¿Assim, um homem, e môço de-certo bem nascido, talvez gentil, penetrava no seu destino bruscamente, trazido pela mão de seu marido? Tam íntimamente mesmo se entranhara êsse homem na sua vida, sem que ela se apercebesse, que já para êle se abria de noite a porta do seu jardim, e contra a sua janela, para êle subir, se arrumava de noite uma escada!... E era seu marido que muito secretamente escancarava a porta, e muito secretamente levantava a escada... Para que?{231}

Então, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa verdade, que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma cilada! O senhor de Lara atraía a Cabril êsse D. Rui com uma promessa magnífica, para dêle se apoderar, e de-certo o matar, indefeso e solitário! E ela, o seu amor, o seu corpo, eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do môço desventuroso. Assim seu marido usava a sua beleza, o seu leito, como a rêde de oiro em que devia caír aquela prêsa estouvada! ¿Onde haveria maior ofensa? E tambêm quanta imprudência! Bem poderia esse D. Rui de Cardenas desconfiar, não aceder a convite tam abertamente amoroso, e depois mostrar por toda a Segóvia, rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu leito e do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas não! o desventurado correria a Cabril—e para morrer, miserávelmente morrer no negro silêncio da noite, sem padre, nem sacramentos, com a alma encharcada em pecado de amor! Para morrer, de-certo—porque nunca o senhor de Lara permitiria que vivesse o homem que recebera tal carta. Assim, aquele môço morria por amor dela, e por um amor que, sem lhe valer nunca um gôsto, lhe valia logo a morte! De-certo por amor dela—pois que tal ódio do senhor de Lara, ódio{232} que com tanta deslealdade e vilania se cevava, só podia nascer de ciumes, que lhe escureciam todo o dever de cavaleiro e de cristão. Sem dúvida êle surpreendera olhares, passos, tenções dêste senhor D. Rui, mal acautelado por bem namorado.

Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um moço que um domingo a cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de cravos na mão... Seria êsse? Era de nobre parecer, muito pálido, com grandes olhos negros e quentes. Ela passara—indiferente... Os cravos que segurava na mão eram vermelhos e amarelos... A quem os levava?... Ah! se o pudesse avisar, bem cedo, de madrugada!

¿Como, se não havia em Cabril serviçal ou aia de quem se fiasse? Mas deixar que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração, que vinha cheio dela, palpitando por ela, todo na esperança dela!...

Oh! a desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Segóvia a Cabril, com a promessa do encantador jardim aberto, da escada posta contra a janela, sob a nudez e protecção da noite! ¿Mandaria realmente o senhor de Lara encostar uma escada à janela? De-certo, para com mais facilidade o poderem matar, ao pobre, e doce, e inocente môço, quando êle subisse, mal seguro sôbre um frágil degrau,{233} as mãos embaraçadas, a espada a dormir na bainha... E assim, na outra noite, em face ao seu leito, a sua janela estaria aberta, e uma escada estaria erguida contra a sua janela à espera de um homem! Emboscado na sombra do quarto, seu marido seguramente mataria êsse homem...

¿Mas se o senhor de Lara esperasse fóra dos muros da quinta, assaltasse brutalmente, nalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e ou por menos destro, ou por menos forte, num terçar de armas, caísse êle traspassado, sem que o outro conhecesse a quem matara? E ela, ali, no seu quarto, sem saber, e todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem assomando à janela na sombra macia da noite tépida, e o marido que a devia defender morto no fundo duma azinhaga... ¿Que faria ela, Virgem Mãe? Oh! de-certo repeliria, soberbarmente, o môço temerário. Mas o espanto dêle e a cólera do seu desejo enganado! «Por Vós é que eu vim chamado, senhora! E ali trazia, sôbre o coração, a carta dela, com seu nome, que a sua mão traçara. ¿Como lhe poderia contar a emboscada e o dolo? Era tam longo de contar, naquele silêncio e solidão da noite, emquanto os olhos dêle, húmidos e negros, a estivessem suplicando e traspassando... Desgraçada dela se o senhor de Lara morresse, a deixasse solitária,{234} sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto desgraçada tambêm se aquele môço, chamado por ela, e que a amava, e que por êsse amor vinha correndo deslumbrante, encontrasse a morte no sítio da sua esperança, que era o sítio do seu pecado, e, morto em pleno pecado, rolasse para a eterna desesperança... Vinte e cinco anos, êle—se era o mesmo de quem se lembrava, pálido, e tam airoso, com um gibão de veludo roxo e um ramo de cravos na mão, à porta da igreja, em Segóvia...

Duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando os joelhos, levantando a alma toda para o céu, onde a lua se começava a levantar, murmurou, numa infinita mágoa e fé:

—Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por nós ambos, vela por todos nós!...

[III]

D. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco pátio da sua casa, quando de um banco de pedra, na sombra, se ergueu um môço do campo, que tirou de dentro do surrão uma carta, lha entregou, murmurando:{235}