Bem compreende que homem tam comedido e quieto não se exalou em suspiros públicos. Já, porêm, no tempo de Aristóteles, se afirmava que amor e fumo não se escondem; e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo a escapar, como o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa fechada que arde terrívelmente. Bem me recordo duma tarde que o visitei em Arroios, depois de voltar do Alentejo. Era um domingo de Julho. Êle ia jantar com uma tia-avó, uma D. Mafalda Noronha, que vivia em Bemfica, na quinta dos Cedros, onde habitualmente jantavam tambêm aos domingos o Matos Miranda e a divina Elisa. Creio mesmo que só nessa casa ela e o José Matias se encontravam,{272} sobretudo com as facilidades que oferecem pensativas alamedas e retiros de sombra. As janelas do quarto do José Matias abriam sôbre o seu jardim e sôbre o jardim dos Mirandas: e, quando entrei, êle ainda se vestia, lentamente. Nunca admirei, meu amigo, face humana aureolada por felicidade mais segura e serena! Sorria iluminadamente quando me abraçou, com um sorriso que vinha das profundidades da alma iluminada; sorria ainda deliciadamente emquanto eu lhe contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois estáticamente, aludindo ao calor e enrolando um cigarro distraído; e sorriu sempre, enlevado, a escolher na gaveta da cómoda, com escrúpulo religioso, uma gravata de sêda branca. E a cada momento, irresistivelmente, por um hábito já tam inconsciente como o pestanejar, os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam para as vidraças fechadas... De sorte que, acompanhando aquele raio ditoso, logo descobri, no terraço da casa da Parreira, a divina Elisa, vestida de claro, com um chapéu branco, passeando preguiçosamente, calçando pensativamente as luvas, e espreitando tambêm as janelas do meu amigo, que um lampejo oblíquo do sol ofuscava de manchas de oiro. O José Matias no entanto conversava, antes murmurava, através do sorriso perene, coisas afáveis{273} e dispersas. Toda a sua atenção se concentrara diante do espelho, no alfinete de coral e pérola para prender a gravata, no colete branco que abotoava e ajustava com a devoção com que um padre novo, na exaltação cândida da primeira missa, se reveste da estola e do amito para se acercar do altar. Nunca eu vira um homem deitar, com tam profundo êxtasi, água de Colónia no lenço! E depois de enfiar a sobrecasaca, de lhe espetar uma soberba rosa, foi com inefável emoção, sem reter um delicioso suspiro, que abriu largamente, solenemente, as vidraças! Introibo ad altarem Deæ! Eu permaneci discretamente enterrado no sofá. E, meu caro amigo, acredite! invejei aquele homem à janela, imóvel, hirto na sua adoração sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, na branca mulher calçando as luvas claras, e tam indiferente ao Mundo como se o Mundo fôsse apenas o ladrilho que ela pisava e cobria com os pés!

E êste enlêvo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro, distante e imaterial! Não ria... De-certo se encontravam na quinta de D. Mafalda: de-certo se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas por cima do muro que separava os dois quintais: mas nunca, por cima das heras dêsse muro, procuraram a rara delícia duma conversa roubada ou a delícia ainda mais perfeita dum silêncio{274} escondido na sombra. E nunca trocaram um beijo... Não duvide! Algum apêrto de mão fugidio e sôfrego, sob os arvoredos da D. Mafalda, foi o limite exaltadamente extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo não compreende como se mantiveram assim dois frágeis corpos, durante dez anos, em tam terrível e mórbido renunciamento... Sim, de-certo lhes faltou, para se perderem, uma hora de segurança ou uma portinha no muro. Depois a divina Elisa vivia realmente num mosteiro, em que ferrolhos e grades eram formados pelos hábitos rígidamente reclusos do Matos Miranda, diabético e tristonho. Mas, na castidade dêste amor, entrou muita nobreza moral e finura superior de sentimento. O amor espiritualiza o homem—e materializa a mulher. Essa espiritualização era fácil ao José Matias, que (sem nós desconfiarmos) nascera desvairadamente espiritualista; mas a humana Elisa encontrou tambêm um gôzo delicado nessa ideal adoração de monge, que nem ousa roçar, com os dedos trémulos e embrulhados no rozário, a túnica da Virgem sublimada. Êle, sim! êle gozou nesse amor transcendentemente desmaterializado um encanto sobreumano. E durante dez anos, como o Ruy-Blas do vélho Hugo, caminhou, vivo e deslumbrado, dentro do seu sonho radiante, sonho em que{275} Elisa habitou realmente dentro da sua alma, numa fusão tam absoluta que se tornou consubstancial com o seu ser! ¿Acreditará o meu amigo que êle abandonou o charuto, mesmo passeando solitariamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo que descobrira na quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava Elisa?

