Com que impaciência olhava então o sol, tam desapressado nessa tarde em descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias cerradas para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava amorosamente para a triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas, um gibão de veludo negro e as essências perfumadas. Duas vezes desceu à cavalariça a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado. Sôbre o soalho, vergou e revergou, para a experimentar, a folha da espada que levaria à cinta... Mas o seu maior cuidado era o caminho para Cabril, a-pesar de bem o conhecer, e a aldeia apinhada em tôrno ao mosteiro franciscano, e a vélha{237} ponte romana com o seu Calvário, e a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda nesse inverno por lá passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e avistara a torre dos de Lara, e pensara:—«Eis a torre da minha ingrata!» Como se enganava! As noites agora eram de lua, e êle saíria de Segóvia caladamente, pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no Cêrro dos Enforcados... Bem o conhecia tambêm, êsse sítio de tristeza e pavor, com os seus quatro pilares de pedra, onde se enforcavam os criminosos, e onde os seus corpos ficavam, balouçados da ventania, ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e as ossadas caíssem, brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trás do Cêrro era a lagôa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fôra em dia do apóstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e paz, em procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão negro, esbrugadas pelas aves. Daí o caminho, depois, corria liso e direito a Cabril.
Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, emquanto a tarde ia caíndo. Mas, quando escureceu, e em tôrno às tôrres da igreja começaram a girar os morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das Almas, o valente môço sentiu um medo{238} estranho, o medo daquela felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural. ¿Era, pois, certo que essa mulher de divina formosura, famosa em Castela, e mais inacessível que um astro, seria sua, toda sua, no silêncio e segurança duma alcova, dentro em breves instantes, quando ainda se não tivessem apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes devotos? ¿E o que fizera êle para lograr tam grande bem? Pisara as lages de um adro, esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois olhos, que não se erguiam, indiferentes ou desatentos. Então, sem dor, abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos distraídos o procuram, e aqueles braços fechados se lhe abrem, largos e nus, e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita:—«Oh! mal avisado, que não me entendeste! Vem! Quem te desanimou já te pertence!» ¿Houvera jàmais igual ventura? Tam alta, tam rara era, que de-certo atrás dela, se não erra a lei humana, já devia caminhar a desventura! Já na verdade caminhava;—pois quanta desventura em saber que depois de tal ventura, quando de madrugada, saíndo dos divinos braços, êle recolhesse a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tam inesperadamente adquirido por um instante, recaíria logo sob o poder de outro amo!{239}
Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era esplêndidamente sua, o mundo todo uma aparência vã e a única realidade êsse quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os cabelos soltos! Foi com sofreguidão que desceu a escada, se arremessou sôbre o seu cavalo. Depois, por prudência, atravessou o adro muito lentamente, com o sombreiro bem levantado da face, como num passeio natural, a procurar fóra dos muros a frescura da noite. Nenhum encontro o inquietou até à porta de S. Mauros. Aí, um mendigo, agachado na escuridão dum arco, e que tocava monótonamente a sua sanfona, pediu, em lamúria, à Virgem e a todos os santos, que levassem aquele gentil cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma esmola, quando se lembrou que nessa tarde não fôra à igreja, à hora de vésperas, rezar e pedir a bênção à sua divina madrinha. Com um salto, desceu logo do cavalo, porque, justamente, rente ao vélho arco, tremeluzia uma lâmpada alumiando um retábulo. Era uma imagem da Virgem com o peito traspassado por sete espadas. D. Rui ajoelhou, pousou o sombreiro nas lages, e com as mãos erguidas, muito zelosamente, rezou uma Salve-Rainha. O clarão amarelo da luz envolvia o rosto da Senhora, que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como se êles só déssem{240} inefáveis gozos, sorria com os lábios muito vermelhos. Emquanto êle rezava, no convento de São Domingos, ao lado, a sineta começou a tocar a agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando a sanfona, o mendigo murmurou:—«Lá está um frade a morrer!» D. Rui disse uma Ave-Maria pelo frade que morria. A Virgem das sete espadas sorria docemente—o toque de agonia não era, pois, de mau preságio! D. Rui cavalgou alegremente e partiu.
Para alêm da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por trás das colinas, ao fundo da planície escura, subia o primeiro clarão, amarelo e lânguido, da lua cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava a passo, receando chegar a Cabril muito cedo, antes que as aias e os moços findassem o serão e o rosário. ¿Porque não lhe marcara D. Leonor a hora, naquela carta tam clara e tam pensada? Então a sua imaginação corria adiante, rompia pelo jardim de Cabril, galgava aladamente a escada prometida—e êle largava tambêm atrás, numa carreira sôfrega, que arrancava as pedras do caminho mal junto. Depois sofreava o cavalo ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava o passo penoso, sentindo o coração contra o peito, como ave presa que bate às grades.
Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada{241} se fendia em duas, mais juntas que as pontas de uma forquilha, ambas cortando através de pinheiral. Descoberto diante da imagem crucificada, D. Rui teve um instante de angústia, pois não se recordava qual delas levava ao Cêrro dos Enforcados. Já se embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os pinheiros calados, uma luz surgiu, dansando no escuro. Era uma vélha em farrapos, com as longas melenas soltas, vergada sôbre um bordão e levando uma candeia.
—¿Para onde vai este caminho?—gritou Rui.
A vélha balançou mais ao alto a candeia, para mirar o cavaleiro.
—Para Xarama.
E luz e vélha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali tivessem surgindo sómente para avisar o cavaleiro do seu caminho errado... Já êle virara arrebatadamente; e, rodeando o Calvário, galopou pela outra estrada mais larga, até avistar sôbre a claridade do céu os pilares negros, os madeiros negros do Cêrro dos Enforcados. Então estacou, direito nos estribos. Num cômoro alto, sêco, sem erva ou urze, ligados por um muro baixo, todo esbrechado, lá se erguiam, negros, enormes, sôbre a amarelidão do luar, os quatro pilares de granito semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita.{242} Sôbre os pilares pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro enforcados negros e rígidos, no ar parado e mudo. Tudo em tôrno parecia morto como êles.
Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sôbre os madeiros. Para alêm, rebrilhava lívidamente a água morta da lagôa das Donas. E, no céu, a lua ia grande e cheia.