O acontecimento saliente e commentado d'estes ultimos dias é a manifestação do dia 23 de maio. Lembram-se que ha nove annos, n'essa data, na semana sanguinolenta da derrota da Communa, os regimentos de Versailles, invadindo Pariz, n'uma demencia de represalias, fizeram uma exterminação á antiga, fuzilando sem discernimento pelos pateos dos quarteis, entre os tumulos dos cemiterios, sob o portico das egrejas, todo o sêr vivo que era surprehendido com as mãos negras de polvora, e um calôr de batalha na face.

Trinta e cinco mil pessoas fôram aniquiladas n'esta S. Barthelemy conservadora, n'esta hecatombe da plebe, offerecida em sacrificio á ordem com o delirio com que o rei de Dahomey decapita tribus inteiras em honra do idolo Gri-gri, ou os carthaginezes immolavam uma mocidade, toda uma primavera sagrada, para applacar o mais cruel dos Baals, o negro e flammejante Moloch.

Onde fôram sepultados tantos montões de cadaveres?... Apenas se sabe que parte foi arremessada á valla commum de Père-Lachaise.

Os annos passaram, e os vencidos d'então são hoje cidadãos formidaveis, armados não da espingarda revolucionaria, mas de um legal boletim de voto, e que, em logar de erguer barricadas nas ruas, fazem deputados socialistas nas eleições.

No dia 23 de maio, pois, anniversario do exterminio dos seus, preparavam-se elles para ir atravez das ruas de Pariz, n'uma vasta procissão funeraria, com coroas de perpetuas na mão, visitar essa lugubre valla onde apodrecem os seus mortos.

O governo do snr. Grevy, porém, inquietou-se com este ceremonial, e, ou promettendo concessões ao velho mundo communard a troco da desistencia d'esta pompa funebre (tão parecida com uma commemoração triumphal) ou ameaçando mandar carregar 20.000 homens contra o prestito e fazer assim recahir sobre os chefes da manifestação a responsabilidade de um conflicto sangrento—conseguiu que n'esse dia a massa communista ficasse chorando os seus mortos, no silencio das suas alcovas. Mas alguns exaltados, desattendendo a disciplina do partido, persistiram na demonstração luctuosa; e assim como de uma nuvem negra, que ameaça um diluvio, só vêm a cahir aqui e além algumas gottas d'agua, assim de toda aquella população que devia descer dos faubourgs apenas se viram pelas ruas grupos de dez, quinze pessoas, dirigindo-se ao Père-Lachaise com a sua blusa nova, e a corôa de perpetuas na mão: sómente por amor do symbolo, as coroas eram vermelhas.

Estes mesmos fragmentos de manifestação desagradaram ao governo e á prefeitura, e viu-se então um espectaculo bem proprio a regosijar o coração do homem livre: quando, ao Père-Lachaise, onde se apinhavam batalhões de policias, um homem se approximava da valia a depôr a sua corôa sobre a herva verde, um sergent de ville precipitava-se, verificava de sobr'olho duro que as perpetuas eram escarlates, e arrastava o individuo ao carcere; e se o cidadão, ignorando que sob a republica é um crime chorar os mortos e ornar-lhes a sepultura, protestava com vehemencia, a policia demonstrava-lhe a pranchadas que a republica é um governo forte e contundente...

Mas, o que iam elles fazer ao Père-Lachaise com as suas perpetuas symbolicas, estes revoltados, estes exaltados, que em principio abominam a religião e os seus ceremoniaes?

O mais illustre jornal do partido, o Mot d'Ordre, descrevia ha dias uma festa no Sacré Cœur n'estes termos phantasticos: «Hontem havia no Sacré Cœur uma reunião de individuos celebrando algumas ceremonias barbaras em honra de um personagem exquisito e obscuro, vulgarmente designado pelo nome extravagante de Deus». Ora, parece extraordinario que individuos que possuem phrases tão avançadas, vão commemorar um anniversario de morte—da morte que não deve ser para elles mais que uma banal transformação da substancia, com as tradicionaes etiquetas do catholicismo; e que procedam deante de um tumulo amigo, como se acreditassem que o corpo jaz alli intacto e paciente, sob as flôres agrestes, esperando o toque do clarim do juizo final, emquanto a alma paira no ether mystico, misturando-se á vida terrestre e gosando a offerta de symbolos saudosos...

Mas, mais estranho que tudo é a influencia do vermelho no animo da policia, como entre nós nos temperamentos dos touros.