Por fim o Sião cedeu:—e, muito avisadamente, para evitar a immensa maçada de se bater (o que é extremamente penoso, no verão, para um oriental d'habitos dôces e languidos), para evitar tambem a horrivel séca de ser vencido, e talvez desthronado, o rei de Sião entregou á França, incondicionalmente, todos os milhões e todas as provincias que ella reclamava para «vingar a sua honra.»

Póde pois esse excellente e ameno monarcha continuar placidamente a educar nas ideias da civilisação occidental (de que elle acaba de ter uma tão directa experiencia) os seus cento e oitenta filhos. E o Sião desapparece das preoccupações do mundo. Era tempo: havia semanas que se desleixavam os grandes assumptos, os que verdadeiramente interessam a humanidade, como o caso do snr. Buloz.

Não sei se conhecem ahi a questão Buloz. Pois é uma questão tremenda. Basta ver como diariamente os jornaes a retomam, a sondam em todos os seus escaninhos, lhe annunciam a evolução, lhe prophetisam soluções, fazem depender d'ella os destinos das boas lettras francezas. Não ha ninguem que não conheça Buloz. Pelo menos ninguem deve ignorar o seu nome n'esses dous mundos que elle, todos os quinze dias, esclarece, educa e entretem, por meio da sua illustre e famosa Revista. Porque é d'elle que se trata, de Buloz, do unico Buloz, de Buloz director da Revista dos Dous Mundos!

Que memorias este nome de Buloz nos traz da nossa mocidade! Nenhum havia então que nós pronunciassemos com mais alegre horror—porque elle representava, para o nosso grupo revolucionario e enthusiasta das fórmas novas e audazes, tudo quanto na litteratura havia de mais conservador e burguez. Toda aquella sua séria e ponderosa Revista dos Dous Mundos nos parecia então exhalar um cheiro horrendo a bafio e a lettras mortas.

E escrever na Revista, pertencer á Revista era para nós uma maneira especial de ser fossil.

Quantas alcunhas pittorescas postas a essa magestosa Revista! Quantas phantasias edificadas sobre a sua faculdade de adormecer e de embrutecer! Um amigo nosso compuzera um conto em que o heroe, trahido n'um amor sincero, e appetecendo a morte, escolhia, em vez d'um frasco de laudano, um numero da Revista dos Dous Mundos:—e ao chegar ás ultimas paginas, á «Chronica da Politica Estrangeira», mergulhava com effeito no somno eterno. Ainda me lembro d'uma definição da Revista, dada por um de nós:—«Uma publicação côr de tijolo, que tem dous leitores no Havre!»

Tudo isto era excessivo e injusto. A Revista, de facto, tinha leitores por todo o mundo:—e, como se sabe, e já tem sido dito, Todo-o-Mundo é um sujeito que tem muito mais espirito que Voltaire. Com os seus trinta annos de valente existencia, ella era já então uma larga e fecunda remexedora de ideias e de factos:—e não houvera de resto nenhum grande francez, desde Alfred de Musset, que não tivesse commettido esse acto, para nós tão vergonhoso: «escrever na Revista». Todos tinham escripto—mesmo Murger, o bohemio. Nós, porém, só começámos a desarmar do nosso rancor, quando ella publicou versos dos dous grandes idolos d'essa geração—Lecomte de Lisle e Beaudelaire. É verdade que os versos de Beaudelaire, tirados das Flores do Mal, apresentou-os ao publico, por assim dizer, na ponta de tenazes, e com immensas precauções sanitarias. Havia por baixo dos versos uma nota da direcção, toda enojada, em que ella repellia qualquer solidariedade com semelhante infecção, e jurava que só a exhibia como uma lição moral, para mostrar a que excessos e a que desordens póde rolar a litteratura, quando sacode audazmente a salutar disciplina e as boas regras de Boileau. Mas, emfim, publicava Beaudelaire (mesmo alguns dos versos mais temerarios)—e esta concessão, este começo de homenagem prestada ao Satanismo (o Satanismo era então uma escola, e todos nós nos consideravamos Satanicos) adoçou um pouco as nossas relações intellectuaes com a Revista. Modificámos mesmo a definição irrespeitosa. Era então uma «publicação côr de salmão, que tinha já dous leitores no inferno!»

Tão persistentes são as impressões da mocidade, que ainda hoje eu não vejo a Revista dos Dous Mundos sem um sentimento vago e inexplicavel de tédio. Sei perfeitamente que ella é cheia de bom senso e de saber especial, possue uma lingua sobria e pura, tem muita elegancia e finura academica, e por vezes se lhe encontra, aqui e além, um sopro de forte originalidade. Mas quê! A sua presença é para mim como a de uma grave matrona, pesada, rica, bem collocada no mundo, cujos labios descorados, faltos de sangue vivo, só deixam cahir, com uma arte discreta, o que está absolutamente dentro do decoro e da tradição. Não duvido que a convivencia com essa matrona seja salutar, proveitosa, e conducente a boas vantagens sociaes; mas prefiro ainda assim uma musa alegre do Quarter Latin. É talvez para fingir a mim proprio que ainda sou moço.

Foi por isso com certa alegria maliciosa que eu li nas gazetas que o snr. Buloz e, com elle, a pudibunda Revista dos Dous Mundos se achavam envolvidos n'um escandalo de amores e de intrigas. O quê! Ella, a Revista, que com tão austera altivez denunciara durante tantos annos Zola á execração publica, eil-a agora atolada, e até ao pescoço, n'uma aventura escabrosa! Como assim? Buloz, o proprio Buloz, que fazia uma tão severa policia dentro da sua Revista, que esquadrinhava todos os romances com terror de que lá estalasse n'algum canto algum beijo mais voraz, que perseguia rancorosamente, com a ferula da honestidade, e em nome do «pudor domestico», toda a litteratura de observação, sincera e livre, eil-o agora por terra, enrodilhado em saias ligeiras e illegitimas!! Como assim? E tudo isto, pelo contraste eterno entre o que frei Thomaz prega e o que frei Thomaz faz, me parecia divertido.

Depois, mais informado, lamentei sinceramente o excellente Buloz e a excellente Revista. Porque não havia aqui realmente um romance d'esses que o proprio Buloz condemnava sombriamente como «infectos»—mas um roubo, um longo e abjecto roubo, organisado contra Buloz, e portanto contra a Revista de que elle é a encarnação viva—por dous d'esses horriveis personagens a que Balzac chamava impropriamente os tubarões de Pariz. Tubarões, sim, no sentido de nadarem anciosamente no oceano pariziense á cata da presa. Mas isso mesmo fazem todos os peixes, no mar e em Pariz.