De-certo, a sua sciência hereditária de trepar às arvores socorria nossos Pais nesta conquista da prêsa. Que, sob as ramarias da caneleira de onde êles, assolapadamente, espreitavam, aparecesse algum cabrito desgarrado, ou uma tartaruga môça e bisonha se arrastasse para a erva miuda—e eis o repasto{183} seguro! Num relance, o cabrito ficava atassalhado, todo o seu sangue chupado em sorvos convulsos: e Eva, nossa Mãe forte, guinchando sombriamente, arrancava, uma a uma, de entre a casca, as patas da tartaruga... Mas quantas noites, depois de jejuns angustiosos, se achavam os Eleitos da Terra forçados a afugentar a hiena, com rijos brados, através das clareiras, para lhe roubar um osso fetidamente babujado, que era já o sobejo de um leão farto! E dias piores sucediam, em que a fome reduzia nossos Pais a retrogradar à desgostosa frugalidade do tempo da Árvore, às ervas, aos rebentos, às raízes amargas—conhecendo assim, entre a abundância do Paraíso, a primeira forma da Miséria!

E, através dêstes trabalhos, não os desamparava o terror das feras! Porque, se Adão e Eva comiam os bichos fracos e fáceis, eram tambêm uma prêsa apetecida por todos os brutos superiores. Comer Eva, tam redonda e carnuda, foi de-certo o sonho de muito tigre nos juncais do Paraíso. Quanto urso, mesmo ocupado a roubar favos de mel num escavado tronco de roble, não se deteve, e se balançou, e lambeu o focinho numa gula mais fina, ao avistar, através da ramaria, num rebrilho errante de sol, o sombrio corpanzão de nosso Pai venerável! E nem só o perigo vinha das hordas esfaimadas dos carnívoros, mas ainda{184} dos lentos e fartos herbívoros, o auroque, o urus, o cervo elefas, que alegremente escorneariam e espesinhariam nossos Pais, por estupidez, dissemelhança de raça e cheiro, emprêgo da vida ociosa. E acresciam ainda os que matavam para não serem mortos—porque Medo, Fome e Furor, foram as leis da vida no Paraíso.

Certamente nossos Pais eram tambêm ferozes, de tremenda fôrça, e perfeitos na arte salvadora de trepar aos cimos frondosos. Mas o leopardo pulava de ramo em ramo, sem rumor, com uma destreza mais felina e segura! A jibóia furava com a cabeça até aos galhos extremos do mais levantado cedro para colher os macacos—e bem poderia abocar Adão, com aquela obtusa incapacidade que sempre as jibóias tiveram de distinguir, sob a similitude das formas, a diversidade dos méritos. ¿E que valiam as garras de Adão, mesmo aliadas às garras de Eva, contra êsses pavorosos leões do Jardim de Delícias que a Zoologia, ainda hoje arrepiada, chama o Leo Anticus? ¿Ou contra a hiena-spelea tam ousada, que, nos primeiros dias do Génesis, os Anjos, quando desciam ao Paraíso, caminhavam sempre com as asas arregaçadas, para que ela, saltando de entre dos bambus, lhes não arrancasse as penas refulgentes? ¿Ou contra os cães, os horrendos cães do Paraíso, que atacando em{185} cerradas e ululantes hostes, foram, nesses começos do Homem, os piores inimigos do Homem?

E entre toda esta bicharia adversa, Adão não contava um aliado. Os seus próprios parentes, os Antropóides, invejosos e farçantes, o apedrejavam com enormes côcos. Só um animal, e formidável, conservava pelo Homem uma majestosa e pachorrenta simpatia. Era o Mastodonte. Mas a ennevoada Inteligência de nosso Pai ainda, nesses dias Edénicos, não compreendia a bondade, a justiça, o serviçal coração do paquiderme admirável. Por isso, certo da sua fraqueza e do seu isolamento, êle viveu, durante êsses trágicos anos, num ansiado terror. Tam ansiado e longo, que o seu arrepio, como uma longa ondulação, se perpètuou por toda a sua descendência—e é o vélho medo de Adão que nos torna inquietos, quando atravessamos a mata mais segura na solidão crepuscular.

