Os tubarões, porém, e é essa a sua feição caracteristica, engolem indifferentemente e com egual appetite uma velha garrafa vazia, ou uma gorda e succulenta pescada; e estes tubarões de Pariz, de que falla Balzac, escolhem com cuidado a presa, e só arremettem contra ella, quando ella é tão succulenta e gorda como Buloz.

O caso, tal como transparece, atravez de tantas versões e mesmo de tantas ficções, é lamentavel. Buloz ha annos, no meio do caminho da sua vida (como diz o Dante, que tinha um modo incomparavelmente magnifico de contar estes casos) encontrou uma rapariga. Não era uma Beatriz, mas uma fulana qualquer, que nem ao menos tinha belleza justificativa. Mas, quando se tem vivido, durante vinte annos, dentro da Revista dos Dous Mundos, toda a face moça, com um pouco de lume no olho, parece uma visão de alto esplendor. Buloz, apesar de director de revista, era homem e sensivel. Teve n'uma hora nefasta (talvez entre dous artigos de Charles de Mazade!) uma d'aquellas tentações que, a acreditarmos Santo Agostinho, nenhuma alma, nem mesmo robustecida na constante convivencia dos Broglie e dos Remusat, evita ou vence.

Buloz cedeu—ou, antes, a rapariga cedeu. (E o ingrato Buloz agora pretende, em confidencias que fez a um reporter do Gaulois, que «foi uma semsaboria».) Semsaboria ou delicia, desde esse momento supremo elle passou a ser o homem mais explorado de toda a christandade e mesmo de toda a mourama. Pagou, naturalissimamente, as toilettes da menina e da familia da menina; mobilou para a menina casa no campo e casa na cidade; e para a tornar mais respeitavel, e robustecer a sua posição na sociedade, deu um dote e um marido á menina.

Educado no idealismo incorrigivel dos romances da Revista, imaginava Buloz que, tendo fornecido o dote e o marido, liquidara para sempre o erro sentimental da sua vida. Buloz ignorava a realidade humana, e sobretudo pariziense. Desde esse instante, ao contrario, a menina e o marido tomaram posse definitiva de Buloz. Ameaçando o desventuroso homem de revelarem a sua «infamia de seductor» a Mme Buloz e á Revista dos Dous Mundos, o horrendo casal passou a saquear Buloz, como se saqueia uma cidade conquistada.

Ao principio com methodo, com ordem, mensalmente. No primeiro do mez, os dous bandidos apresentavam a conta do seu silencio—e Buloz pagava pontualmente o silencio dos dous bandidos. Depois as exigencias foram mais urgentes e tumultuosas. É o comer que faz a fome. O abominavel par queria reunir rapidamente uma fortuna—e cada dia, agora, ás vezes mesmo duas vezes por dia, Buloz recebia a reclamação de novas sommas a pagar. E pagava—para manter intacta no mundo, com a sua posição domestica, a sua situação social de director grave de uma revista grave. Estava quasi arruinado—e a menina e o marido não estavam saciados. Ao contrario, fartos das pequenas sommas «que não luzem», queriam a grossa somma—e, com ameaças mais ferozes, forçaram o infeliz homem a assignar uma lettra promissoria de perto de setecentos mil francos.

Buloz, todavia, já tinha dado mais de um milhão!

Segundo elle affirma, Buloz queixou-se á policia. Mas, ao que parece, os dous bandidos, por isso mesmo que estavam ricos, tinham já adquirido respeitabilidade e amigos. Havia grossas influencias que os protegiam contra as queixas de Buloz—influencias pagas talvez com o dinheiro sacado a Buloz. Alliança de «tubarões»—como diria Balzac. O facto é que a policia se conservou n'uma magistral indifferença. Então, estonteado, desesperado, Buloz, um dia, foi contar tudo á sua mulher e á sua Revista. Immediatamente, implacavelmente, Mme Buloz se separou do seu marido, e a Revista dos Dous Mundos se separou do seu director. E o grosso escandalo domestico e litterario estalou sobre Pariz.

Que fará em definitiva Mme Buloz? Sobretudo, que fará em definitiva a Revista dos Dous Mundos? Era esta, durante semanas, a interrogação anciosa de Pariz, que, mais que nenhuma outra cidade da Europa, se compõe de comadres mexeriqueiras. A solução não tardou—e cruel.

Uma sentença do tribunal dos divorcios pronunciou seccamente o divorcio entre Buloz e Mme Buloz. E uma assembléa dos accionistas da Revista pronunciou egualmente divorcio entre a casta Revista dos Dous Mundos e o seu galante director Buloz. Assim Buloz, ao fim da vida, perde a sua mulher e a sua revista. E porquê? Por ter sido abjectamente roubado, durante annos, por dous odiosos bandidos. Esses é que não perderam nada, os bandidos, nem mesmo a consideração do seu bairro, porque durante todo o escandalo os seus nomes não foram sequer pronunciados, á maneira de nomes sagrados. Tal é Pariz.

Sobre a resolução de Mme Buloz não é permissivel fazer commentarios. Mas a resolução dos accionistas da Revista parece-me excessivamente austera e illogica.