Talvez cada uma d'estas theorias, como succede felizmente com todas as theorias, contenha uma parcella de verdade. Mas eu antes penso que o imperador Guilherme é simplesmente um dilettante da acção—quero dizer, um homem que ama fortemente a acção, comprehende e sente com superior intensidade os prazeres infinitos que ella offerece, e a deseja portanto experimentar e gosar em todas as fórmas permissiveis da nossa civilisação. Os dillettante são-n'o geralmente de ideias ou de emoções—porque para comprehender todas as ideias ou sentir todas as emoções basta exercer o pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós, mortaes, podemos, sem que nenhum obstaculo nos coarcte, mover-nos liberrimamente nos illimitados campos do raciocinio ou da sensibilidade. Eu posso ser um perfeito dillettante de ideias, modestamente fechado, com os meus livros, na minha bibliotheca:—mas se tentasse ser um dillettante da Acção, nas suas expressões mais altas, commandar um exercito, reformar uma sociedade, edificar cidades, teria de possuir, não uma livraria, mas um imperio submisso. Guilherme II possue esse imperio; e hoje que se libertou da dura superintendencia do velho Bismarck, póde abandonar-se ao seu insaciavel dilettantismo da Acção, com a licença «com que o corsel novo (como diz a Biblia), galopa no deserto mudo». Quer elle o goso de commandar vastas massas de soldados, ou de sulcar os mares n'uma frota de ferro? Tem só de lançar um telegramma, fazer resoar um clarim. Quer elle a delicia de transformar, nas suas mãos potentes, todo um organismo social? Tem só de annunciar: «Esta é a minha ideia»—e lentamente a seus pés começará a surgir um mundo novo.
Tudo póde, porque governa dous milhões de soldados, e um povo que só zela a sua liberdade nos dominios da philosophia, da éthica ou da exegese, e que quando o seu imperador lhe ordena que marche—emmudece e marcha.
E tudo póde ainda porque inabalavelmente acredita que Deus está com elle, o inspira e sancciona o seu poder.
E é isto o que torna, para nós, prodigiosamente interessante o imperador da Allemanha:—é que, com elle, nós temos hoje n'este philosophico seculo, entre nós, um homem, um mortal, que mais que nenhum outro iniciado, ou propheta, ou santo, se diz, e parece ser, o intimo e o alliado de Deus! O mundo não tornára a presencear, desde Moysés no Sinai, uma tal intimidade e uma tal alliança entre a Creatura e o Creador. Todo o reinado de Guilherme II nos apparece, assim, como uma resurreição inesperada do mosaïsmo do Pentatheuco. Elle é o dilecto de Deus, o eleito que conferencia com Deus na sarça ardente do Schloss de Berlim, e que por instigação de Deus vae conduzindo o seu povo ás felicidades de Canaan. É verdadeiramente Moysés II! Como Moysés, de resto, elle não se cança de affirmar estridentemente, e cada dia, para que ninguem a ignore, e por ignorancia a contrarie, esta sua ligação espiritual e temporal com Deus, que o torna infallivel, e portanto irresistivel. Em cada assembleia, em cada banquete em que discursa (e Guilherme é de todos os reis contemporaneos o mais verboso) lá vem logo, á maneira de um mandamento, esta affirmação pontificial de que Deus está junto d'elle, quasi visivel na sua longa tunica azul dos tempos de Abrahão, para em tudo o ajudar e o servir com a força d'esse tremendo braço que póde sacudir, atravez dos espaços, os astros e os sóes, como um pó importuno. E a certeza, o habito d'esta sobrenatural alliança vae n'elle crescendo tanto que de cada vez allude a Deus em termos de maior igualdade—como alludiria a Francisco d'Austria, ou a Humberto, rei de Italia. Outr'ora ainda o denominava, com reverencia, o Amo que está nos céus, o Muito alto que tudo manda. Ultimamente porém, arengando com champagne aos seus vassalos da Marca Brandeburgo, já chama familiarmente a Deus—o meu velho alliado! E aqui temos Guilherme e Deus, como uma nova firma social, para administrar o Universo. Pouco a pouco mesmo, talvez Deus desappareça da firma e da taboleta, como socio subalterno que entrou apenas com o capital da luz, da terra e dos homens, e que não trabalha, ocioso no seu infinito, deixando a Guilherme a gerencia do vasto negocio terrestre:—e teremos então apenas Guilherme e Cia. Guilherme, com supremos poderes, fará todas as operações humanas. E «companhia» será a fórmula condescendente e vaga com que a Alemanha de Guilherme II designará Aquelle para quem todavia, segundo crêmos,—Guilherme II e a Allemanha toda são tanto, ou tão pouco, como o pardal que n'este instante chalra no meu telhado!