E depois consideremos que ainda restavam pelo Paraíso, entre bichos de formas racionais, polidas, já preparadas para a prosa nobre de Mr. de Buffon, alguns dos grotescos monstros que desonraram a Criação antes da madrugada purificadora de 25 de Outubro. De-certo Jeová poupou a Adão o degradante horror de viver no Paraíso em companhia dessa escandalosa avantesma a que os Paleontologistas,{186} assombrados, deram o nome de Iguanodão! Na véspera do advento do Homem, Jeová, muito caridosamente, afogou todos os Iguanodões nos lôdos de um pântano, a um canto escondido do Paraíso, onde hoje se estende a Flandres. Mas Adão e Eva ainda conheceram os Pterodactilos. Oh! estes Pterodactilos!... Corpos de Jacaré, escamosos e penugentos; duas lúgubres, negras, carnudas asas, de morcego: um bico disparatado, mais grosso que o corpo, tristonhamente caído, erriçado de centenas de dentes, finos como os duma serra. E não voava! Descia, de asas moles, e mudas, e nelas abafava a prêsa como num pano viscoso e gelado, para a retalhar toda com os estalados golpes das mandíbulas fétidas. E êste funambulesco avejão enturvava o céu do Paraíso com a mesma abundância com que os melros ou as andorinhas cruzam os santos ares de Portugal. Os dias de nossos Pais veneráveis foram por êles torturados;—e nunca o seu pobre coração tremia tanto como quando, de alêm dos montes, se vinha despenhado, com sinistro estridor de asas e bicos, a revoada dos Pterodactilos.

¿Como sobreviveram nossos Pais, neste Jardim de Delícias? De-certo muito faiscou e trabalhou a espada do Anjo que os guardava!{187}

Pois bem, meus amigos! A todos êstes furiosos seres deve o homem a sua carreira triunfal. Sem os Sáurios, e os Pterodactilos, e a Hiena Spelea, e o arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o seu ataque, sempre bestial, uma defesa sempre racional—a Terra permaneceria um temeroso Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e nus, chupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros naufragados. Ao encolhido medo de Adão se deve a supremacia da sua descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a subir aos cimos da Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os poetas Mesopotâmicos do Génesis, nesses versículos subtis em que um animal, e o mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto do Saber! Se não rugisse outrora o Leão das cavernas, não trabalhava hoje o Homem das cidades—pois que a Civilização nasceu do desesperado esfôrço defensivo contra o Inanimado e o Inconsciente. A Sociedade é realmente a obra da féra. Que a Hiena e o Tigre, no Paraíso, começassem por acariciar lânguidamente o ombro peludo de Adão com pata amiga—Adão ficaria irmão do Tigre e da Hiena, partilhando as suas tocas, as suas prêsas, os seus ócios,{188} os seus gostos bravios. E a Energia Inteligente, que o descera da Árvore, em breve se apagaria dentro da sua bruteza inerte, como se apaga a faisca, mesmo entre galhos secos, se um frio sôpro, vindo de um buraco escuro, não a estimula a viver, para vencer a friagem e vencer a escuridão.

Mas uma tarde (como ensinaria o exacto Usserius) saíndo Adão e Eva da espessura dum bosque, um urso enorme, o Pai dos Ursos, apareceu diante dêles, ergueu as negras patas, escancarou a goela sangrenta... Então, assim colhido, sem refúgio, na apertada ânsia de defender a sua fêmea, o Pai dos Homens arremessou contra o Pai dos Ursos o cajado a que se arrimava, um forte galho de téca, arrancado na mata, que findava em lasca aguda... E o pau atravessou o coração da féra.

Ah! Desde essa tarde bemdita houve verdadeiramente, sôbre a terra, um Homem.

Era já um Homem, e superior, quando lançou um passo espantado, e arrancou o pau do seio do monstro estendido, e lhe mirou a ponta gotejante de sangue—com a testa toda franzida, no afã de compreender. Os seus olhos resplandeceram, num deslumbrado triunfo. Adão compreendera...{189}