Eu não sou um devoto, mas parece-me impio exilar aquelles que não têm as nossas opiniões. E uma republica que expulsa uma classe inteira de cidadãos por acreditarem na graça, accenderem luzes á Virgem Maria e considerarem o conde Chambord como um sêr providencial e um Messias forte—mostra uma grande falta de senso politico, e pratica um vergonhoso abuso da força.
Mas supponhamos que elles são grandes criminosos. Pois bem! estamos agora n'um momento de clemencia publica, perdoou-se hontem áquelles que consideram Deus um tyranno; perdõe-se hoje áquelles que consideram Luiz XVI um santo. E aqui está o que eu humildemente proporia;—que a amnistia dada aos communistas se estenda ás congregações religiosas!
Ainda n'esta carta, lhes não fallo da Inglaterra. A culpa é toda d'ella. Caso extraordinario! ha já semanas que este grande e amado paiz não produz um acontecimento, um escandalo, um livro, um systema philosophico, uma religião, uma machina, um quadro, uma guerra ou um dito! Está n'esse brando repouso a que se abandona sempre aos primeiros calores de junho. Deixemol-a descançar sob a sombra da frondosa faia, n'estes ocios que lhe faz a suprema liberdade na suprema força.
III. O IMPERADOR GUILHERME.
«Lui, toujours lui!...—Elle, sempre elle!...»—Assim, no tempo das Vozes interiores, clamava Victor Hugo, cançado, quasi estafado de que ao seu espirito de poeta, que tantos problemas divinos e humanos solicitavam, se impuzesse ainda com imperiosa insistencia, monopolisando os pensamentos melhores e os melhores alexandrinos, a imagem atravancadora de Napoleão, o Grande. Nós hoje tambem podemos murmurar com impaciencia: «Lui, toujours lui!... Elle, sempre elle!»—perante esse outro imperador que ainda não venceu a batalha de Marengo, nem a de Austerlitz, e que todavia, em meio de todos os problemas sociaes, moraes, religiosos, politicos e economicos que nos devoram, tão estranha e ruidosa expansão dá á sua individualidade e tão confiadamente a arremessa atravez dos nossos destinos, que elle proprio se tornou um Problema Europeu—e occupa tanto o nosso pensamento como o socialismo, a evolução religiosa ou a crise capitalista! Talvez mais—porque até o proprio snr. Renan, cuja alma, pelo exercicio constante do scepticismo, ganhou a impermeabilidade e a dôce indifferença de uma cortiça, para quem toda a vaga é embaladora e bôa, declara, na sua derradeira epistola aos incredulos, que só lhe pesa morrer (e pelas suas confissões bem sabemos quanto a vida lhe corre deliciosa e perfeita!) por não poder assistir ao desenvolvimento final da personalidade do imperador da Allemanha!
Com effeito, desde que subiu ao throno, Guilherme II, imperador e rei, ainda não deixou de attrahir e reter sobre si a curiosidade do mundo, uma curiosidade divertida e arregalada de publico que espera surpresas e lances—como se esse throno da Allemanha fôsse na realidade um palco vistosamente ornado, no centro da Europa. E esta é até agora a obra pittoresca de Guilherme II—o ter convertido—o throno dos Hohenzollerns n'um palco onde elle constantemente e soberbamente se exhibe, com caracterisações inesperadas. Bem póde, pois, o sentimental heresiarcha da Vida de Jesus lamentar que a morte lhe não consinta assistir, no quinto acto, á solução d'este imperador problematico! Pois que, por ora, n'este primeiro acto de tres annos, desde que elle trilha o seu palco imperial, Guilherme II, pela diversidade e multiplicidade das suas manifestações, só tem revelado que existem n'elle, como outr'ora em Hamlet, os germens de homens varios, sem que possamos preconceber qual d'elles prevalecerá, e se esse, quando definitivamente desabrochado, nos espantará pela sua grandeza ou pela sua vulgaridade. Realmente, n'este rei, quantas encarnações da realeza!
