—Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me mandou...

D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com êle contra o peito, como para o enterrar no coração...

O moço do campo insistia, inquieto:

—Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um sinal de vos ter vindo o recado...

Muito pálido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz, que o môço enrolou e sumiu no surrão. E já abalava na ponta das alpercatas leves, quando, com um acêno, D. Rui ainda o deteve:

—Escuta. ¿Que caminho tomas tu para Cabril?

—O mais certo e sòzinho para gente afoita, que é pelo Cêrro dos Enforcados.

—Bem.

D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que D. Leonor o chamava de noite ao seu quarto, à posse inteira do seu ser. E não o maravilhava esta oferta—depois de uma tam constante, imperturbada indiferença. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto, por ser muito forte, que com grande paciência se esconde ante os estorvos e os perigos, e mudamente prepara a sua{236} hora de contentamento, melhor e mais deliciosa por tam preparada. Sempre ela o amara, pois, desde a manhã bemdita em que os seus olhos se tinham cruzado no portal de Nossa Senhora. E emquanto êle rondava aqueles muros do jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos frios muros, já ela lhe dera a sua alma, e cheia de constância, com amorosa sagacidade, recalcando o menor suspiro, adormecendo desconfianças, preparava a noite radiante em que lhe daria tambêm o seu corpo.

Tanta firmeza, tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam mais bela e mais apetecida!