E esta presença real da divina criatura no seu ser criou no José Matias modos novos, estranhos, derivando da alucinação. Como o Visconde de Garmilde jantava cedo, à hora vernácula do Portugal antigo, José Matias ceava, depois de S. Carlos, naquele delicioso e saudoso Café Central, onde o linguado parecia frito no céu, e o Colares no céu engarrafado. Pois nunca ceava sem serpentinas profusamente acesas e a mesa juncada de flores. Porque? Porque Elisa tambêm ali ceava invisível. Daí êsses silêncios banhados num sorriso religiosamente atento... Porque? Porque a estava sempre escutando! Ainda me lembro dêle arrancar do quarto três gravuras clássicas de Faunos ousados e Ninfas rendidas... Elisa pairava idealmente naquele ambiente; e êle purificava as paredes, que mandou forrar de sêdas claras. O amor arrasta ao luxo, sobretudo amor de tam elegante idealismo: e o José Matias prodigalizou com esplendor o luxo que ela partilhava. Decentemente não podia andar{276} com a imagem de Elisa numa tipóia de praça, nem consentir que a augusta imagem roçasse pelas cadeiras de palhinha da plateia de S. Carlos. Montou, portanto, carruagens dum gôsto sóbrio e puro: e assinou um camarote na Ópera, onde instalou, para ela, uma poltrona pontifical, de setim branco, bordado a êstrelas de oiro.

Alêm disso como descobrira a generosidade de Elisa, logo se tornou congénere e suntuosamente generoso: e ninguêm existiu então em Lisboa que espalhasse, com facilidade mais risonha, notas de cem mil réis. Assim desbaratou, rápidamente, sessenta contos com o amor daquela mulher a quem nunca déra uma flor!

¿E, durante êsse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda não desmanchava nem a perfeição, nem a quietação desta felicidade! ¿Tam absoluto seria o espiritualismo do José Matias que apenas se interessasse pela alma de Elisa, indiferente às submissões do seu corpo, invólucro inferior e mortal?... Não sei. Verdade seja! aquele digno diabético, tam grave, sempre de cachené de lã escura, com as suas suíças grisalhas, os seus ponderosos óculos de oiro, não sugeria ideas inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e involuntariamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi,{277} eu, Filósofo, aquela consideração, quási carinhosa, do José Matias pelo homem que, mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume, contemplar Elisa desapertando as fitas da saia branca!... ¿Haveria ali reconhecimento por o Miranda ter descoberto numa remota rua de Setúbal (onde José Matias nunca a descortinaria) aquela divina mulher, e por a manter em confôrto, sólidamente nutrida, finamente vestida, transportada em caleches de macias molas? ¿Ou recebera o José Matias aquela costumada confidência—«não sou tua, nem dêle»—que tanto consola do sacrifício porque tanto lisonjeia o egoismo?... Não sei. Mas com certeza, êste seu magnânimo desdêm pela presença corporal do Miranda no templo, onde habitava a sua Deusa, dava à felicidade de José Matias uma unidade perfeita, a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha, igualmente puro, sem arranhadura ou mancha. E esta felicidade, meu amigo, durou dez anos... Que escandaloso luxo para um mortal!

