E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça, gritando:—«Mas porquê? porquê?»—Por amor? Durante anos ela amara enlevadamente êste môço, e dum amor que se não desiludira nem se fartara, porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por ambição? Tôrres Nogueira era{282} um ocioso amável como José Matias, e possuia em vinhas hipotecadas os mesmos cincoenta ou sessenta contos que o José Matias herdara agora do tio Garmilde em terras excelentes e livres. Então porquê? Certamente porque os grossos bigodes negros do Tôrres Nogueira apeteciam mais à sua carne, do que o buço louro e pensativo do José Matias! Ah! bem ensinara S. João Crisólogo que a mulher é um monturo de impureza, erguido à porta do Inferno!
Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do Alecrim o nosso Nicolau da Barca, que salta da tipóia, me empurra para um portal, agarra excitadamente no meu pobre braço, e exclama engasgado:—«Já sabes? Foi o José Matias que recusou! Ela escreveu, esteve no Pôrto, chorou... Êle nem consentiu em a ver! Não quis casar, não quer casar!» Fiquei trespassado.—«E então ela...»—«Despeitada, fortemente cercada pelo Tôrres, cansada da viuvice, com aqueles bélos trinta anos em botão, que diabo! coitada, casou!» Eu ergui os braços até a abóbada do pátio:—«¿Mas então êsse sublime amor do José Matias?». O Nicolau, seu íntimo e confidente, jurou com irrecusável segurança:—«É o mesmo sempre! Infinito, absoluto... Mas não quer casar!»—Ambos nos olhamos, e depois ambos nos separamos, encolhendo{283} os ombros, com aquele assombro resignado que convêm a espíritos prudentes perante o Incognoscível. Mas eu, Filósofo, e portanto espírito imprudente, toda essa noite esfuraquei o acto do José Matias com a ponta duma Psicologia que expressamente aguçara:—e já de madrugada, estafado, concluí, como se conclui sempre em Filosofia, que me encontrava diante duma Causa Primária, portanto impenetrável, onde se quebraria, sem vantagem para êle, para mim, ou para o Mundo, a ponta do meu Instrumento!
Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu Tôrres Nogueira, no confôrto e sossêgo que já gozara com o seu Matos Miranda. No meado do verão José Matias recolheu do Pôrto a Arroios, ao casarão do tio Garmilde, onde reocupou os seus antigos quartos, com as varandas para o jardim, já florido de dálias que ninguêm tratava. Veio Agosto, como sempre em Lisboa silencioso e quente. Aos domingos José Matias jantava com D. Mafalda de Noronha, em Bemfica, solitariamente—porque o Tôrres Nogueira não conhecia aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros. A divina Elisa, com vestidos claros, passeava à tarde no jardim entre as roseiras. De sorte que a única mudança, naquele doce canto de Arroios, parecia ser o Matos Miranda no seu{284} belo jazigo dos Prazeres, todo de mármore—e o Tôrres Nogueira no leito excelente de Elisa.
Havia, porêm, uma tremenda e dolorosa mudança—a do José Matias! ¿Adivinha o meu amigo como êsse desgraçado consumia os seus estéreis dias? Com os olhos, e a memória, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, nas janelas, nos jardins da Parreira! Mas agora não era de vidraças largamente abertas, em aberto êxtasi, com o sorriso de segura beatitude: era por trás das cortinas fechadas, através duma escassa fenda, escondido, surripiando furtivamente os brancos sulcos do vestido branco, com a face toda devastada pela angústia e pela derrota. ¿E compreende porque sofria assim, êste pobre coração? Certamente porque Elisa, desdenhada pelos seus braços fechados, correra logo, sem luta, sem escrúpulos, para outros braços, mais acessíveis e prontos... Não, meu amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixão. O José Matias permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da sua alma, nesse sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições das conveniências, nem as decisões da razão pura, nem os ímpetos do orgulho, nem as emoções da carne—o amava, a êle, únicamente a êle, e com um amor que não deperecera, não se alterara, floria em todo{285} o seu viço, mesmo sem ser regado ou tratado, como a antiga Rosa Mística! O que o torturava, meu amigo, o que lhe cavara longas rugas em curtos meses, era que um homem, um macho, um bruto, se tivesse apoderado daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais socialmente puro, sob o patrocínio enternecido da Igreja e do Estado, lambuzasse com os rijos bigodes negros, à farta, os divinos lábios que êle nunca ousara roçar, na supersticiosa reverência e quási no terror da sua divindade! Como lhe direi?... O sentimento dêste extraordinário Matias era o de um monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente enlêvo—quando de repente um bestial sacrílego trepa ao altar, e ergue obscenamente a túnica da Imagem! O meu amigo sorri... ¿E então o Matos Miranda? Ah! meu amigo! êsse era diabético, e grave, e obeso, e já existia instalado na Parreira, com a sua obesidade e a sua diabetes, quando êle conhecera Elisa e lhe dera para sempre vida e coração. E o Tôrres Nogueira, êsse, rompera brutalmente através do seu puríssimo amor, com os negros bigodes, e os carnudos braços, e o rijo arranque dum antigo pegador de toiros, e empolgara aquela mulher—a quem revelara talvez o que é um homem!
