De sorte que o sujeito, que quer defender a sua honra a serio por estes meios, tem deante de si duas perspectivas amaveis: ou a permanente tortura de um remorso, ou a eterna paz de uma campa; e quando se é muito feliz, como Rochefort, dois mezes de cama com uma viscera despedaçada.
Bem hajam, pois, os que nos seus duellos, como no caso do snr. Paulo, atiram as balas para Pekin ou se arranham ligeiramente nos cotovelos! Comprehendem a sabedoria: a sociedade, a vaidade, os jornaes, a opinião, as mulheres pedem-lhes sangue? Bem! vão a um recanto do Bosque, e extráem-se um ao outro, da ponta do dedo, a gotta reclamada pela honra. A sociedade, a vaidade, etc., sorriem satisfeitas; e elles, serenos de consciencia, curam-se, pondo uma dedeira. Salutar prudencia! E são egualmente heroes nas gazetas!
Foi votada na camara a amnistia, e sel-o-ha certamente no senado. Nenhum vestigio, pois, restará da insurreição da Communa em 1871. As casas ardidas fôram reedificadas; ha longo tempo que seccaram as pôças de sangue nas ruas; a hera disfarça poeticamente as ruinas das Tulherias; os fuzilados d'então são hoje terra fertil onde a herva cresce, alta e vasta; os degredados, os fugitivos reentram na vida legal; a questão da amnistia, que se arrastava nas controversias dos jornaes como um farrapo sinistro de guerra civil, é varrida para o lixo; e sobre aquella pavorosa loucura cahe, emfim, solemnemente uma lapide d'esquecimento. Viva a França!
Tudo isto é excellente: não haveria mesmo o direito de vencer, se não houvesse o direito de perdoar.
O snr. Grevy, que restituirá a patria a centenares de communistas por compaixão—não podia deixar outros centenares no degredo, por legalidade. Não era logico que os que fuzilavam os dominicanos pudessem fumar o seu cigarro no boulevard, emquanto Rochefort, que a Communa condemnou á morte, soffria o melancolico exilio de Genebra, e Trinquet, rehabilitado publicamente por Gambetta, fabricava tamancos nos presidios da Nova Caledonia. Mas dá-se uma circumstancia singular: ha tres mezes o ministro Freycinet declarava, entre as acclamações da maioria, que a França não estava sufficientemente pacificada, nem a republica talvez bastante forte, para deixar voltar a legião da Communa, e hontem, o mesmo snr. Freycinet, aos applausos da maioria, affirmava que era tão solida a unidade da republica, tão completa a quietação dos espiritos, que não se podia addiar por mais um dia esta larga absolvição das barricadas de 1871.
Em março a amnistia era uma imprudencia, em junho é uma necessidade! Noventa dias não são sufficientes para que mudassem assim tão radicalmente a opinião da França e o interesse da Republica. Portanto, aqui, como se dizia nas operas comicas da minha infancia, ha um mysterio. Qual é, pois, esse mysterio? É a vontade do snr. Gambetta. Foi elle, esse todo poderoso, esse Deus d'Israel, esse Luiz XIV da Republica, esse augusto dono de França—que assim o decidiu. Elle via que a recusa da amnistia o despopularisava já na forte maioria da democracia: percebia que ia sendo ahi considerado como a encarnação mesma da Republica burgueza e o continuador do doutrinarismo do sr. Thiers; sentia que os seus bairros proletarios, Montmartre e Belleville, já lhe retiravam os votos e a confiança para os darem a Clemenceau.
Gambetta conhece bem que, hoje, a burguesia já não é um terreno sufficientemente solido para edificar nelle uma fortuna politica; é na força do proletariado que se quer apoiar—e, portanto, resolveu, como um Jehovah prudente, readquirir a devoção do seu povo, restituindo-lhe os prophetas exilados. E ahi está como a amnistia não é um grande acto de reconciliação publica, mas uma astuta manha do dictador, para não ser perturbado na lenta jornada que o vae levando á presidencia da Republica, se não a um Cesarismo jacobino. Para mudar a opinião do ministerio Freycinet bastou-lhe ordenar; e para convencer a camara bastou-lhe fallar.
No dia da discussão do projecto da amnistia deixa melodramaticamente a sua cadeira de presidente, e de gravata branca, rubro como uma papoila, com a sua cabelleira solta á maneira de uma juba, apparece na tribuna; e não creio que desde os Gracchos, ou desde Mirabeau, jámais a palavra d'um homem revolvesse tanto um paiz! Todos os jornaes, os mais hostis, reconhecem que nunca Elle fôra tão poderoso.
Vae o E maisculo, porque parece que se trata verdadeiramente de um Deus.
Na rua vê-se gente de olho esgazeado, e arripiada de emoção murmurando: Gambetta fallou! Assim se devia dizer em Israel, quando corria voz pelas tendas dispersas das tribus que Jehovah perorava d'entre a sua sarça ardente. Eu não o ouvi. O seu discurso, lido aqui no jornal, affigura-se-me uma prosa resoante e oca como um tambor, mais propria da emphase castelhana que da lingua lúcida e disciplinada em que Voltaire escreveu. Parece, porém, que a sua formidavel figura, os accentos pungentes da sua voz captivante, soltando os grandes nomes de França e Patria e Republica, os seus gestos de apostolo possuido do espirito; a maioria de pé, n'uma acclamação, como nos dias patheticos da Convenção; a direita muda e aterrada, as galerias n'um extasi vibrante—tudo isto formou um quadro grandioso, quasi heroico.