D. Rui murmurou o Padre Nosso devido por todo o cristão àquelas almas culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava—quando, no imenso silêncio e na imensa solidão, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava, suplicante e lenta:

—Cavaleiro, detende-vos, vinde cá!...

D. Rui colheu bruscamente as rédeas e erguido sôbre os estribos, atirou os olhos espantados por todo o sinistro ermo. Só avistou o cêrro áspero, a água rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou que fôra ilusão da noite ou ousadia de algum demónio errante. E, serenamente, picou o cavalo, sem sobressalto ou pressa, como numa rua de Segóvia. Mas, por trás, a voz tornou, mais urgentemente o chamou, ansiosa, quási aflita:

—Cavaleiro, esperai, não vos vades, voltai, chegai aqui!...

De novo D. Rui estacou e, virado sôbre a sela, encarou afoitamente os quatro corpos pendurados das traves. Do lado dêles soava{243} a voz, que, sendo humana, só podia saír de forma humana! Um dêsses enforcados, pois, o chamara, com tanta pressa e ânsia.

¿Restaria nalguns, por maravilhosa mercê de Deus, alento e vida? ¿Ou seria que, por maior maravilha, uma dessas carcassas meio apodrecidas o detinha para lhe transmitir avisos de Alêm-da-Campa?... Mas, que a voz rompesse dum peito vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar, espavoridamente, sem a atender e a ouvir.

Atirou logo para dentro do cêrro o cavalo, que tremia; e, parando, direito e calmo, com a mão na ilharga, depois de fitar, um por um, os quatro corpos suspensos, gritou:

—¿Qual de vós, homens enforcados, ousou chamar por D. Rui de Cardenas?

Então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu, do alto da corda, muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da sua janela para a rua:

—Senhor, fui eu.