Um dia é o Rei-Militar, rigidamente hirto sob o casco e a couraça, occupado sómente de revistas e manobras, collocando um render-da-guarda acima de todos os negocios de estado, considerando o sargento-instructor como a unidade fundamental da nação, antepondo a disciplina do quartel a toda a lei Moral ou da Natureza, e concentrando a gloria da Allemanha na mechanica precisão com que marcham os seus galuchos. E subitamente despe a farda, enverga a blusa, e é o Rei-Reformador, só attento ás questões do capital e do salario, convocando com fervor congressos sociaes, reclamando a direcção de todos os melhoramentos humanos, e decidindo penetrar na historia abraçado a um operario como a um irmão que libertou. E logo a seguir, bruscamente, é o Rei-de-Direito-Divino, á Carlos V ou á Phillippe-Augusto, apoiando altivamente o seu sceptro gothico sobre o dorso do seu povo, estabelecendo como norma de todo o governo o sic volo, sic jubeo, reduzindo a Summa Lei á vontade do Rei e, certo da sua infallibilidade, sacudindo desdenhosamente para além das fronteiras todos os que n'ella não creem com devoção. O mundo pasma,—e, de repente, elle é o Rei de Côrte, mundano e faustoso, attento meramente ao brilho e ordem sumptuosa da Etiqueta, regulando as galas e as mascaradas, decretando a fórma do penteado das damas, condecorando com a Ordem da Corôa os officiaes que melhor valsam nos cotillons, e querendo volver Berlim n'um Versailles d'onde emane o preceito supremo do cerimonial e do gosto. O mundo sorri—e repentinamente é o Rei-Moderno, o Rei-Seculo-Dezenove, tratando de caturra o Passado, expulsando da educação as humanidades e as lettras classicas, determinando crear pelo parlamentarismo a maior somma de civilisação material e industrial, considerando a fabrica como o mais alto dos templos, e sonhando uma Allemanha movida toda pela electricidade...
Depois, por vezes, desce do seu palco—quero dizer, do seu throno—e viaja, dá representações atravez das cortes estrangeiras. E ahi, desembaraçado da magestade imperial, que em Berlim imprime a todas as suas figurações um caracter imperial, apparece livremente sob as fórmas mais interessantes que póde revestir nas sociedades o homem de imaginação. A caminho de Constantinopla, singrando os Dardanellos, na sua frota, é o artista que em telegramma ao chancelier do império (em que assigna Imperator Rex) pinta, n'uma fórma carregada de romantismo e côr, o azul dos céus orientaes, a doçura languida das costas da Asia. No Norte, nos mares scandinavos, entre os austeros fjords da Noruega, ao rumor das aguas degeladas que rolam por entre a penumbra dos abetos, é o Mystico, e prega sermões sobre o seu tombadilho, provando a inanidade das cousas humanas, aconselhando ás almas, como unica realidade fecunda, a communhão com o Eterno! Voltando da Russia é o alegre Estudante, como nos bons tempos de Bonn, e da fronteira escreve para S. Petersburgo ao marechal do Palacio uma carta em verso, fantasistamente rimada, a agradecer o kaviar e os sandwichs de foie-gras, collocados no seu wagon como provido farnel de jornada. Em Inglaterra está em um luxuoso centro de sociabilidade, e é o Dandy, com os dedos faiscantes de anneis, um cravo enorme na sobrecasaca clara, borboleteando e flirtando com a veia soberba de um D'Orsay!...—E subitamente, em Berlim, por alta noite, as cornetas soltam asperos toques de alarme, todos os fios da Agencia Havas estremecem, a Europa assustada corre ás gazetas, e um rumor passa, temeroso, de que «haverá guerra na primavra»! Que foi? No es nada, como se canta, no Pan e Toros. É apenas Guilherme II que resubiu ao seu palco—quero dizer, ao seu throno.
O mundo perplexo murmura:—«Quem é este homem tão vario e multiplo? O que haverá, o que germinará dentro d'aquella cabeça regulamentar de official bem penteado?» E o snr. Renan geme por morrer talvez antes de assistir, como philosopho, ao desenvolvimento completo d'esta ondeante personalidade! Assim Guilherme II se tomou um problema contemporaneo,—e ha sobre elle theorias, como sobre o magnetismo, a influenza ou o planeta Marte. Uns dizem que elle é simplesmente um moço desesperadamente sedento da fama que dão as gazetas (como Alexandre o Grande que, em risco de se afogar, já suffocado, pensava no que diriam os Athenienses) e que, mirando á publicidade, prepara as suas originalidades com o methodo, a paciencia e a arte espectacular com que Sarah Bernhardt compõe as suas toilettes. Outros sustentam que ha n'elle apenas um fantasista em desequilibrio, arrebatado estonteadamente por todos os impulsos de uma imaginação morbida, e que, por isso mesmo que é imperador quasi omnipotente, exhibe soltamente, sem que uma resistencia vigilante lh'os cohiba e lh'os limite, todos os desregramentos da fantasia. Outros, por fim, pretendem que elle é apenas um Hohenzollern em que se sommaram e conjunctamente affloraram com immenso apparato todas as qualidades de cesarismo, mysticismo, sargentismo, bureaucratismo e voluntarismo, que alternadamente caracterisavam os reis successivos d'esta felicissima raça de fidalgotes do Brandeburgo...