Eu espero, para o admirar, que um mestre o immortalise na téla e o popularise pela lythographia. Até lá, por Jupiter, sustento que esta arenga não me parece do meu Gambetta, do antigo e forte Gambetta; dir-se-ia antes ser do copioso Odilon Barrot. Não vejo aqui as ideias que fundam, nem as palavras que ficam. O que abunda, sim, é o emprego triumphante do pronome pessoal eu.
«Eu consultei o paiz! Eu disse á Europa! Eu quero!» E assim se desfaz, emfim, o equivoco enorme; é elle realmente que governa, possue a França: o snr. Grevy está alli como uma figura ornamental; o snr. de Freycinet e o seu ministerio são o côro explicativo; a camara, um mero serviço de votação. Só elle fica acima d'estas fracções, como a mesma alma da Republica. E pela segunda vez, desde Mazzarino, com respeito o digo, um italiano é o senhor das Gallias.
Não creio, porém, que esta amnistia, tão generosamente concedida pelo snr. Gambetta, desarmará o socialismo, e o reconciliará com a Republica conservadora. Espanto-me mesmo que haja velhos jornaes, cobertos de experiencia e de cans, que o acreditem, com a ingenuidade de tenros enthusiastas. E o mesmo Gambetta parece crêl-o quando exclama que, eliminada esta questão irritante, haverá só uma Republica e uma só França!
Rhetorica! A questão da amnistia era, decerto, nas mãos da esquerda intransigente uma arma util: «Vêde essa Republica de conservadores que deixa nas galés os vossos irmãos, os vossos maridos!» Este grito ia direito á indignação dos homens e á sensibilidade das mulheres.
Para resolver o operario era, sem duvida, um optimo grito: mantinha-o em desconfiança e em hostilidade; e nas eleições proximas levaria de certo a turba proletaria para os candidatos do socialismo. Mas, perdida esta arma contra a republica do Justo-meio, esta Durindana brilhante do Rappel e do Mot d'Ordre, restam innumeraveis machinas de guerra no vasto arsenal da questão social. Basta, por exemplo, pôr em posição a famosa catapulta da separação da egreja e do estado, para abalar a fragil muralha do Gambettismo.
Os conservadores, para se conservarem a si mesmos, terão de ceder: e de concessão em concessão, como um sapo aos saltinhos successives, irão cahir na guela escarlate da serpente socialista. Todas as medidas d'estes ultimos dois annos, depuramento do funccionalismo, expulsão dos jesuitas e volta dos communistas, têm sido exigencias da extrema esquerda, do mundo do Rappel, da Justice e do Mot d'Ordre.
E outras reclamações virão—todas necessariamente satisfeitas—e cada uma tirando um cabello a Samsão e uma parcella da sua força á Republica... A questão está collocada entre o proletario e o burgues. É Clemenceau contra Gambetta. E isto, que é o socialista Clemenceau, matará fatalmente aquillo, que é o jacobino Gambetta: e isto, que é o sapateiro Trinquet, eliminará mais tarde aquillo, que é o philosopho Clemenceau.
Mas, por estes dias ao menos, esta Republica moderada está solida. Tem por si a burguezia: os burguezes de hoje são a antiga população das Gallias—que já no tempo de Cesar amava sobretudo as palavras sonoras e as espadas atrevidas. Por isso a burguezia se sente segura, apoiando-se na oratoria de Gambetta e no sabre de Gallifet.
Para nós que não somos francezes, preparam-se-nos horas de jovialidade, porque vêm ahi os exilados e á frente Rochefort. Se o grande pamphletario, o gaiato sublime como lhe chamou Michelet, o ardente sagitario, não perdeu nas amarguras do desterro a sua verve prodigiosa, o ardor acerado, as luminosas flechas que feriram de morte o Imperio—vae ser curioso vêl-o erguer-se no boulevard, como nos dias inolvidaveis da Lanterna, com a face pallida e a sua gaforina de Satanaz, heroico e agil diante do pesado presidente Gambetta.
O jornal que vae fundar chama-se o Intransigente. Já é bom! E vem azedado por dez annos de exilio injusto, porque (ninguem o ignora) foi a Lanterna e a sua lucta contra o Imperio que o levaram á Nova Caledonia por sentença de um conselho de guerra, composto dos velhos generaes de Cesar, e não a sua participação na Communa, que elle combateu implacavelmente e que o condemnou á morte. Por isso elle permaneceu querido de toda a França, esse homem que tem o espirito de Voltaire, a temeridade heroica, a honradez de um Bayard; este marquez de Rochefort e de Luçay, que as duquezas chamam o primo Rochefort, generoso paladino dos humildes, que foi durante os ultimos annos de Napoleão a alegria viva da França e uma das honras da liberdade. Os seus mesmos inimigos o admiram: e foi por terror ao seu espirito que a republica conservadora o manteve no exilio perpetuo, excluido de todos os perdões. E vem ahi! Positivamente, vamos rir.