas, os cabelos presos num aro de estrêlas, o peito guardado numa couraça de diamante, e as duas refulgentes mãos apoiadas ao punho duma espada que era de lume—e vivia.
A aurora despontou, com ardente pompa, comunicando à terra alegre, à terra braviamente alegre, à terra ainda sem andrajos, à terra ainda sem sepulturas, uma alegria superior, mais grave, religiosa e nupcial. Adão acordou: e, batendo as fuscas pálpebras, na surprêsa do seu acordar humano, sentiu sôbre a ilharga um pêso que era macio e que era doce. Nesse terror que, desde as árvores, não desamparava o seu coração, pulou e com tam ruidoso pulo, que, pela selva, os melros, os rouxinóis, as toutinegras, todos os passarinhos{178} de festa e de amor, despertaram e romperam num canto de congratulações e de esperanças.—E, oh maravilha! diante de Adão, e como despegado dêle, estava outro Ser a êle semelhante, mas mais esbelto, suavemente coberto dum pêlo mais sedoso, que o contemplava com largos olhos lustrosos e líquidos. Uma côma ruiva, dum ruivo tostado, rolava, em espessas ondas, até às suas ancas arredondadas numa plenitude harmoniosa e fecunda. De entre os braços peludinhos, que cruzara, surdiam, abundantes e gordos, os dois peitos da côr do medronho, com uma penugem crespa orlando o bico, que se enristava, entumecido. E roçando, num roçar lento, num roçar muito doce, os joelhos pelados, todo aquele sedoso e tenro Ser se ofertava com uma submissão pasmada e lasciva. Era Eva... Eras tu, Mãe Venerável!
[III]
Então começaram, para nossos Pais, os dias abomináveis do Paraíso.
O seu constante e desesperado esfôrço foi sobreviver—no meio duma Natureza que, sem cessar e furiosamente, tramava a sua destruição.{179} E Adão e Eva passaram êsses tempos, que os poemas Semíticos celebram como Inefáveis—sempre a tremer, sempre a ganir, sempre a fugir! A terra ainda não era uma obra perfeita: e a Divina Energia, que a andava compondo, incessantemente a emendava, numa tam móbil inspiração, que em sítio coberto ao alvorecer por uma floresta, à noite se espelhava uma lagôa onde a Lua, já doente, vinha estudar a sua palidez. Quantas vezes nossos Pais, repousando no pendor de um outeiro inocente, entre o serpol e o rosmaninho (Adão com a face deitada sôbre a côxa de Eva, Eva com dedos ágeis catando o pêlo de Adão) foram sacudidos pela encosta amena como por um dorso irritado, e rolaram, embrulhados, entre o ribombo, e a labareda, e a fumarada, e a cinza quente do vulcão que Jeová improvisara! Quantas noites escaparam, uivando, dalguma abrigada caverna, quando já sôbre ela corria um grande mar inchado que bramava, se desenrolava, ficava fervendo entre as rochas, com negras focas mortas a boiar. Ou então era o chão, o chão seguro, já social e fertilizado para as searas sociáveis, que de repente rugia como uma fera, escancarava uma insondável goela, e tragava rebanhos, prados, nascentes, benéficos cedros com todas as rôlas que na sua rama arrulhavam.
Depois eram as chuvas, as longas chuvas{180} Edénicas, desabando em jorros clamorosos, durante alagados dias, durante torrentosas noites, tam desabaladamente que do Paraíso, vasto charco barrento, apenas apareciam as pontas do arvoredo afogado, e os cimos dos montes atulhados de bichos transidos que bramiam no terror das águas soltas. E nossos Pais, refugiados nalguma erguida fraga, gemiam lamentavelmente, com regatos a escorrer dos ombros, com ribeiras a escorrer dos pés, como se o barro novo de que Jeová os fizera se andasse já desfazendo.
E mais terríficas eram as estiagens. Oh! o incomparável tormento das sêcas no Paraíso! Lentos dias tristes, após lentos dias tristes, a imensa brasa do sol candente coriscava furiosamente num céu côr de cobre, em que o ar baço e grosso crepitava e arfava. Os montes estalavam, gretados: e as planícies desapareciam sob uma denegrida camada de fios retorcidos, ennovelados, rijos como arames, que eram os restos das verdes pastagens. Toda a tisnada folhagem rolava nos ventos abrasados, com rugidora restolhada. O leito dos rios chupados tinha a rigidez de ferro fundido. O musgo escorregava das rochas, como uma pele sêca que se despega descobrindo largos ossos. Cada noite um bosque ardia, fogueira estralejante, de lenha ressequida, escaldando mais a abóbada do forno inclemente.{181} Todo o Éden andava coberto das revoadas de abutres e corvos, porque, com tanto animal morto de fome e de sêde, abundava a carne pôdre. No rio, a água que restava mal corria, empoçada pela massa fervilhante de cobras, rãs, lontras, tartarugas, refugiadas naquele derradeiro veio, lodoso e todo morno. E nossos Pais veneráveis, com as magras costelas a arquejar contra o pêlo crestado, a língua pendida e mais dura que cortiça, erravam de fonte em fonte, a sorver desesperadamente alguma gota que ainda brotasse, gota rara, que assobiava, ao caír, sobre as lages esbraseadas...
E assim Adão e Eva, fugindo do Fogo, fugindo da Água, fugindo da Terra, fugindo do Ar, encetavam a vida no Jardim de Delícias.
E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necessário comer! Ah! Comer—que portentosa emprêsa para nossos Pais veneráveis! Sobretudo desde que Adão (e depois Eva, por Adão iniciada) tendo provado os deleites fatais da carne, já não encontravam sabor, nem fartura, nem decência, nos frutos, nas raízes, e nos bagos do tempo da sua Animalidade. Certamente, as boas carnes não faltavam no Paraíso. Delicioso seria o salmão primitivo—mas nadava alegremente nas águas rápidas. Saborosa seria a galinhola, ou o faisão rutilante, nutridos com os grãos que{182} o Criador considerara bons—mas voavam nos céus, em triunfal segurança. O coelho, a lebre—que fugas ligeiras no mato cheiroso!... E nosso Pai, nesses dias cândidos, não possuia o anzol nem a seta. Por isso, sem cessar rondava em tôrno das lagôas, nas ribas do mar, onde casualmente encalhava, boiando, algum cetáceo morto. Mas êsses achados de abundância eram raros—e o triste casal humano, nas suas marchas famintas pela borda das águas, só conquistava, aqui e alêm, na rocha ou na areia revôlta, algum feio caranguejo em cuja dura casca os seus beiços se esgaçavam. Essas solidões marinhas andavam tambêm infestadas por bandos de feras esperando, como Adão, que a vaga rolasse os peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes, nossos Pais, já com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam desconsoladamente, sentindo o passo fôfo do horrendo speleo, ou o bafo dos ursos brancos, bamboleando pelo branco areal, sob a branca indiferença da lua!