Não! não ha hoje já possibilidade que duas nações européas se batam por causa de terras coloniaes. Os europeus só se movem por interesses ou sentimentos europeus, e só por elles arrancam da espada.
Para as questões de colonias lá estão os congressos e os tribunaes de arbitragem. E uma senhora que ultimamente, n'um salão, considerava como a cousa mais pueril e mais grotesca que duas nações tão elegantes como a França e Inglaterra se batessem por causa de bichos tão feios como os siameses—estabelecia, sem o saber, a verdadeira doutrina do seculo. Quando a França, e a Inglaterra não vieram ás mãos por causa do Egypto, que é a joia do mundo, a terra entre todas preciosa, pela qual se têm dilacerado todos os povos desde o diluvio—não ha receio que jámais duas nações da Europa quebrem a doce paz por causa de interesses orientaes.
De sorte que todas as declamações dos jornaes sobre guerra são um mero desabafo de rhetorica heroica. E como não ha o menor perigo (e elles perfeitamente o sabem) de se chegar á boa cutilada, não é desagradavel, n'estes ociosos dias de verão, roncar d'alto, com o sobr'olho franzido, e a mão nos copos do sabre. Assim se vae gastando, com arreganho, alguma tinta—sem medo que se venha a gastar sangue.
Em todo o caso, n'estas rivalidades coloniaes entre a França e a Inglaterra, eu penso que a Inglaterra tem, em principio, mais direitos. Quando ella se apodera d'um d'esses desgraçados reinos d'Oriente (como a Birmania, ha pouco) sabe ao menos como ha-de utilisar e valorisar a sua conquista.
Em primeiro logar, tem logo um numero illimitado de homens, energicos e emprehendedores, que, ou sós, ou com as familias, embarcarão para ir povoar, colonisar, cultivar, industrialisar, e por todos os modos explorar a nova terra ingleza. Depois tem uma prodigiosa quantidade de productos fabris para exportar para lá, e lá vender, sem concorrencia. Depois tem uma collossal frota mercantil, para fazer com a nova possessão um commercio activo e contínuo. E emfim tem uma formidavel frota de guerra para defender a sua acquisição. A França, essa, não tem nada d'isto—nem frota, nem productos, nem homens. Não tem sobretudo homens, porque a população da França não chega mesmo para a França. Quando ella se apossa violentamente de Tunis ou do Tonkin, o unico acto colonial que depois pratica é remetter para a recente colonia alguns soldados e muitos empregados publicos. A França faz conquistas para exportar amanuenses. No Tonkin, por exemplo, ella possue, no solo, occultas riquezas maravilhosas; mas não tem colonos que as vão explorar. A expansão colonial da França não dá assim lucro nenhum, ou alargamento á civilisação geral. Apenas promove, através dos mares, uma deslocação de amanuenses aborrecidos e enjoados. Ao contrario, cada palmo de chão, que a Inglaterra occupa, entra no movimento universal da industria e do commercio.
A Inglaterra tem virilidade colonial e a França só impotencia. Quando um homem novo, robusto, activo, penetra numa aldeia e rouba uma linda rapariga, commette de certo um acto escandaloso, e que todos devem condemnar com severidade. Mas esse valente homem tem uma justificação, um motivo que se comprehende (e com que mesmo se sympathisa): e se, d'esse enlace, lamentavelmente illegitimo, nascerem filhos sãos, fortes, activos, ha alli um positivo lucro para a humanidade e para a civilisação. Quando, porém, é um velho de oitenta annos, regelado, cachetico e a babar-se, que penetra na aldeia e rouba a linda moça, estamos então deante de um escandalo que não tem justificação possivel. É um escandalo ignominiosamente esteril. Nada lucra com elle a humanidade, nem o velho. E só podemos cruzar os braços com espanto e indignação, e exclamar: «Para que quer aquelle velho aquella moça?»
E é o que exclamamos agora, tambem, cruzando os braços: «Para que quer esta França este Sião?»
Eu tenho um amigo que esteve n'esse pobre Sião, hospedado pelo rei, no palacio, e conta detalhes bem pittorescos.
Todo o reino de Sião pertence ao rei, tão completamente como ahi uma fazenda de café pertence ao fazendeiro. O rei é o dono do solo, dos edificios, dos habitantes e da riqueza dos habitantes. Póde, querendo, doar, hypothecar, trocar ou vender o reino com tudo o que está dentro das fronteiras.
É uma posse agradavel. O povo, por seu lado, considera o rei não só como seu dono, mas como seu deus. E a formula religiosa (como se dissessemos o artigo da Constituição) que define as relações e deveres entre povo e rei é esta: «Do rei o povo recebe a vida, o movimento e o sêr».