—Pela Virgem Maria, não me façais mal!... Nem vos agasteis, senhor, que eu vivo para vos obedecer e servir... Agora, mandai, que eu escreverei.
Então, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal, esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava, o senhor de Lara ditou,{229} atirou roucamente, aos pedaços, aos repelões, uma carta que dizia, quando finda e traçada em letra bem incerta e trémula:—«Meu cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou muito mal pagais o amor que vos tenho, e que não vos pude nunca, em Segóvia, mostrar claramente... Agora aqui estou em Cabril, ardendo por vos ver; e se o vosso desejo corresponde ao meu, bem fàcilmente o podeis realizar, pois que meu marido se acha ausente noutra herdade, e esta de Cabril é toda fácil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela porta do jardim, do lado da azinhaga, passando o tanque, até ao terraço. Aí avistareis uma escada encostada a uma janela da casa, que é a janela do meu quarto, onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente vos espera...»
—Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo convêm!
D. Leonor traçou vagarosamente o seu nome, tam vermelha como se a despissem diante de uma multidão.
—E agora—ordenou o marido mais surdamente, através dos dentes cerrados—endereçai a D. Rui de Cardenas!
Ela ousou erguer os olhos, na surprêsa daquele nome desconhecido.
—Andai!... A D. Rui de Cardenas!—gritou o homem sombrio.{230}
E ela endereçou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas.
D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e saíu em silêncio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas lages do corredor
Ela ficara sôbre o escabelo, as mãos cansadas e caídas no regaço, num infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e levada! ¿Quem era êsse D. Rui de Cardenas, de quem nunca ouvira falar, que nunca atravessara a sua vida, tam quieta, tam pouco povoada de memórias e de homens? E êle de-certo a conhecia, a encontrara, a seguira, ao menos com os olhos, pois que era cousa natural e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e promessa...