Um magnifico e insaciavel desejo de gosar e experimentar todas as fórmas da Acção, com a soberana segurança que Deus lhe garante e promove o exito triumphal de cada emprehendimento—eis o que me parece explicar a conducta d'este imperador mysterioso. Ora, se elle dirigisse um imperio situado nos confins da Asia, ou se não possuisse na Torre Julia um thesouro de guerra para manter e armar dous milhões de soldados, ou se estivesse cercado por uma opinião publica tão activa e coercitiva como a da Inglaterra, Guilherme II seria apenas um imperador, como tantos, na historia, curioso pela mobilidade da sua fantasia, e pela illusão do seu messianismo. Mas, infelizmente, plantado no centro da Europa trabalhadora, com centenares de legiões disciplinadas, um povo de cidadãos disciplinados tambem e submissos como soldados—Guilherme II é o mais perigoso dos reis, porque falta ainda ao seu dilettantismo experimentar a fórma da Acção mais seductora para um rei—a guerra e as suas glorias. E bem póde succeder que a Europa um dia acorde ao fragor de exercitos que se entrechocam—só porque na alma do grande dilettante o fogoso appetite de «conhecer a guerra», de gosar a guerra sobrepujou a razão, os conselhos e a piedade da patria. Ainda ha pouco, de resto, elle assim o promettia aos seus fieis solarengos do Brandeburgo:—«Levar-vos-hei a bellos e gloriosos destinos». Quaes? A varias batalhas de certo, onde triumpharão as Aguias germanicas... Guilherme II não o duvida—pois que tem por alliado, além de alguns reis menores, o Rei Supremo do Céu e da Terra, combatendo entre a Landwehr allemã, como outr'ora Minerva Athenea, armada da sua lança, combatia contra os barbaros em meio da phalange grega.
Esta certeza da alliança divina!... Nada póde dar mais força a um homem, na verdade, que uma tal certeza, que quasi o divinisa. Mas, tambem, a que riscos ella arrasta! Porque nada póde fazer tombar mais fundamente um homem do que a evidencia, perante a crua contradição dos factos, de que essa certeza era apenas a chimera d'uma desordenada fatuidade. Então verdadeiramente se realisa a quéda biblica do alto dos céus. Houve um povo que se proclamava ortr'ora o Eleito de Deus—mas apenas se provou que Deus não o elegera, nem o preferia a outro, por isso que o abandonava desdenhosamente—foi desmantelado com incomparavel furor, disperso e apedrejado por todos os caminhos do mundo, e encurralado em Ghettos, onde os reis lhe estampavam sobre a casa e sobre a campa uma marca como a que se estampa sobre a moeda falsa.
Guilherme II corre este lugubre perigo de cahir nas Gemonias. Elle assume hoje, temerariamente, responsabilidades que, em todas as nações, estão repartidas pelos corpos de Estado—e só elle julga, só elle executa porque é a elle, e não ao seu ministerio, ao seu conselho, ao seu parlamento, que Deus, o Deus de Hohenzollern, communica a inspiração transcendente.
Tem, portanto, de ser infallivel e de ser invencivel. No primeiro desastre, ou lhe seja infligido pela sua burguezia ou pela sua plebe nas ruas de Berlim, ou lhe seja trazido por exercitos alheios n'uma planicie da Europa, a Allemanha immediatamente concluirá que a sua tão annunciada alliança com Deus era uma impostura de despota manhoso.
E não haverá, então, da Lorena á Pomerania, pedras bastantes para lapidar o Moysés fraudulento! Guilherme II está na verdade jogando contra o destino esses terriveis dados de ferro, a que alludia outr'ora o esquecido Bismarck. Se ganha dentro e fóra da fronteira, poderá ter altares como teve Augusto (e de facto tambem Tiberio). Se perde, é o exilio, o tradicional exilio em Inglaterra, o cabisbaixo exilio, esse exilio que elle hoje tão duramente intima áquelles que discrepam da sua infallibilidade.
E não se mostraram já os prenuncios vagos do desastre? O grande imperador, ha dias, recebeu apupos nas ruas de Berlim. As plebes desconfiam de Guilherme e do seu Deus. E (signal temeroso) os pensadores e os philosophos que foram sempre, na muito intellectual Allemanha, os formidaveis esteios do despotismo militar dos Hohenzollerns, começam a amuar com o throno, e a retroceder, pelos caminhos vagarosos do liberalismo, para o povo e para a justiça social de que elle tem a consciencia ainda tumultuosa, mas exacta. Onde estão os tempos em que Hegel considerava a autocracia prussiana quasi como uma parte integrante da sua philosophia e da ordem do Universo? Onde estão as admirações de Herbat pelo «Estado concentrado no Soberano?» Onde estão esses altos entendimentos ensinando nas universidades que a summa da sapiencia politica na Prussia era—Deus salve o Rei? Onde estão esses louvores ao direito divino dos Hohenzollerns, cantados por Strauss, por Mommsen, por Von Sypel? Tudo passou! A metaphysica rosna descontente. Das duas grossas pedras angulares da monarchia prussiana, o philosopho e o soldado, Guilherme II hoje só tem o soldado:—e o throno, sobrecarregado com o imperador e o seu Deus, pende todo para um lado, que é talvez o do abysmo...