INDICE

[I. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.]
[II. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.]
[III. O IMPERADOR GUILHERME.]
[IV. O GRAND-PRIX-A ESTATUOMANIA-OS COCHEIROS-VICTOR HUGO-O CAMPO EM PARIZ.]
[V. O 14 DE JULHO-FESTAS OFFICIAES-O SIÃO.]
[VI. A FRANÇA E O SIÃO.]
[VII. A QUESTÃO BULOZ-A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»-PARIZ NO VERÃO.]
[VIII. AS ELEIÇÕES-A ITALIA E A FRANÇA.]
[IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.]
[X. AS FESTAS RUSSAS-A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA-NOTICIAS DO BRASIL.]
[XI. A HESPANHA-O HEROISMO HESPANHOL-A QUESTÃO DAS CAROLINAS-OS ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.]
[XII. O SNR. BARTHOU-A «ANTIGONE» DE SOPHOCLES-«LES ROIS» DE JULES LEMAITRE.]
[XIII. OS ANARCHISTAS VAILLANT.]
[XIV. OUTRA BOMBA ANARCHISTA-O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.]
[XV. AS «INTERVIEWS»-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»-A MONARCHIA ITALIANA-O QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA-A SINCERIDADE E O OPTIMISMO OFFICIAL.]
[XVI. O «SALON».]
[XVII. CARNOT.]
[XVIII. A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.]


I. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.

Eu não direi como Lord Beaconsfield que «no mundo só ha de verdadeiramente interessante Pariz e Londres, e todo o resto é paizagem». É realmente difficil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo de um ulmeiro, ou vêr apenas no movimento social da Allemanha um fresco regato que vae cantando por entre as relvas altas.

Não se póde negar, porém, que a multidão contemporanea tende para esta opinião do romanesco auctor de Tancredo e da Guerra do Afganistan: nada vê no Universo mais digno de ser estudado e gozado do que a sociedade, essa cousa scintillante e vaga que póde comprehender desde as creações da Arte até aos menus dos restaurantes, desde o espirito das gazetas até ao luxo das librés—e, muito racionalmente, corre a observar a sociedade, a penetrar-se d'ella, onde ella é mais original, mais complexa, mais rica, mais pittoresca, mais episodica,—em Pariz e em Londres: ao resto da terra pede apenas scenarios de natureza, reliquias d'arte, trajos e architecturas...

...Em Roma contempla os ornamentos do passado—o Colyseu e o Papa; em Madrid interessam-n'o só os Velasquez e os touros; ninguem viaja na Suissa para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para embasbacar deante dos Alpes. E assim para a turba humana, mais impressionavel que critica, o mundo apparece como uma decoração armada em torno de Pariz e Londres, uma curiosidade scenographica que se olha um momento, fixando-se logo toda a attenção na tragi-comedia social que palpita ao centro.

Isto é uma superstição. Mas se, realmente, o mundo fôsse apenas uma paizagem accessoria—a devoção burgueza por Pariz e Londres, residencias privilegiadas da humanidade creadora, seria justificavel: porque, na verdade, o interesse do Universo está todo na vida e na sua lucta, na sua paixão e no seu ceremonial, no seu ideal e no seu real. O sol, nascendo por traz das Pyramides, sobre o fulvo deserto da Lybia, fórma um prodigioso scenario; o Valle do Chaos, nos Pyreneos, é d'uma grandeza exuberante;—mas todos estes espectaculos hão-de ser sempre infinitamente menos interessantes que uma simples comedia de ciumes, passada n'um quinto andar. Que ha com effeito de commum entre mim e o Monte Branco? Emquanto que as alegrias amorosas do meu visinho ou os prantos do seu luto são como a consciencia visivel das minhas proprias sensações.

O grande Dickens, deante dos Alpes ou dos palacios de Veneza, punha-se a pensar com saudade nas tristes ruas de Londres, n'um rumor de fim de dia, e no prazer de surprehender as expressões de anciedade, triumpho ou dôr, nas faces dos que passam, alumiados pelo gaz vivo das lojas. É que o melhor espectaculo para o homem—será sempre o proprio homem.

Se sobre a terra só houvesse fachadas de cathedraes ou vulcões flammejantes, a terra parecernos-ia tão insípida como a lua, ou (ainda que isto seja talvez exagerado) como a propria Lisboa. Por mais cantantes que sejam as aguas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o valle—a paizagem é intoleravel, se lhe falta a nota humana, fumo delgado de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença d'um peito, d'um coração vivo.