E por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados—é que mais o suspeitava dentro do coração de D. Leonor.
Emfim, uma noite, depois de muito trilhar o lagedo da galeria, remoendo surdamente desconfianças e ódios, gritou pelo intendente e ordenou que se preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com a senhora D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas léguas de Segóvia! A partida não{226} foi de madrugada, como uma fuga de avarento que vai esconder longe o seu tesoiro:—mas, realizada com aparato e demora, ficando a liteira diante da arcada, a esperar longas horas, de cortinas abertas, emquanto um cavalariço passeava pelo adro a mula branca do fidalgo, enxairelada à mourisca, e do lado do jardim a récua de machos, carregados de baús, presos às argolas, sob o sol e a mosca, aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a jornada do senhor de Lara:—e assim a soube toda a cidade.
Fôra um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos seus viçosos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem grades, as janelas dos seus aposentos claros: aí ao menos tinha largo ar, pleno sol, e alegretes a regar, um viveiro de pássaros, e tam compridas ruas de loureiro ou teixo, que eram quási a liberdade. E depois esperava que no campo se aligeirassem aqueles cuidados que traziam, nos derradeiros tempos, tam enrugado e taciturno seu marido e senhor. Mas não logrou esta esperança, porque ao cabo de uma semana ainda se não desanuviara a face de D. Alonso—nem de-certo havia frescura de arvoredos, sussurros de águas correntes, ou aromas esparsos nos rosais em flor, que calmassem agitação tam amarga e funda. Como em Segóvia, na galeria{227} sonora de grande abobada, sem descanso passeava, enterrado na sua samarra, com o bico da barba espetado para diante, a grenha basta erriçada para trás, um geito de arreganhar silenciosamente o beiço, como se meditasse maldades a que gozava de antemão o sabor acre. E todo o interêsse da sua vida se concentrara num serviçal, que constantemente galopava entre Segóvia e Cabril, e que êle por vezes esperava no comêço da aldeia, junto ao Cruzeiro, ficando a escutar o homem que desmontava, ofegante, e logo lhe dava novas apressadas.
Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o terço com as aias, à luz duma tocha de cera, o senhor de Lara entrou muito vagarosamente, trazendo na mão uma fôlha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu tinteiro de osso. Com um rude acêno despediu as aias, que o temiam como a um lôbo. E, empurrando um escabelo para junto da mesa, volvendo para D. Leonor a face a que impusera tranqùilidade e agrado, como se apenas viesse por cousas naturais e fáceis:
—Senhora—disse—quero que me escrevais aqui uma carta que muito convêm escrever...
Tam costumada era nela a submissão, que, sem outro reparo ou curiosidade, indo apenas{228} pendurar na barra do leito o rosário em que rezara, se acomodou sôbre o escabelo, e os seus dedos finos, com muita aplicação, para que a letra fôsse esmerada e clara, traçaram a primeira linha curta que o Senhor de Lara ditara e era: Meu cavaleiro...» Mas quando êle ditou a outra, mais longa, e dum modo amargo, D. Leonor arrojou a pena como se a pena a escaldasse, e, recuando da mesa, gritou, numa aflição:
—¿Senhor, para que convêm que eu escreva tais cousas e tam falsas?...
Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe agitou junto à face, rugindo surdamente:
—Ou escreveis o que vos mando e que a mim me convêm, ou por Deus, que vos varo o coração!...
Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada ante aquele ferro que luzia, num terror supremo e que tudo aceitava, D. Leonor murmurou: