Mas a verdade é que, fóra de Pariz e Londres, ha tambem humanidade. S. Petersburgo não fórma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo persiste, em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou S. Petersburgo como um méro accessorio da decoração, como aquelle arabesinho diminuto que os photographos collocam sempre á base das ruinas de Palmyra, ou como esses pastores vestidos de um farrapo de purpura, que nos quadros do seculo XVII ornam as paizagens ideaes.

O que essa humanidade de provincia faz, diz, soffre ou goza—é-lhe indifferente. Não é a ella que vae vêr, se visita os logares que ella habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada, é algum monumento, algum panorama—a paizagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o estrangeiro, Portugal é Cintra, a Allemanha é o Rheno: até mesmo na ideia de Lord Byron, e de outros depois d'elle, o que estraga a belleza de Lisboa é a presença do lisboeta—como a mim o que me estraga a Allemanha é a presença do prussiano. Positivamente a multidão só reconhece uma sociedade—a de Pariz e de Londres.

Mas, dentro em pouco, nem ruinas, nem monumentos haverá dignos de viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua originalidade tradicional, e nas maneiras e nos edificios, desde os regulamentos de policia até á vitrine dos joalheiros, dar-se a linha parisiense. No Cairo, cidade dos califas, ha copias do Mabille, e os Ulemas esquecem as metaphoras gentis dos poetas persas, para repetir os ditos do Figaro; o primeiro som que ouvi ao penetrar as muralhas de Jerusalem foi o can-can de Bella Helena, e sahiu da habitação de um rabbi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a areia dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dous velhos collarinhos de papel, modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao Precursor, mas lá estavam, e despoetisam sufficientemente aquella riba sagrada.

O mundo vae-se tornando uma contrafacção universal do Boulevard e da Regen-street. E o modelo das duas cidades é tão invasor que, quanto mais uma raça se desoriginalisa, e se curva á moda francesa ou britannica, mais se considera a si mesma civilisada e merecedora dos applausos do Times. O japonez julga-se, na escala dos sêres, muito superior ao chinez, porque em Yedo já o indigena se penteia como o tenor Capoul, e lê Edmond About no original, emquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas de Pekin, ainda vae no rabicho e em Confucio. E, ainda assim, nas margens do Amor já ha fabricas de tecidos de algodão como em Manchester.

Positivamente, inclino tambem para a ideia de Lord Beaconsfield: a originalidade viva do Universo está em Pariz e em Londres: tudo mais é má imitação da provincia. Por isso a curiosidade publica é impellida para lá—dando ao resto do mundo apenas aquelle olhar rapido que se tem para o fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paizagem ou se perfilam linhas de um portico.

É por isso que ninguem que tenha o orgulho de se considerar sêr racional prescinde de se informar diariamente de tudo que se passa em Pariz ou em Londres, desde as revoluções até ás toilettes, desde os poemas até aos escandalos.

O desejo mais natural do homem é saber o que vae no seu bairro e em Pariz.

Que importa o que succede na Asia Central, onde os russos se batem, ou na Australia onde ha crise ministerial? O que se quer saber é o que fez hontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall.

E com razão: a Asia Central e a Australia não ensinam nada, e Pariz e Londres ensinam tudo.

Tendo assim sacrificado sufficientemente á regra, que quer que todo o escriptor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto sem se fazer preceder de phrases genéricas armadas em portico—creio que devo começar esta chronica fallando hoje de Pariz, capital dos povos e patria genuina de Mr. Prudhomme...