Mas, com os demónios! essa mulher êle{286} a recusara, quando ela se lhe oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdêm ainda ressequira ou abatera. Que quer?... É a espantosa tortuosidade espiritual dêste Matias! Ao cabo duns meses êle esquecera, positivamente esquecera essa recusa afrontosa, como se fôra um leve desencontro de interêsses materiais ou sociais, passado há meses, no Norte, e a que a distância e o tempo dissipavam a realidade e a amargura leve! E agora, aqui em Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas janelas e as rosas dos dois jardins unidos rescendendo na sombra, a dor presente, a dor real, era que êle amara sublimemente uma mulher, e que a colocara entre as estrêlas para mais pura adoração, e que um bruto moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher de entre as estrêlas e a arremessara para a cama!
¿Enredado caso, hein, meu amigo? Ah! muito filosofei sôbre êle, por dever de filósofo! E concluí que o Matias era um doente, atacado de hiper-espiritualismo, duma inflamação violenta e putrida do espiritualismo, que receara apavoradamente as materialidades do casamento, as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis meses, os meninos berrando no berço molhado... E agora rugia de furor e tormento, porque certo materialão, ao lado, se{287} prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã. Um imbecil?... Não, meu amigo! um ultra-romântico, loucamente alheio às realidades fortes da vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de meninos são coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor.
¿E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, êste tormento? É que a pobre Elisa mostrava por êle o antigo amor! Que lhe parece? Infernal, hein?... Pelo menos se não sentia o antigo amor intacto na sua essência, forte como outrora e único, conservava pelo pobre Matias uma irresistível curiosidade e repetia os gestos dêsse amor... Talvez fôsse apenas a fatalidade dos jardins vizinhos! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Tôrres Nogueira partiu para as suas vinhas de Carcavelos a assistir à vindima, ela recomeçou da borda do terraço, por sôbre as rosas e as dálias abertas, aquela doce remessa de doces olhares com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias.
Não creio que se escrevessem por cima do muro do jardim, como sob o regímen paternal do Matos Miranda... O novo senhor, o homem robusto da bigodeira negra, impunha à divina Elisa, mesmo de longe, de entre as vinhas de Carcavelos, retraímento e prudência. E acalmada por aquele marido, môço e{288} forte, menos sentiria agora a necessidade de algum encontro discreto na sombra tépida da noite, mesmo quando a sua elegância moral e o rígido idealismo do José Matias consentissem em aproveitar uma escada contra o muro... De resto, Elisa era fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo, por o sentir tam belo e cuidadosamente feito por Deus—mais do que da sua alma. E quem sabe?... Talvez a adorável mulher pertencesse à bela raça daquela marquesa italiana, a Marquesa Júlia de Malfieri, que conservava dois amorosos ao seu doce serviço, um poeta para as delicadezas românticas e um cocheiro para as necessidades grosseiras.
Emfim, meu amigo, não psicologuemos mais sôbre esta viva, atrás do morto que morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insensivelmente recaíram na vélha união ideal através dos jardins em flor. E em Outubro, como o Tôrres Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o José Matias, para contemplar o terraço da Parreira, já abria de novo as vidraças, larga e estáticamente!
Parece que um tam estreme espiritualista, reconquistando a idealidade do antigo amor, devia reentrar tambêm na antiga felicidade perfeita. Êle reinava na alma imortal de Elisa:—¿que importava que outro se ocupasse do seu corpo mortal? Mas não! o pobre môço{289} sofria, angustiadamente. E, para sacudir a pungência dêstes tormentos, findou, êle tam sereno, duma tam doce harmonia de modos, por se tornar um agitado. Ah! meu amigo, que redemoínho e estrépito de vida! Desesperadamente, durante um ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa! São dêsse tempo algumas das suas extravagâncias lendárias... ¿Conhece a da ceia?... Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro-Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melancólicamente, posto na frente, sôbre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Graça, para saudar a aparição do sol!