O rei tem um nome immenso, chama-se Prabat-Tomedetch-Pra-Parammdir, etc., etc., etc. Todo elle não caberia em cincoenta linhas. E de cada vez que se falla ao rei (só os nobres gosam esse privilegio) é da etiqueta invocal-o com o nome todo.

Uma conversa com Sua Magestade dura, assim, longas e longas horas, por causa do nome. De facto a mais laboriosa e pesada occupação da corte é pronunciar o nome d'el-rei.

Pessoalmente, o rei é um homem excellente, cultivado, affavel, gracejador, bondoso. É mesmo bonito, para siamez.

E as suas maneiras têm nobreza. O que a estraga é o seu illimitado poder, a sua posição de divindade, e a prodigiosa, inverosimil adulação que o cerca. Assim é uma regra (e cumprida com fervor) que todo o siamez que tem uma filha bonita a dê de presente ao rei. As suas concubinas officiaes excedem em numero as de Salomão. São aos milhares. E o rei, apesar de novo, de não contar ainda quarenta annos, já tem cento e oitenta e tantos filhos! Tudo isto, esposas e filhos, vive no palacio, que offerece as proporções de uma vasta cidade. Ha ruas inteiras de esposas! Ha bairros inteiros de filhos! Toda esta immensa familia vive com um luxo immenso, e o rei, apesar de dispôr de todas as riquezas do Sião como suas, está horrivelmente endividado em Londres. Ás vezes, porém, elle proprio procura fazer economias: e foi assim que, no momento em que o meu amigo estava no Sião, el-rei deu ordens para que, por economia, se não ferrassem mais os cavallos da cavallaria. Havia cem cavalleiros, eram cem ferraduras poupadas. Eis aqui um traço bem siamez!

O rei nunca sáe do palacio, não conhece o seu reino, mal conhece a sua capital, que é Bangkok. Quando por acaso dá um passeio, é uma grande festa, uma grande gala. As ruas são aplainadas e areadas; pintam-se as casas de fresco; os canaes (porque Bangkok assemelha-se a Veneza) levam uma rapida limpeza; toda a população se lava, se alinda, se cobre de joias; e para que não chova celebram-se preces nos templos. Depois o rei recolhe, e por muitos e muitos mezes, Bangkok recahe no usual desleixo e porcaria. Só no palacio ha aceio. De resto, o palacio é que é a nação.

Mas basta de Sião! A culpa é de Pariz que não se quer occupar senão d'este remoto reino, cuja existencia elle, ainda ha oito dias, ignorava. Porque o francez, e sobretudo o pariziense, continua a ser aquelle que Goethe descreveu—«um individuo de muitos cumprimentos, que não sabe geographia.» É talvez mesmo para ensinar geographia ao povo francez que o seu governo emprehende conquistas. Para que, fóra da Europa, elle conheça uma nação, o governo préviamente faz d'ella uma colonia.

Assim se irá alargando a instrucção geographica em França. E, com as acquisições coloniaes feitas n'este seculo, já o francez, quando se lhe perguntar quantas são as partes do mundo, poderá (o que outr'ora não podia) responder com um saber exacto e forte:

—Cinco: A Europa, a Algeria, Tunis, o Tonkin, o Sião!


VII. A QUESTÃO BULOZ-A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»-PARIZ NO VERÃO.