Mas um dia, a terra, para o José Matias, tremeu toda, num terramoto de incomparável espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, já debilitado pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas ruas, numa pachorrenta tipóia de praça, acompanhei o seu entêrro numeroso, rico, com Ministros,{278} porque o Miranda pertencia às Instituições. E depois, aproveitando a tipóia, visitei o José Matias em Arroios, não por curiosidade perversa, nem para lhe levar felicitações indecentes, mas para que, naquele lance deslumbrador, êle sentisse ao lado a fôrça moderadora da Filosofia... Encontrei porêm com êle um amigo mais antigo e confidencial, aquele brilhante Nicolau da Barca, que já conduzi tambêm a êste cemitério, onde agora jazem, debaixo de lápides, todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas nuvens... O Nicolau chegara da Velosa, da sua quinta de Santarêm, de madrugada, reclamado por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado arranjava duas malas enormes. O José Matias abalava nessa noite para o Pôrto. Já envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de couro amarelo: e depois de me sacudir a mão, emquanto o Nicolau remexia um grog, continuou vagando pelo quarto, calado, como embaçado, com um modo que não era emoção, nem alegria púdicamente disfarçada, nem surprêsa do seu destino bruscamente sublimado. Não! se o bom Darwin nos não ilude no seu livro da Expressão das Emoções, o José Matias, nessa tarde, só sentia e só exprimia embaraço! Em frente, na casa da Parreira, todas as janelas permaneciam{279} fechadas sob a tristeza da tarde cinzenta. E todavia surpreendi o José Matias atirando para o terraço, rápidamente, um olhar em que transparecia inquietação, ansiedade, quasi terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal segura onde se agita uma leôa! Num momento em que êle entrara na alcova, murmurei ao Nicolau, por cima do grog:—«O Matias faz perfeitamente em ir para o Pôrto...» Nicolau encolheu os ombros:—«Sim, pensou que era mais delicado... Eu aprovei. Mas só durante os meses de luto pesado...» Às sete horas acompanhamos o nosso amigo à estação de Santa Apolónia. Na volta, dentro do copé que uma grande chuva batia, filosofamos. Eu sorria contente:—«Um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos... É um poema acabado!»—O Nicolau acudiu sério:—«E acabado numa deliciosa e suculenta prosa. A divina Elisa fica com toda a sua divindade e a fortuna do Miranda, uns dez ou dôze contos de renda... Pela primeira vez na nossa vida contemplamos, tu e eu, a virtude recompensada!»

Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e José Matias não se arredou do Pôrto. Nesse Agosto o encontrei{280} eu instalado fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a melancolia dos dias abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo romances de Júlio Verne, e bebendo cerveja gelada até que a tarde refrescava e êle se vestia, se perfumava, se floria para jantar na Foz.

E a-pesar de se acercar o bemdito remate do luto e da desesperada espera, não notei no José Matias nem alvoroço elegantemente reprimido, nem revolta contra a lentidão do tempo, vélho por vezes tam moroso e trôpego... Pelo contrário! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses anos o iluminara com um nimbo de beatitude, sucedera a seriedade carregada, toda em sombra e rugas, de quem se debate numa dúvida irresolúvel, sempre presente, roedora e dolorosa. ¿Quer que lhe diga? Nesse verão, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o José Matias, a cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcando a fresca cerveja, mesmo calçando as luvas ao entrar para a caleche que o levava à Foz, angustiadamente perguntava à sua consciência:—«Que hei-de fazer? Que hei-de fazer?»—E depois, uma manhã, ao almôço, realmente me assombrou, exclamando ao abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: «O quê! Já são 29 de Agosto? Santo Deus... Já o fim de Agosto!...»{281}

Voltei a Lisboa, meu amigo. O inverno passou, muito sêco e muito azul. Eu trabalhei nas minhas Origens do Utilitarismo. Um domingo, no Rocio, quando já se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum copé a divina Elisa, com plumas roxas no chapéu. E nessa semana encontrei no meu Diário Ilustrado a notícia curta, quási tímida, do casamento da Snr.ª D. Elisa Miranda... ¿Com quem, meu amigo?—Com o conhecido propriétário, o Snr. Francisco Tôrres Nogueira!...

O meu amigo cerrou aí o punho, e bateu na coxa espantado. Eu tambêm cerrei os punhos ambos, mas para os levantar ao Céu onde se julgam os feitos da Terra, e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a inconstância ondeante e pérfida, toda a enganadora torpeza das mulheres, e daquela especial Elisa cheia de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à pressa, atabalhoadamente, apenas findara o luto negro, aquele nobre, puro, intelectual Matias! e o seu amor de dez anos, submisso e sublime!...